Bicicleta, ahimsa e a cultura do automóvel

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Ciclista em Mumbai, Índia

Ciclista em Mumbai, Índia


» por Goura Nataraj (Jorge Brand) (1979-)

Uma das mais importantes qualidades de um brahmana, de um yogi, é a capacidade de reconhecer em tudo o que existe, nas mais diversas e distintas manifestações de existência, a unidade de Brahman, o princípio único que subjaz em todos os fenômenos.

Esse olhar singular, este re-conhecimento místico, aparece na Bhagavad Gita sob o termo sama-darshinah – visão equânime. O yogi possui uma visão de igualdade. Na diversidade quase infinita do mundo material, ele vê sempre Brahman, a divindade, a consciência suprema, por trás das formas sempre diferentes, sempre mutantes dos fenômenos.

Ao agir de acordo com esse entendimento, o yogi, naturalmente, expressa em suas ações a virtude de ahimsa – a não violência. Tratar com respeito e reverência tudo o que existe é uma condição essencial para o desenvolvimento da humanidade e consiste, dentro da cultura do Yoga, numa das obrigações morais universais que devemos ter em nossas condutas.


Visto que, nos dias de hoje, nos dias de Kali, as manifestações de agressividade e violência estão presentes em quase todas as esferas da vida, torna-se um desafio ainda maior buscar essa visão ampla, universal, que traz união ao invés de separar, que aproxima o ser humano da natureza ao invés de isolá-lo numa vida artificial, pautada por valores ilusórios, como o dinheiro e o poder. Isso, no entanto, deve ser objeto de profunda reflexão.

Contra a corrente de Kali Yuga, vemos o Yoga afirmando a não violência como tema principal. Com o avanço da sociedade industrial, a sociedade do excesso e do consumo, os valores da individualidade, da competição e da vaidade narcísica, estão presentes em tudo e em todos. Crescemos ouvindo isso, imersos em ambientes de alienação e doutrinação, onde aprendemos que ajuda mútua, cooperação e coletividade são utopias.

Acreditamos, no entanto, que é possível imaginar um mundo diferente. Não se trata aqui de afirmar ingenuamente uma irmandade dos seres humanos e pedir que a partir disso nossas ações sejam mais fraternas e solidárias. A visão do Yoga é mais ousada. Tudo o que existe é parte de uma realidade única. Absolutamente tudo.

Temos que ver com os mesmos olhos os animais, as plantas, as montanhas, bem como todos os tipos de seres humanos. Reconhecer em todos a manifestação da mesma realidade da qual você, sujeito consciente, brotou. Afirma Krishna, na Gita, que essa é a condição para que haja paz no mundo. O fundamento ético dos Vedas consiste neste importante reconhecimento. Tat Tvam Asi.

Um dos fatores que mais contribuem para a atmosfera de conflito em que vivemos, atmosfera onde predomina a ausência da visão equânime, é a assim chamada ‘cultura do automóvel’. Observamos que nossas cidades estão insalubres, que o ar que respiramos está contaminado, a água impura, e o barulho constante dos motores faz parte do pano de fundo da urbe. A cultura do consumo inculcou em nossa mente o ideal do carro individual como sonho de aquisição, promessa de liberdade e segurança. A ideologia do automóvel conquistou todos os continentes.

Do Rio de Janeiro a Los Angeles, observamos cidades construídas para o carro. Numa conversa recentemente, entre amigos, nomearam-no ‘o protagonista do século XX’. O carro, no entanto, perde seu valor de uso quando todo mundo possui um. Torna-se símbolo de ostentação, egoísmo e vaidade.


É por causa de sua tirania que as ruas estão deixando de ser espaços de convivência e tornando-se fluxo de trânsito. Para satisfazer os ímpetos de sociabilidade oferecem-nos, no lugar das praças, das calçadas, das pequenas mercearias e lojas locais, os ambientes controlados e assépticos dos shopping centers e hipermercados, onde a convivência é pautada diretamente pelas regras do grande capital.

Gostaria aqui de propor à comunidade do Yoga uma reflexão sobre a mobilidade baseada em ahimsa, a mobilidade não-violenta, capaz de provocar uma verdadeira revolução em nossos hábitos, e incitar transformações efetivas no curso da era de conflitos e hipocrisia em que vivemos. A tese é simples. Precisamos gastar menos. Produzir menos lixo, menos resíduos. O Yoga deve afirmar e defender o de-crescimento sustentável. A humanidade já tem tudo o que precisa. É nosso dever reavaliar a lógica absurda da produção, do trabalho e do consumo.

As pessoas não estão mais felizes ou realizadas nesse paradigma, pois o desejo nunca se satisfaz e a ansiedade somente aumenta. Sendo assim, propomos, como método de libertação da mente das angústias inerentes à vida moderna, a inserção da bicicleta em nosso cotidiano. A bicicleta como meio de transporte capaz de desacelerar o ritmo mental desenfreado em que vivemos. Falta oxigenação no cérebro da maior parte das pessoas, principalmente daquelas que se propõem a organizar e direcionar a sociedade. Falta O2 e sobra ignorância.

O motorista assume uma postura passiva. Locomove-se sem usar o sangue, os músculos e o coração. Se distancia da cidade e se afasta das pessoas. Cria para si uma extensão de seu quarto, de seu living-room, e pelas janelas do automóvel observa o mundo como se estivesse olhando mais uma vitrine ou a tela da televisão. Ao enumerarmos os malefícios da cultura do automóvel, por si só, os benefícios da mobilidade limpa falam à nossa consciência.

Uma dose saudável de radicalismo é necessária. Sem ela não tomamos a coragem de questionar nossos hábitos, nossos vasanas, nossos condicionamentos. E esse é o ponto principal. O carro nos condiciona. Ficamos tensos por sua causa. Indolentes, preguiçosos, obesos, irritados, impacientes. Se juntamos isso tudo e ainda acrescentamos a opressiva ideologia do trabalho como meta da vida e a ausência de estímulos criativos na dia-a-dia, temos um quadro bastante negro para contemplarmos, e será este o quadro que nós, habitantes do início do século XXI, estaremos deixando para as futuras gerações.


Certa vez Bernard Shaw, escritor e dramaturgo inglês, perguntado sobre o porquê de sua opção vegetariana de alimentação – “por que não comer carne?” – afirmou que a interrogação não era apropriada. O correto era inverter o questionamento. Temos infinitas razões para não matar os animais em nossa dieta e pouquíssimas para afirmar esta matança.

Da mesma forma, a pergunta não é “Por que não utilizar o automóvel?”, mas sim: Por que utilizar o automóvel, diariamente, em tudo o que fazemos, como se não houvessem alternativas mais inteligentes? Vejamos se nossos argumentos convencem nossa preguiça, nosso conforto inconsequente, nossa alienação da rua e de nós mesmos.

Em primeiro lugar, lembre-se de que o carro disciplina o corpo – como se fosse uma meditação conduzida

Você está em seu carro. Observe o seu corpo ao dirigir, ou ao permanecer sentado no carro como passageiro. Observe as tensões nos ombros, no pescoço, na mandíbula, em toda a musculatura do seu rosto. Contemple o cenário de caos ao seu redor. Cada pessoa com seu meio de transporte irracional. Duas toneladas de aço para cada 70kg de sangue e derivados. Petróleo sendo queimado para te levar ao trabalho. Todos os dias. Todos os anos. Por causa desse petróleo, ou desse ‘agro-diesel’, guerras estão sendo feitas.

A terra esta sendo explorada insensatamente. Os mares e rios estão sendo contaminados. Cada motorista, como você, está isolado. Triste. Fechado em sua bolha. Não dá para ver o que está lá fora. O vidro é escuro. Que triste não poder sentir a luz e o ar em seu rosto. Que triste sentir medo de andar pelas ruas da cidade. Que triste se alienar de seu corpo, deixar o corpo tornar-se algo estranho a você.

Que triste deixar o corpo ser domesticado e disciplinado por forças que vêm de fora. Tome consciência de si. Pare e desligue o carro. Jogue fora as chaves. Vá para fora e ande, caminhe, corra… respire… respire… e respire.

O carro polui tudo

Mais de 70% da poluição sonora das cidades grandes é oriunda dos veículos de transporte movidos a combustão. A emissão de gases dos automóveis é a responsável direta pela péssima qualidade do ar que respiramos diariamente. Algo está errado… O ato de nos transportarmos não deveria ser causa de tanto lixo e detrito. Se somos de fato racionais, uma mudança deve ocorrer na maneira em que nos relacionamos com o ambiente em que vivemos. Para completar as assustadoras estatísticas, lembramos que um automóvel já consumiu, em sua fabricação, mais do que irá gastar em toda sua vida útil. Em outras palavras, o seu carro ‘zero km’, já tem uma dívida imensa com a Terra, desde o inicio.

A motocicleta tampouco é a solução

Ela polui até 6 vezes mais do que o automóvel.

Carros são armas

Diariamente pessoas morrem ou são gravemente feridas por eles.

Nas vias urbanas, o trajeto feito de bicicleta é sempre mais eficiente

Rápido, sem custos, estimulante e faz bem à saúde.

A escolha é nossa. Contribuímos para o novo paradigma, baseado na mobilidade limpa e consciente, ou continuamos com o papel de poluidores, inconscientes e inconsequentes. O que cada um de nos pode fazer para inserir ahimsa na mobilidade?

  • Faça seus deslocamentos de bicicleta.
  • Utilize o lado direito da via (o código de trânsito lhe concede esse direito)
  • Coloque luzes e refletores na bicicleta.
  • Use capacete.
  • Use os braços e as mãos para indicar seus movimentos.
  • Lembre-se de que a rua é sua também, e que é dever dos carros frear para o ciclista. É necessário lembrá-los disto. A bicicleta não atrapalha o trânsito. Quem atrapalha o trânsito é quem insiste em meios de transporte irracionais; é quem ocupa individualmente o espaço de 6 ou 8 ciclistas, e ainda por cima poluindo a cidade com barulho e gases tóxicos.
  • Com o uso de alforjes e/ou cestas é possível fazer de tudo com a bicicleta. Ir ao trabalho, às compras, às aulas, ao lazer.


Exija: das autoridades, uma política urbana que contemple a bicicleta como meio de transporte legítimo e supremo; dos motoristas, que o respeitem, mantendo distância e velocidades seguras ao lhe ultrapassar. Todos nós podemos e devemos favorecer a bicicleta. O uso do carro deve ser racional e consciente. Se não fizermos isso a tempo, se não mudarmos o sentido no qual nossa sociedade caminha, só nos resta esperar o degelo do permafrost, as camadas de gelo permanente do ártico, e observar o comportamento das bactérias pré-históricas, que estão ali congeladas há milênios e que, ávidas por se manifestarem, entrarão na vida moderna com conseqüências desconhecidas. Os mares também irão subir. Os verões ficarão cada vez mais intensos, e o clima como um todo desequilibrado. Os sintomas de Kali Yuga, que já estão se manifestando, irão se acelerar e se consolidar.

No momento atual da Humanidade, o Yoga é um movimento de vanguarda. Pense em tudo isso e nas maneiras que você pode colaborar no seu dia-a-dia com a construção dos novos paradigmas de mobilidade.

Menos carro, mais bicicleta!

Menos gasolina, mais adrenalina!

Màs aire, menos humo!
Volume 17, do Verão de 2008, dos Cadernos de Yoga

Volume 17, do Verão de 2008, dos Cadernos de Yoga


Bibliografia sugerida:
LUDD, Ned (org.). Apocalipse Motorizado – A tirania do automóvel em um planeta poluído. São Paulo: Conrad, 2004. Coleção Baderna.
GUARNACCIA, Matteo. Provos: Amsterdam e o nascimento da contracultura. São Paulo: Conrad, 2004. Coleção Baderna.
MASI, Domenico de (org.). A economia do ócio. Rio de Janeiro: Sextante, 2001.


Artigo originalmente publicado nas páginas 18 a 26 do volume 17, do Verão de 2008, dos Cadernos de Yoga.

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Leia na sequência:

O Yoga e a bicicleta
Ideias para uma relação entre o Yoga e o Ciclismo
Bicicleta, ahimsa e a cultura do automóvel

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