A Bhagavad Gita e a guerra

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Arjuna e Krishna
» por Svami Prabhavananda e Chistopher Isherwood

Antes da batalha de Kurukshetra começar, Arjuna pede a Krishna para levar sua carruagem até o espaço aberto entre os dois exércitos, para que possa ver os homens com quem vai lutar. Quando Krishna chega lá, Arjuna reconhece muitos de seus parentes e velhos amigos entre as fileiras do inimigo. Fica horrorizado pela revelação de que está para matar aqueles a quem ama mais do que a si mesmo. Em seu desespero, exclama: “Não lutarei!”.

A resposta de Krishna a Arjuna ocupa o resto do livro. Ela trata não apenas do problema pessoal imediato de Arjuna, mas de toda natureza da ação, do significado da vida e dos objetivos pelos quais o homem deve lutar aqui na terra. No fim de sua conversa, Arjuna muda de idéia. Ele está pronto para lutar. E a batalha começa.

Para compreender a Gita, devemos considerar o que ela é e o que não é. Devemos considerar seu cenário. Quando Jesus falou as palavras que foram registradas como o Sermão da Montanha, ele estava se dirigindo a um grupo de devotados seguidores numa atmosfera campestre cheia de paz, longe de toda luta e confusão. Então Ele lhes ensinou o mais elevado e rigoroso ideal, o da Não-violência.

A Gita é muito diferente. Krishna e Arjuna estão num campo de batalha. Arjuna não é um monge dedicado, mas um chefe de família e um guerreiro, por nascimento e profissão. Ele corresponde ao cavaleiro medieval do Cristianismo. Seu problema é considerado em relação às circunstâncias do momento.

Ao ensinar Arjuna, Krishna emprega dois tipos de valores: o relativo e o absoluto. Ele começa, de modo geral, por avaliar o sentimento de repulsão de Arjuna. Arjuna se retrai do ato de matar. Krishna lembra-lhe que, num sentido absoluto, não existe tal ato. O ãtman, a Divindade que habita o interior, é a única realidade. Este corpo é simplesmente uma aparência: sua existência e destruição igualmente são ilusórias. Para Arjuna, um membro da casta guerreira, a luta dessa batalha é sem dúvida “justa”. Sua causa é justa. Defendê-la é seu dever.

Na Gita, descobrimos que o sistema de castas está presente como uma ordem natural. Os homens estão divididos em quatro grupos, de acordo com suas capacidades e caracterí­sticas. Cada grupo tem seus deveres peculiares, éticos e responsabilidades; e esses devem ser aceitos. É o modo de crescimento espiritual. Um homem deve prosseguir de onde se encontra. Não pode pular para o Absoluto; deve evolver em direção a Ele. Não pode arbitrariamente assumir os deveres que pertencem a um outro grupo. “É preferí­vel morrer fazendo o teu próprio dever”, ensina Krishna. “O dever de um outro te causará grande perigo espiritual”. Socialmente, o sistema de castas é gradual; mas, espiritualmente, não há tais distinções. Cada um pode chegar à mais alta santidade seguindo o caminho prescrito por seu próprio dever de casta. E na Europa, bem como na Ásia, houve homens que evolveram em gigantes espirituais enquanto desempenhavam seus deveres como mercadores, camponeses, médicos, papas, lavadores de pratos ou reis.

Na esfera puramente fí­sica da ação, Arjuna não é mais, de fato, um agente livre. O ato da guerra pesa sobre ele: envolve suas ações prévias. A um dado momento no tempo, somos o que somos e temos que aceitar as consequências de sermos nós mesmos. Somente através dessa aceitação podemos começar a evolver mais além. Não podemos evitar a batalha.

Arjuna é obrigado a agir, mas ainda está livre para fazer sua escolha entre dois diferentes modos de executar a ação. De modo geral, a Humanidade quase sempre age com apego, quer dizer, com medo e desejo. Desejo por um certo resultado e o medo de que esse resultado não seja obtido. Ação vinculada amarra-nos ao mundo das aparências, ao fazer continuado de mais ação.

Porém, há um outro modo de executar a ação, que é desempenhá-la sem medo e sem desejo. Os cristãos chamam-na de “sagrada indiferença”, e os hindus de “não-apego”. Ambos os nomes são ligeiramente distorcidos. Sugerem frieza e falta de entusiasmo. Essa é a razão pela qual as pessoas confundem “não-apego” com fatalismo, quando, na verdade, são opostos. O fatalista simplesmente não se importa. Ele aceitará o que vier. Por que fazer qualquer esforço? No entanto, aquele que pratica a ação sem apego é o mais consciente dos homens. Liberto do medo e do desejo, ele oferece o que faz como um sacramento de devoção a seu dever. Todo trabalho torna-se igual e vitalmente importante. É apenas a respeito do resultado do trabalho – sucesso ou fracasso, louvor ou censura – que ele permanece indiferente. Se a ação for feita nesse espí­rito, ensina Krishna, levar-nos-á ao conhecimento do que está por trás da ação, por trás de toda a vida: a Realidade última. E com o crescimento desse conhecimento, a necessidade de mais ação gradualmente nos abandonará. Realizaremos nossa verdadeira natureza, que é Deus.

Quer dizer, portanto, que cada ação, sob certas circunstâncias e para certas pessoas, pode ser um trampolim para o crescimento espiritual, caso seja feita no espí­rito de não-apego. Todo bem e mal é relativo sob o ponto de vista individual do crescimento. Para cada indiví­duo, certos atos são absolutamente errados. De fato, pode haver atos que sejam absolutamente errados para todo indiví­duo vivo na terra, hoje. Mas, no sentido mais elevado, não pode haver nem bem nem mal. Como Krishna está falando como o próprio Deus, ele pode tomar essa altitude, e aconselhar Arjuna a lutar. Não se trata aqui de fazer o mal para que o bem possa vir. A Gita não aprova esse oportunismo. Arjuna deve fazer o melhor para o ótimo. Mais tarde, sua luta em Kurukshetra parecer-lhe-á nociva e será nociva, então. Fazendo o mal que você sabe ser mal, nunca fará o bem. Levará apenas a um mal maior, a mais apego e mais ignorância.

A Gita é acusada, às vezes, de sancionar a guerra, e de ensinar o oposto dos ensinamentos de Cristo, Buddha, e outros grandes mestres espirituais. Na verdade, a Gita não sanciona a guerra nem a condena. Não considerando ação alguma como sendo de valor absoluto, nem para o bem, nem para o mal, não pode absolutamente fazê-lo. Sua mensagem deveria alertar-nos para não ousar julgar os outros. Como podemos nós prescrever o dever de nosso vizinho, quando nos é tão difí­cil saber o nosso próprio? O pacifista deve respeitar Arjuna. Arjuna deve respeitar o pacifista. Ambos estão indo em direção ao mesmo objetivo, se forem realmente sinceros. Há uma solidariedade inerente entre eles que pode ser expressa, se cada um seguir, sem mútua concessão, o caminho no qual se encontra. Pois podemos ajudar os outros a fazer o seu dever, fazendo o que nós mesmos acreditamos ser o correto. É o único ato supremamente social.


Extraí­do do Apêndice do livro Bhagavad Gita – A Canção do Senhor, de Svami Prabhavananda e Christopher Isherwood (traduzido por Thalysia Kleinert), Editora Shakti, São Paulo, e digitado por Cristiano Bezerra em de novembro de 2001.



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