Ideias para uma relação entre o Yoga e o Ciclismo

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» por Goura Nataraj (Jorge Brand) (1979-)

Goura Nataraj (Jorge Brand) em sua bicicleta

Goura Nataraj (Jorge Brand) em sua bicicleta

Não há dificuldade em percebermos que nossa sociedade moderna volta-se cada vez mais a um ideal oriental de paz e disposição para com a vida. O número de escolas de Yoga, de ashrams, de autores, professores e de estudos sérios sobre o assunto também aumenta e tende a crescer. Claro que falamos aqui em termos gerais, relativos, pois o mundo ocidental também vê crescer em si, ou melhor, re-crescer em si, ideais de alienação, separatismo, ódio e preconceito. Que outra oposição mais díspar e precisa poderíamos fazer, ao lembrarmos da figura de Gandhi, com sua tremenda força espiritual, que abnegava o uso da violência, e o atual “senhor-da-guerra”, Sr. Bush, que afirma trazer a luz da civilização para o lado escuro da humanidade, utilizando para isso a defesa de uma ideologia da violência aliada a uma propaganda de um falso dever moral?

Vemos nisso também uma oposição entre leste e oeste, e por mais que a Índia de hoje seja detentora de armas atômicas, e que tenhamos, nas devidas proporções, um humanismo ocidental mais presente do que no passado, ainda assim acredito que essa relação com o Oriente é necessária e pode ajudar em muito a melhorarmos o futuro que estar por vir.


A questão é: todos estamos ou não comprometidos com nossa vida em comunidade? Existe um objetivo comum de fato, ou somos apenas partículas de um sopro metafísico, almas, sujeitos, “consumidores”, que buscam suas satisfações individuais e aceitando apenas essas como verdadeiras? Será mesmo que nossa alienação da vida não é a causa direta do excesso de sofrimento que existe na Terra nos dias de hoje?

O Yoga pretende dar ao homem a experiência da liberdade. Em sânscrito – moksha – libertação dos condicionamentos. A ideia é que despertemos de nosso sono, que deixemos de lado nossas ilusões sobre a vida e comecemos a viver de fato. Muitas técnicas surgiram nos últimos milênios para dar conta desse ambicioso objetivo. O Yoga clássico nos apresenta 8 partes dessa disciplina. Ela inicia com:

Yamas – condutas para com o mundo.

Niyamas – condutas para consigo mesmo.

Asanas – posturas físicas executadas afim de equilibrar e manter saudável o funcionamento do corpo.

Pranayama – maneira de expandir e controlar a energia vital, o prana, através da respiração.

Após a pratica respiratória, o yogi se internaliza e parte rumo ao estado meditativo utilizando-se de pratyahara – abstração dos sentidos, dharana – dar foco a concentração, dhyana – absorção na meditação, e alcançando por fim o samadhi, o estado de expansão da consciência, no qual seu relacionamento com o mundo se harmoniza também.

O que acontece nas escolas de Yoga, de uma forma geral, é uma mistura dessas partes distintas que são moldadas em um tipo de prática, executada idealmente todos os dias, e que combina de forma equilibrada o trabalho com o corpo e com a mente. Isso é o mínimo que uma aula de Yoga deve oferecer e algo que necessita estar sempre presente. Desconfie se o Yoga que você conhece enfatiza somente os asanas ou somente suas condutas de vida. As coisas tem que estar todas interligadas.


E a bike, nisso tudo?

Pois bem, entendendo nosso corpo, nossa mente e as ações que executamos com esses dois instrumentos, podemos refletir sobre o conteúdo dessas ações com mais profundidade e mais clareza. A cultura da bicicleta pode sustentar a crítica à sociedade moderna – sedentária e violenta, incapaz de conceber uma vida que se ambiente numa troca limpa, numa cooperação efetiva, no ócio criativo e no desenvolvimento de nossas potencialidades. O que não traz lucro individual, na mentalidade moderna, não estimula, não interessa, não é valido. É importante que pensemos sobre isso e mobilizemos a sociedade nessa reflexão. Em primeiro lugar, não precisamos de tantos carros. Já basta! Os carros poluem e matam, e a sociedade civil deveria se perguntar sobre isso, tomar atitudes. Mais estímulos à bicicleta e aos transportes coletivos não-poluentes. Menos produção de lixo, pois o planeta não comporta o nosso estilo de vida. A palavra de ordem no momento é o menos. Menos consumo, menos petróleo, menos carros, menos poluição, menos loucura!

O Yoga pode fornecer, às atuais gerações, meios de se conhecerem melhor e, consequentemente, agirem com mais consciência. A bicicleta pode, então, nos dar a praxis, a prática de uma ação direta, individual, mas com influências diretas no coletivo. O ciclista contribui para uma melhor qualidade de vida, e tudo o que pede é um pouco de espaço para si na rua, bicicletários e respeito da parte dos motoristas. Se, individualmente vamos nos mobilizando, tomando atitudes que favoreçam uma sociedade mais esclarecida e libertária, podemos estar certos de que muitos processos vão se desencadear a partir disso e, como um todo, a sociedade pode mudar de temperamento. Para melhor!


Texto originalmente apresentado no V Encontro Nacional de Cicloturismo, em novembro de 2006, na cidade de Timbó (SC).

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Leia na sequência:

O Yoga e a bicicleta
Ideias para uma relação entre o Yoga e o Ciclismo
Bicicleta, ahimsa e a cultura do automóvel

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