A simbologia da estória de Ganesha

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Shiva, Parvati e Ganesha
» pela Equipe do Vidya Mandir

Ganesha é filho de Shiva e Parvati. Seu nome deriva da combinação das palavras sânscritas Gana (multidão, exército) e Isha (Senhor) = Ganesha (Senhor de todos os seres). O mito sobre Ganesha, conforme está escrito nos Puranas, nos conta que Shiva ausentava-se muito de casa e passava longos períodos de retiro nas montanhas. Nessas ocasiões, Parvati ordenava a um guardião que não permitisse a entrada de ninguém em seu palácio sem sua autorização. Todos os guardiões, entretanto, falharam em seguir a ordem de Parvati quando se tratava de Shiva querendo entrar em sua própria casa. Parvati decidiu, então, colocar uma pessoa que obedecesse somente ordens suas e não deixasse nem mesmo Shiva entrar, e criou de sua própria matéria um boneco, dando-lhe vida como seu filho e tornando-o seu guardião particular.

Um dia, Shiva em pessoa, voltando de Kailash, quis entrar no palácio de Parvati, enquanto ela se banhava, e o menino impediu Sua passagem. Nenhum argumento foi suficiente para que ele mudasse sua atitude de obediência incondicional a Parvati. Seguiu-se uma luta feroz entre o exército de Shiva e Ganesha, o qual lutou bravamente contra todos e resistiu durante muito tempo até ter sua cabeça mortalmente separada do tronco pelo trishula de Shiva. Parvati, ao ver seu filho morto, ameaçou desabar o mundo com sua ira. Shiva, então, apercebendo-se do alcance desse seu ato, arrependeu-se e pediu a Parvati seu perdão. Ela consentiu em perdoá-lo, com a condição de que ele restituisse a vida a seu filho. Shiva, então, deu ordem a seus Ganas que fossem em direção ao norte e trouxessem a cabeça do primeiro ser vivo que encontrassem no caminho. Aconteceu assim que foi um elefante com uma das presas quebrada que eles encontraram. Então Shiva colocou a cabeça desse elefante no corpo do menino e este reviveu, com cabeça de elefante. Shiva reconheceu-o como seu filho, dando-lhe o nome de Ganesha.

GaneshaComo todas as lendas encerram dentro de si um significado maior, vamos descobrir a simbologia dessa estória de Ganesha. Primeiro, a estorinha mostra que Ganesha tem um corpo físico “criado” por Parvati, símbolo da matéria perecível, ou seja, de que é humano. Mostra também que ele “não conhece” o pai (Shiva, a Realidade Suprema). Quando Parvati solicita sua proteção, ele a obedece incondicionalmente (cuida da matéria, ou seja, é apegado a ela). Quando seu pai “chega”, luta com ele (não quer perder a individualidade), não o reconhece, mas luta com bravura, quer cumprir o seu dever. O pai admira sua coragem, mas, não podendo deixá-lo vencer, corta sua cabeça (o ego, a mente, a arrogância) e ele “morre”. Parvati, zangada com a “morte” do filho, mostra a matéria não querendo perder seu “nome e forma”. Shiva coloca uma “nova cabeça” no filho, que renasce pelas mãos de Shiva, ou seja, nascendo do Supremo. Parvati, ficando contente com as promessas de Shiva de que seu filho será reverenciado no início dos rituais e cerimônias e antes de qualquer empreendimento, mostra que a “perda” da individualidade é o ganho do Absoluto, da Plenitude. Da mesma forma, o sábio vence todos os obstáculos e depois “morre”, “perde a cabeça”, para ganhar uma “nova” dada por Shiva, o Absoluto.

Os dois primeiros passos para a auto-realização, svaranam, escutar o Ensinamento, e mananam, refletir sobre ele, são representados pelas enormes orelhas e cabeça de elefante. A tromba representa viveka, a capacidade de discriminação que sempre desponta da sabedoria. O intelecto do homem comum está sempre preso entre os pares de opostos (as presas). O sábio não é mais afetado por esses pares de opostos (frio-calor, prazer-dor, alegria-tristeza, etc), tendo atingido um estado de equanimidade (representado pela presa quebrada) e com sua discriminação compreende o mundo material e o transcendental, como a tromba que faz trabalhos grosseiros (arranca árvores, etc) ou sutis (pega uma folha do chão). O sábio nunda esquece sua verdadeira natureza (memória de elefante). A barriga enorme representa sua capacidade de “engolir, digerir e assimilar” todos os obstáculos, assim como o Ensinamento escutado, transformando-se nesse Conhecimento vivo. O ratinho, que fica a seus pés, simboliza o desejo, com sua voracidade e cobiça, frequentemente roubando mais do que pode comer e estocando mais do que pode guardar. O sábio tem o desejo sob total controle. Por isso o rato olha para cima e aguarda Sua permissão para “comer” os objetos dos sentidos. O rato representa também Seu veículo, isto é, o sábio tentando passar sua Sabedoria Infinita através de seus equipamentos finitos (corpo e mente).

Ganesha


Extraído do Informativo Vidya-Mandir de setembro de 1989, do Vidyamandir – Centro de Estudos de Vedanta e Sânscrito, do Rio de Janeiro, e digitado por Cristiano Bezerra em de fevereiro de 2002.

Visite o site do Vidyamandir – Centro de Estudos de Vedanta e Sânscrito, da profª Gloria Arieira, em www.vidyamandir.org.br

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