A teoria da invasão ariana é um trote

Compartilhe esse conteúdo com alguém...

» por Pedro Kupferreconstituição de Harappá

Este extenso artigo, extraído das páginas 87 a 102 do livro História do Yoga, de Pedro Kupfer, explica o como e o porque da teoria da invasão ariana na Índia, e as implicações políticas que traz para um praticante de Yoga deste século o fato de aceitar passivamente essa informação mentirosa. Pense no que está escrito aqui e lembre que nenhum mestre de Yoga indiano jamais aceitou essa versão da história, nefasta para a cultura em que nasceu o Yoga.

I – A questão das origens

Faz cem anos que indianos e ocidentais discutem sobre as origens da civilização do Indus. É obvio que nunca chegaram a um consenso. Uma das conseqüências dessa situação é que, até hoje, essa cultura não possui um nome próprio. Identifica-se pelo nome de um rio que ainda hoje está vivo, o Indus, e pelo nome de um rio que secou: o Sarasvati. Ou, por extensão, pelo nome de uma das suas mais importantes cidades, Harappá. Ou ainda se atribui a ela o patronímico do seu mais conhecido legado, vêdico. Todavia, em escritos de civilizações coetâneas, como a dos acádios, aparece identificada com o nome de Meluhha. Seja qual for o seu nome correto, é significativo que ainda hoje não se tenha chegado a um acordo. Porque o nome é a identidade e, furtar essa identidade implica agregar outra dificuldade à questão das origens.

Entretanto, não falta muito para esclarecer esses pontos. Até o momento em que este livro está sendo escrito (maio de 1997) o ritmo dos achados arqueológicos continua desenterrando novos testemunhos dessa identidade. O avanço na decifração da sua escrita afirmou-se também de forma definitiva ao vinculá-la incontestavelmente com os velhos Shastras. O denominador comum de todos essas contribuições recentes é o de serem feitas pelos próprios indianos. Boa lição para nós.

1) As duas visões da História

 

Num mundo onde caíram mais ou menos as cortinas de ferro, ficam ainda em pé outras cortinas;
estas, que não deixam ver desde fora as nossas realidades: a do industrialismo sofisticado, a do eurocentrismo…
Octávio Paz, Hombres en su siglo.

Após o descobrimento de Mohenjodaro na década de 1920, os historiadores europeus deram uma versão sobre a História da Índia que, hoje ficou demonstrado, é totalmente equivocada. Essa tese afirmava que a civilização do Indus-Sarasvati teria sido aniquilada pela invasão dos “bárbaros” arianos. Um período de escuridão teria sucedido este acontecimento e a civilização haveria retornado à Índia somente muito depois, pela mão de outros invasores: os gregos, comandados por Alexandre Magno, por volta de 330 a.C. Veremos as premissas sobre as quais se sustentava essa teoria, e depois como se acabou por demonstrar sua falsidade, de acordo com recentes achados arqueológicos e análise dos textos vêdicos.

O que os investigadores James Marshall e Sir Mortimer Wheeler fizeram na Índia não é senão a continuação da “tarefa” que vinha sendo feita por europeus e estadunidenses desde 1811 no Oriente Próximo. Karl Grinberg narra em sua Historia Universal (pp. 267 a 272) que as primeiras expedições arqueológicas foram feitas na Mesopotâmia. Alemães, franceses, ingleses e estadunidenses dividiram a região usando mapa e esquadro. Cada grupo que escavava, levava o que desenterrava para seus museus nacionais, como se tivessem algum tipo de droit de segnieur sobre a História, e não precisassem dar nenhuma satisfação aos países onde os objetos eram achados.

Assim, abasteceram-se os acervos dos maiores museus da Europa: o British, o Louvre, e o de Berlim. Por exemplo, toda a cultura, a religião e a história de Nínive, incluindo o registro do dilúvio e a epopéia de Gilgamesh, está contada na sua impressionante biblioteca de 20.000 tabuletas de argila cozida. Essa biblioteca foi literalmente roubada pelos ingleses durante a escavação do palácio real de Assurbanipal, e hoje pode apreciar-se no British Museum. Quem visita um desses museus mal suspeita as vicissitudes que sofreram as peças que os prestigiam com sua presença. Este modus operandi funcionou até bem entrado o século XX, e continua utilizando-se até o presente em alguns lugares da América Latina e África.

2) A teoria da invasão ariana

 

Se você engole uma mentira, tem que engolir tudo o que vem junto com ela.
Emerson, English traits.

O que a tese da invasão ariana sustenta, in brief, é que tribos nômades bárbaras, provindas da estepe eurasiana, teriam penetrado por volta de 1500 a.C. pelo noroeste da Índia, arrasando a civilização que aí estava, escravizando os aborígenes e fazendo a cultura local regredir a formas larvais durante mais de mil anos.

A partir do final do século XIX, Max Müller, estudioso alemão, fundador da mitologia comparada e um dos primeiros especialistas em literatura sânscrita, começou a estabelecer uma associação entre comunidades lingüísticas e grupos étnicos. Ele discursava com um certo tom romântico sobre a grande família ariana, falante do proto-indo-europeu, matriz de todas as línguas vivas e mortas desde Oriente Médio até a Escandinávia e Portugal, que teria ocupado o território da Europa e da Ásia, impondo sua tecnologia e modus vivendi superior aos outros povos.

Como outros estudiosos da sua geração, passou anos tentando reconstruir essa proto-linguagem (Ursprache, em alemão), debruçado nos mapas e especulando sobre onde ficaria o lar original (Urheimat) desse povo. A idéia de hordas bárbaras cavalgando pela estepe, ocupando o continente e submetendo e arrasando a ferro e fogo todas as culturas que encontravam no caminho, fascinou os estudiosos do século XIX.

Vejamos sua própria opinião: “eles [os arianos] foram os protagonistas no grande drama da História, e elevaram até o mais alto grau todos os elementos da vida ativa de que a nossa natureza é dotada. (…) Em constante conflito entre si e com outras raças semíticas e turânias, essas nações arianas transformaram-se nas senhoras da História, e parece ser sua missão unir todas as partes do mundo pelas correntes da civilização, do comércio e da religião.” Infelizmente, essa teoria acabaria por desdobrar-se na funesta explosão racista a partir da qual deflagrou-se a II Guerra Mundial. No final da sua vida, percebeu o potencial explosivo e a temível distorção que haviam sofrido suas palavras e tentou retratar-se, mas já era tarde. Infelizamente, podemos considerá-lo um dos responsáveis morais pelo surgimento da onda racista na Europa.

Hitler e o movimento nacional-socialista na Alemanha explorariam ao máximo, em sua injustificada reivindicação de uma “raça superior”, germânica, a descrição simplista das origens lingüísticas pré-históricas da Europa, estabelecidas por autores como Gustav Kossina. A maioria dos arqueólogos da época ficaram consternados ao comprovar que, o que não passava de ser um punhado de teorias plausíveis sobre as línguas e culturas pré-históricas, convertia-se em propaganda militar da superioridade racial e reduzia-se ao absurdo com a destruição de milhões de seres humanos, supostamente pertencentes a outras “raças”, no holocausto.” Colin Renfrew, Arqueología y Lenguaje, p. 13.

É necessário separar a questão de linguagem, cultura e raça, das especulações que se possam fazer sobre elas, ou ainda do seu uso político ou filosófico, que deve ser totalmente descartado. O grande perigo é acreditar que uma raça possa ser genética ou culturalmente superior às demais. Aliás, a própria palavra raça precisaria ser revista, já que raça só existe uma: a humana. Biologicamente, essa raça humana divide-se em diversos grupos étnicos. Os áryas, ou arianos, são o povo resultante da somatória de diversos grupos étnicos: o indo-europeu, o drávida, o proto-australóide e, em menor grau, o mongolóide, todos eles falantes de sânscrito arcaico. Quando dizemos ário, não estamos referindo-nos a um grupo étnico, muito menos àquela infaustamente célebre “raça” dita “superior”.

A noção racista da palavra ário constitui a mais abjeta perversão do significado original desse termo. Por árya, ou ariano, entende-se o grupo falante do sânscrito antigo, detentor do conhecimento dos Vedas. Significa nessa língua cultivado, e refere-se, em verdade, não a um grupo racial, nem mesmo à cultura falante dessa língua, senão a uma qualidade ou disposição ética: a da nobreza.

O Veda narra que Manu, o mítico progenitor da Humanidade, batizou com o nome Áryavarta a região ao sul dos Himalayas, que significa “moradia do povo nobre”. Os arianos estão diretamente vinculados com civilização. Segundo estudiosos como Dinesh Agrawal, S. P. Gupta, David Frawley e outros, existem hoje provas irrefutáveis da presença de proto-indo-europeus na Índia desde a antigüidade mais remota. Os argumentos sobre os quais baseia-se essa tese revolucionária – já que implica uma nova visão da História indiana e mundial – vão desde evidências arqueológicas até a análise de textos literários e religiosos, principalmente os Vedas e os Puránas.

Em seu livro The Indus-Saraswatí Civilization, o Dr. S. P. Gupta defere o golpe de graça contra a tese do seu mestre, o arqueólogo inglês Sir Mortimer Wheeler, que sustentava que o movimento civilizatório se deu a partir da Mesopotâmia. Gupta demonstra, através do estudo da evolução dos assentamentos comerciais, que foi exatamente ao contrário: esse movimento se deu de leste para oeste. O autor subordina toda conclusão ao achado arqueológico. Não concede um centímetro sequer à especulação. Apoia seus pés na arqueologia e dela extrai tudo o que precisa para interpretar o que vê. Não aceita nenhuma outra fonte de conhecimento (nem paleolingüística, nem paleoliteratura, nem paleografia) senão as evidências de campo.

Ele coloca, no livro acima citado, uma nova visão dessa cultura através das seguintes perguntas: se essa cultura teve uma origem agrícola, pastoril e montanhesa, o que pode ter unido o povo vêdico para organizar-se socialmente? O que pode tê-los motivado para criar um império tão fabuloso? Um império que, aliás, nem sequer tinha uma cabeça visível, uma administração central. Quais foram as prováveis rotas do seu comércio? Sobre que se apoiou esse comércio, qual foi a base que lhe deu suporte?

No quarto milênio antes da nossa era produziu-se uma mudança radical na direção da economia, que, de rural, passou a ser urbana. O primeiro lugar onde o comércio começou foi a região que vai desde o vale de Bolam (assentamentos de Mehrgarh e Nausharo) até o Gujarat (Dholavira). Esse comércio interno cresceu tão aceleradamente que acabou criando a necessidade de expandir suas fronteiras. As rotas terrestres eram muito utilizadas, tanto quanto as marítimas.

Encontram-se no Veda termos tais como vánijya (comércio), vaishya (comerciante), krinati (perda, quebra), que mostram claramente que o comércio fazia parte da vida quotidiana do povo vêdico. Há pelo menos quatorze maneiras diferentes de referir-se às casas no Veda, indicando que essa civilização era notoriamente urbana (lembre-se que os nômades não moram em casas). Ainda nessa mesma obra encontramos fartas referências ao mar (samudra), rios (sindhi), barcos, navegação, movimento de comerciantes, transações em moeda, pirataria e roubo de mercadorias (!), empréstimos, recursos minerais, domesticação do cavalo, indústria e vida cotidiana deste povo.

3) O que realmente aconteceu

 

Uma nova verdade científica não triunfa por convencer seus opositores e fazê-los ver a verdade,
mas sim porque esses opositores acabam morrendo e surge uma nova geração que tem familiaridade com ela.
Max Planck, pioneiro da física quântica.

As diferentes culturas desta região (Áryavarta) foram catalogadas como ensaios “provincianos”, “culturas de aldeia” e sem peso civilizatório para criar cultura. Contudo, hoje podemos vê-las como parte de um sistema cultural bem integrado que começa na tardia Idade da Pedra (c. 20.000 a.C., antes da última Glaciação) e vai até o final do neolítico.

Esse sistema surgiu e operou na região nos contrafortes do Kitab e dos montes Suleiman, e nas bacias dos rios Indus, Ravi, Chenab, Sutlej e Saraswatí, com todos seus tributários. Não se tratava então de culturas “sobrepostas” (overlap), sem relação entre si , senão de expressões de uma mesma civilização integrada num processo único.

Por exemplo, Mehrgarh, apresenta agricultura e domesticação de animais, que são as duas características mais claras do neolítico na região. Os registros de radiocarbono indicam que o neolítico é pelo menos 1000 anos mais antigo na região em Mehrgarh que na Turkmênia e a Ásia Oriental, como supunham os historiadores de início de século. Esta cidade foi achada na década de 1970 na área de Baluquistão, no atual Paquistão. O trabalho de campo nela realizado, que data este sítio (usando o processo de radiocarbono) entre 8215 e 7215 a.C., transformou totalmente os pontos de vista sobre esta civilização.

Mehrgarh mostrou a unidade de um processo de integração civilizadora. Resumindo, Piggot e Wheeler descreveram o período neolítico acerâmico (antes da cerâmica cozida) e as culturas calcolíticas (do cobre) na Índia como sendo descontínuos e autônomos, num processo de superposição cultural de povos que não possuíram conexão entre si.

Não obstante, estavam errados. Mehrgarh, que foi berço do neolítico mais antigo no continente, albergando igualmente outra sucessão de culturas posteriores, chegou a ser sem dúvida a maior e mais importante cidade da Antiguidade. Cinco vezes maior que sua contemporânea Çatal Hüyük, abrigava em 6000 a.C. pelo menos 25000 indivíduos, quase a população inteira do Egito daquela época.

Lembremos que isto aconteceu mais de 2000 anos antes dos sumérios se estabelecerem na planície entre os rios Eufrates e Tigre. Os teóricos do fim do século XIX afirmaram que a criação de gado fora introduzida pelos invasores arianos, na metade do segundo milênio a.C.

Novas evidências mostram-nos que os habitantes de Mehrgarh foram os primeiros em criar gado na Ásia Ocidental, além de cultivar cevada, trabalhar o cobre, comerciar com regiões vizinhas e produzir cerâmica. Temos fortes indícios que vinculam este povo com a cultura vêdica.

A recentemente descoberta cidade de Dholavira, numa pequena ilha perto da fronteira com o Paquistão, surge como um dos cinco mais importantes sítios arqueológicos achados até o presente momento. As escavações começaram em 1990, mas ainda estão sendo encontrados indícios que ligam a cultura vêdica com a civilização do Indus-Sarasvati. Por exemplo, em março de 1997, o arqueólogo R. S. Bisht e sua equipe fizeram uma surpreendente descoberta: acharam a primeira estátua do proto-Shiva itifálico, belamente esculpida, que mostra que o culto deste deus já estava muito estendido na época.

As únicas evidências que se tinham até o presente sobre a presença do deus-yogi eram três selos de esteatite achados em Mohenjodaro, no atual nordeste do Paquistão. Isso, somado ao fato de Dholavira ser uma cidade que apresenta o traçado típico da cultura vêdica, é mais uma prova que vincula essas duas tradições.

Na estrutura da cidade distinguimos o sistema trimeshtin, de planejamento urbano em forma concêntrica (veshtha = concêntrico). O Sulba Sútra, manual de construção de altares do culto ao fogo, que fala também da construção de cidades, menciona as três partes que uma urbe deve ter: alta, média e baixa. A razão nas proporções da cidade é constante, sempre de 5:4. Este padrão aparece nas três partes da cidade.

A história da cidade estende-se de 2900 a.C. a 1500 d.C. O descobrimento na década de 1980 das cidades de Dwáraka e Bet Dwáraka pelo renomado arqueólogo S. R. Rao e o Instituto de Oceanografia da Índia, submersas no mar Arábico frente à costa de Gujarat, demonstram a continuidade dessa cultura, elucidando o que se chamou de idade escura da história indiana, aquele longo período que transcorreu entre o desaparecimento das cidades do Indus e a chegada dos primeiros visitantes gregos.

A idade destas duas cidades, que mostram semelhanças surpreendentes com Mohenjodaro e Harappá, situa-se entre 3000 e 1500 a.C. Esse achado demonstra e confirma a autenticidade e a antiguidade dos eventos narrados no Mahabhárata. “O mais extraordinário achado da arqueologia indiana é que não há quebra visível na série de desenvolvimentos culturais de Mehrgarh a Harappá e à Índia moderna. O conjunto das implicações desta descoberta está ainda por ser captado. Quando for finalmente entendido, provavelmente estaremos prontos para enxergar a História antiga e a evolução da civilização humana com novos olhos.” Feuerstein, Kak e Frawley, In Search of the Cradle of Civilization, p. 152.

A questão do final: cataclismo e reconstrução »

Compartilhe esse conteúdo com alguém...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.