A história do Yoga

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Selo com yogi em siddhasana cercado de animais
» por Maurício Wolff

Curioso por natureza e cético por experiência, o praticante de Yoga deve ter se perguntado, em algum momento dos seus estudos, qual é a idade do Yoga e da prática escolhida.

Para essa pergunta, como para quase todas, existem várias possíveis respostas. A primeira e mais óbvia é procurar as origens históricas da linhagem, método ou Yoga em si. E aí começa a aventura.

A tradição na Índia faz com que o estudante reconheça a origem do seu conhecimento adquirido no seu professor, quer ele mantenha os ensinamentos exatamente como aprendeu ou tenha desenvolvido o que foi aprendido. Além de ser um ato de reconhecimento e humildade, é fato que se ele pode desenvolver algum aspecto da prática, é graças ao que ele aprendeu com o seu professor. Assim, ao perguntar para um professor indiano qual é a origem da matéria, o tradicional é desfiar uma lista de nomes de aluno-professor até a origem daquele conhecimento.

Na tradição ocidental, a origem do conhecimento está diretamente relacionada com documentos históricos. Apesar de raros antes dos romanos, eles são o que consideramos válido, pois a história precisa de validação documental. Dos pré-socráticos temos quase nada, mas os poucos fragmentos disponíveis são o que sustentam o nosso conhecimento da filosofia deles. Fragmentos e muita dedução. Nesse ponto, o método indiano parece mais preciso, pois pesa nos ombros do aluno manter a tradição ao longo do tempo. É possível que algo mude nos ensinos por alguma transformação da cultura, mas o que no mundo não se transforma de acordo com a necessidade? Parafraseando Heráclito, a única constante da qual podemos ter certeza é a constante mudança.

O Yoga, como atestado em vários shastras, é eterno. O seu início se mistura com o início de tudo, pois houve um tempo no qual tudo era uno e foi dividido para que o universo pudesse ter esta forma. Esse estado unificado é Yoga, como indica a própria palavra (união). Na Bhagavad Gita, Śri Krsna afirma que ele ensinou o Yoga ao Sol (Vivasvam), e este a Manu (o pai da humanidade), que ensinou a Iksvam.

No Mahabharata1 podemos citar a Gita, a qual afirma que no começo da Tretayuga o Yoga foi ensinado de Vivasvam para Manu, que, sendo o pai da humanidade, ensinou ao seu filho, Iksvaku, rei do planeta terra e patriarca da dinastia Raghu, na qual Ramacandra (Ramayana) surgiu.

Até o presente momento nós recém cruzamos o ano 5.000 da Kaliyuga, que tem a duração de 432.000 anos. Antes dela houve a Dvaparayuga (com 800.000 anos) e antes dela a Tretayuga (1.200.000 anos). Manu ensinou o seu filho Iksvaku há 2.500.000 anos. Segundo os Vedas, a expectativa de vida deste planeta Terra é 305.300.000 anos, dos quais já se passaram 120.400.000. Já que o Yoga foi ensinado para Vivasvam antes do nascimento de Manu, pode-se inferir que o Yoga foi ensinado pela primeira vez há 120.400.000 anos (e na sociedade humana há pelo menos 2 milhões de anos).

No Yoga Sutra, o termo anushasana atesta que Patañjali não criou o Yoga, pois ele se empenha em transmitir, em dirigir, o conhecimento do Yoga. Sendo assim, o Yoga sempre existiu, muito antes de qualquer escritura ter sido composta no subcontinente indiano.

Quanto a metodos, tomemos, por exemplo, o Hatha Yoga: qual é a primeira resposta sobre qual é a origem da Hatha Yoga Pradipika? Século XVII. Por que? Porque neste século começaram a surgir exemplares desse texto, então deduz-se que ele se originou nesta época. A resposta simplista tem uma grave implicação: então antes do século XVII não se conheciam os asanas?

Uma possí­vel réplica é de que antes disso o ser humano estava conectado com a terra, vivendo no campo e não precisava de asanas. Tendo assentado-se, começou a perder a capacidade física, e portanto foram criados os asanas. Respostas simplistas são um problema. Mas existem evidências históricas de que a técnica de asanas é anterior à nossa era, em 3.500 anos, para ser exato…

Em meados da década de 1920, Sir Mortimer Wheeler descobriu as ruínas do que hoje se chama Vale do Indo, uma civilização espantosamente avançada que residia em cidades urbanizadas com o seu apogeu calculado 5.500 anos atrás por datação de artefatos com carbono 14. Um dos artefatos que mais chama a atenção é um selo de esteatita com uma figura antropomórfica em siddhasana cercado de animais. Śiva é conhecido como pashupata, o Senhor dos animais, frequentemente iconografado cercado de animais. Siddhasana é descrito na Hatha Yoga Pradipika exatamente como demonstrado no selo. Essa civilização é tão fantástica que merece muitos parágrafos para si, mas vale deixar aqui sua referência para futuros estudos. Aparentemente ela se desfez com a seca do rio Sarasvati, citado no Rg Veda ao lado do Ganges e Yamuna.

O argumento da origem relacionada à escrita pode agradar a Gutenberg, mas examinemos a questão da origem um pouco melhor, a partir do que a própria obra nos fornece.

O Hatha vidya é exposto na Hatha Yoga Pradipika por Svatmarama, que indica a linhagem do Hatha Yoga até a sua origem. Enumera ele: Śri ãdinatha (Śiva), Matsyendra, Śavara, ãnandabhairava, Caurangi, Mina, Goraksa, Virupaksa, Bileshaya, Manthana, Bhairava, Siddhi, Buddha, Kanthadi, Koramtaka, Surananda, Siddhapada, Carpati, Kaneri, Pujyapada, Nityanatha, Nirañjana, Kapali, Bindunatha, Kakacandishvara, Allamah Prabhudeva, Ghodacoli, Timtini, Bhanuki, Naradeva, Khanda e Kapalika [e outros mahasiddhas], e afirma que, graças à generosidade de Matsyendra, Goraksa e outros, ele – Svatmarama – aprendeu.

Sendo assim, a origem do Hatha Yoga é o próprio Śiva, que tendo ensinado esse conhecimento a Parvati, sua consorte, numa ilha deserta, foi assistido por um peixe (Matsya), que despertou a compaixão de Śiva pela atenção que ele prestou ao ensinamento. Assim, Śiva transformou o peixe num Siddha, que se transformou em Matsyendranatha.

Śiva aqui é denominado adishvara, o primeiro Ishvara. Mas quem é Ishvara? De acordo com o hinduí­smo, existe uma Realidade íšltima, Brahman. Essa realidade, em relação ao mundo, é Ishvara. Ele tem as três funções, de criação, manutenção e dissolução do universo, sendo representado como Brahma, Visnu e Śiva. As outras deidades são subservientes a essas três2. Parvati é a mãe, geradora da manifestação, Prakrti. Novamente: o estado de completa união só pode ser ensinado por aquele que possui a ciência da completa união. Mesmo que o método tenha sido adaptado para uma determinada cultura, se ele pode ser adaptado é porque foi um dia ensinado por quem o conhecia, a origem da linhagem, que é citada no estudo da matéria em questão.

Método é uma outra palavra interessante em sânscrito. Upaya significa aproximar-se, chegar perto, juntar-se. Linhagem ou método é aquilo que nos permite aproximarmo-nos e chegarmos ao estado de Yoga. Firmes nesse estado, saberemos como fazer outras pessoas chegarem ao mesmo lugar. Mas só poderemos fazer isso graças ao que foi aprendido com nossos professores. Sendo assim, mesmo que utilizemos outras palavras para aproximar outrem do Yoga, isso é somente graças ao nosso professor, e assim por diante.

A resposta mais adequada para a pergunta do Hatha Yoga então parece ser: o conhecimento do Hatha emergiu, ou seja, veio a público, no século XVII, mas a sua origem é eterna. Está simbolicamente relacionada com a origem do universo e do ser humano. E como a própria escritura descreve, o seu objetivo é fazer com que o seu praticante compreenda o Yoga, nas palavras de Svatmarama, uma escada para o Raja Yoga, que, por todos os comentaristas, não é outro senão o Ashtanga Yoga de Patañjali.

A Índia é um país que valoriza os seus mitos. Mitos são símbolos da realidade que, por não terem compromisso com a factualidade ou com o que podem captar os nossos limitados sentidos, podem expressar a Realidade. Se é verdade, é eterno. Resiste ao tempo e ao exame.

Por isso, quando surgir a curiosidade e perguntas vierem à tona, procuremos as obras disponíveis para examiná-las com cuidado e compreendê-las simbolicamente, a partir do nosso discernimento. Caso contrário, corremos o risco de nos prender a detalhes e perder o espetáculo, como na história em que o sábio aponta a lua e o tolo fixa o olhar no dedo. O Yoga é shruti, revelação. Assim como o mito não pode ser datado, e pode ter várias leituras de acordo com o tempo, lugar ou capacidade de quem trava contato com ele.


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  1. Śanti-parva 348, 51-52 []
  2. SWAHANANDA, Svami, Hindu Symbology and Other Essays, pg. 11. []
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