Árvore, mito e corpo no Yoga

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» por João Tadeu de Andrade
Siddhartha Gautama, o Buddha Shakyamuni
Conta a tradição que a iluminação de Siddhartha Gautama se deu sob a sombra de uma árvore, conhecida como Bodhi. Em visita à Índia, encontrei um lugar de veneração a essa árvore. Não se trata da mesma, mas sim de uma distante descendente, uma vez que essa planta vive em média 300 anos. Circulada por uma mureta de proteção, e ilustrada com imagens de Buddha com os tantos nomes dados a ele em sua peregrinação no extremo norte indiano, a árvore Bodhi traz uma enigmática e delicada característica: suas folhas apresentam a nítida forma de um coração.

A imagem da árvore circula em diversos textos sagrados, narrativas antigas e em contos ficcionais de muitos povos, culturas e religiões. Uma conhecida e universal referência é a Árvore da Vida, contida na história da criação do mundo, relatada no livro do Gênesis. O historiador Mircea Eliade lembra que tal imagem está relacionada ao cosmos e à vida, à juventude, à imortalidade e à sapiência. capa do livro The Tree of Yoga, de B.K.S. IyengarAssim, em mitologias da Mesopotâmia, Ásia, Índia e Irã, a imagem da árvore se faz presente, associada, entre outras coisas, à sacralidade de seus frutos. É inevitável aqui o ensino de Jesus: “Conhecereis a árvore pelos seus frutos”. Ela também pode ser encontrada na tradição judaica, através da árvore das vidas ou das dez sefirot (raios condutores emanados da Divindade, localizados no corpo), em uma profunda imersão mística da condição humana. Tal imersão compreende o simbolismo corporal no interior da árvore mítica, sendo essa plantada no jardim do Éden, e o corpo humano entendido como instrumento de ascensão para Deus.

Por outro lado, no clássico The Tree of Yoga, de B.K.S. Iyengar, o Yoga é igualmente assemelhado a uma árvore. Em uma inspirada reflexão, Iyengar associa oito partes da árvore aos oito angas do Yoga, conforme ensinam os aforismos de Patañjali. As raí­zes correspondem aos yamas (com seus cinco princípios morais). O tronco é comparado aos niyamas, os quais dizem respeitos ao controle dos órgãos sensoriais. Os galhos, por sua vez, são entendidos como asanas. As folhas, muito importantes para a absorção de energia, são associadas ao pranayama. Por seu turno, pratyahara é representado pela casca, servindo de proteção ao fluxo de energia no interior da árvore. A seiva corresponde a dharana, significando a concentração voltada para o centro do ser. Nessa metáfora, a meditação (dhyana) garante a experiência de unidade entre as partes da planta sagrada, resultando na flor do Yoga. Finalmente, a essência da árvore constitui seu fruto, quando, segundo Iyengar, ocorre a unidade entre corpo, mente e espírito, no estado de samadhi.


Ashvatta, a Árvore da VidaEsse símbolo universal se faz presente em um dos capítulos da Bhagavad Gita. Sri Krsna ensina a respeito de uma árvore santa – Ashvatta, ou figueira – que possui raí­zes em cima e os galhos em baixo. Suas folhas são os hinos védicos. Sri Krsna alerta que quem compreende essa “árvore da vida” igualmente entenderá o significado dos Vedas. Essa árvore mítica constitui o próprio corpo humano. O arranjo espacial de galhos (voltados para baixo) e das raí­zes (na direção do céu) nos convida a uma intuitiva reflexão. Quando damos atenção à distribuição dos centros de energia (chakras) ao longo do corpo, entendemos que os centros de baixo estão associados a impulsos e forças básicas da condição humana. A partir do centro cardíaco, encontramos funções mentais e emocionais de maior projeção espiritual. Na prática do Yoga, a ascensão espiritual significa a subida da força serpentina (kundalini) até chegar em sahasrara chakra, no topo da cabeça, um movimento da terra para o alto. Ora, o ensino de Sri Krsna indica que as raí­zes estão voltadas para o céu. Pode-se compreender que a origem e essência dessa Árvore da Vida, enquanto corporeidade, flui a partir do alto, da cabeça, e não da terra, onde naturalmente se localizam as raí­zes. Mas, de modo complementar e paradoxal, é na base da coluna onde repousa a energia de elevação espiritual, que chega a seu clímax na extremidade superior do corpo, próxima ao “céu”. Nessa cifra mitológica, os lugares se deslocam. No ensino de Iyengar, as raí­zes se fundamentam em princípios morais (não violência, verdade, não roubar, etc), os quais ganham proeminência diante dos impulsos humanos básicos como a sexualidade e o instinto de sobrevivência. Desse modo, essa topografia corporal redesenha suas coordenadas biofísicas tendo em conta o simbolismo da árvore do Yoga.

Nesse breve e limitado exame, vemos que as representações entre árvore e corpo no Yoga podem revelar muitas outras dimensões e imagens míticas, constituindo uma linguagem de penetrante força espiritual na compreensão do ser humano em sua jornada terrestre.



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