Bhagavad Gita: a grande batalha dentro do coração de Arjuna

Compartilhe esse conteúdo com alguém...
0 Flares 0 Flares ×


» por Rosana BiondilloArjuna e Krishna

A Bhagavad Gita é uma obra de incomensurável valor, amplamente admirada por sua vasta e profunda complexidade. Os grandes temas estão aí­ retratados e as angústias e sofrimentos humanos se mostram por inteiro. Mas há também um outro fator extraordinariamente essencial: a saí­da para essas angústias e dores também é aí­ mostrada, pois a Gita é certeira ao declarar que para o inevitável sofrimento há uma solução.

A melodia do coração

Krishna é o Grande Senhor do Yoga que tem em Arjuna seu dileto discí­pulo. Ao tocar sua flauta melodiosa, Krishna produz uma música que arrebata os corações de todos que a ouvem. Sua melodia é a melodia do coração. E é essa também a melodia da imensa Bhagavad Gita – a Canção do Divino Mestre, onde Krishna instrui pela linguagem do coração.

Muitas interpretações foram dadas à Gita, mas, dentre elas, a que sempre falou mais alto à minha sensibilidade foi esta que simboliza a grande batalha dentro do coração de Arjuna. Muito mais do que o gigantesco e sangrento confronto fí­sico, a Gita nos remete às profundezas dos mistérios que habitam o coração de cada indiví­duo. Sua linguagem é, pois, a linguagem do coração. Linguagem essa que transcende critérios de raça, credo, tempo e lugar, pois, em essência, a Gita é atemporal, é como uma lacuna, uma brecha preciosa de imortalidade que se abre dentro do gigantesco Mahabharata – o grande épico da Índia, escrito por Vyasa.

Sri Krishna

Intelecto e sabedoria

Krishna fala a Arjuna com palavras de divina sabedoria, e este, por sua vez, não as consegue compreender apenas com o uso da razão. Isso porque a razão é limitada e pertence à mente ainda não-iluminada. Como, então, compreender as sábias e perfeitas palavras de Krishna? Com certeza, não apenas com o uso do intelecto.

É por esse motivo que todas as dúvidas tomam conta de Arjuna. Sua mente pede auxí­lio, mas não consegue assimilá-lo. Ele está indeciso, inseguro, prostrado, por não conseguir compreender a grandiosidade do momento, por não conseguir agir, por não conseguir pôr em prática os preciosos ensinamentos de Krishna.

O Yoga do Eu

Em meio ao caos que habitava sua mente, Arjuna ainda não reconhecera o divino cocheiro que ali estava, ao seu lado. Arjuna ainda não percebera que o verdadeiro Eu Superior estava aguardando para ser reconhecido. Quando ele finalmente, amparado pela contí­nua insistência de Krishna, resolve agir e combater no grande campo de batalha que se instalara dentro do seu coração, ele chega ao verdadeiro e imutável entendimento do Eu. A isso Krishna sabiamente chamou de “Yoga do Eu”.

O processo de unificação do Yoga

De fato, a unificação proposta pelos sistemas de Yoga está aí­ resumida pelo próprio Senhor Krishna – o cessar de todas as dualidades da existência como forma de transcender o sofrimento. Tais palavras não encontram ressonância a não ser no coração, pois quem quer que racionalize sobre as mesmas, não obterá, por assim dizer, o sucesso almejado. A esse respeito, expressou-se Mahatma Gandhi num ensaio que escreveu sobre sua amada Gita:

“A Gita canta os louvores do conhecimento, mas está além do simples intelecto, pois é essencialmente endereçado ao coração e só é capaz de ser entendido pelo coração.”

A linguagem não-racional da Gita

Esse acesso direto ao coração também tem sua razão de ser no fato de a Gita apresentar algumas das mais importantes verdades da existência humana numa linguagem não-linear, isto é, não-racional.

A linguagem do cérebro é linear e, por esse motivo, previsí­vel. A linguagem da Gita é circular, de certo modo repetitiva e persistente, como que apontando ininterruptamente para um lugar que guarda a essência da sabedoria. Esse lugar sugerido, e para o qual somos impelidos pela divina insistência de Krishna, é o coração. Mas tudo isso se realiza com o mérito do uso da palavra descritiva, clara, límpida, transparente, emocionante e que, em resumo, traduz a verdadeira linguagem do coração.

A força e o ritmo do coração

Mahatma Gandhi foi um grande exemplo do quanto é fundamental fazer uso da força do coração em meio às atividades cotidianas. Ele dizia que a renúncia e o desapego não são alcançados intelectualmente e nem pelo fato de se falar a respeito deles. Segundo ele, o coração deve constantemente pulsar nesse sentido. E é isso que Krishna quer tanto que Arjuna perceba – que as coisas já estão todas aqui, eternamente pulsando, obedecendo uma ordem e um ritmo únicos, apenas aguardando para serem redescobertas.

Esse ritmo é ditado pelo coração universal em direção ao coração individual. Esse ritmo nos mantém a todos unidos numa cadência que o Grande Maestro Krishna orquestra de forma precisa e infalí­vel. Talvez por isso Ele tenha se expressado através de uma canção divina – exatamente para estabelecer contato direto com cada um dos minicorações que formam a sublime sinfonia universal da criação. Afinal de contas, foi ele que inigualavelmente disse: “Resido no coração de todos, e de Mim procedem a memória, a sabedoria e a ausência de ambas.”



Rosana Biondillo

© 2004 por Rosana Biondillo. Todos os direitos reservados. Proibida reprodução sem autorização da autora.

Rosana Biondillo é professora-yogini & escritora-blogueira. Escreve regularmente em seus blogs e twitta diariamente.
Para mais informações e leituras, consulte:
Blog Yoga & Yoguices: rosanabiondillo.blogspot.com
MIB – Meu Imaginário Blog: rosanabiondilloimaginaryblog.blogspot.com
Campo Livre-Aberto: campolivreaberto.blogspot.com
Twitter: www.twitter.com/rosanabiondillo
Facebook: www.facebook.com/rosanabiondillo

Compartilhe esse conteúdo com alguém...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.