Introdução do livro Mergulho na Paz

Compartilhe esse conteúdo com alguém...
0 Flares 0 Flares ×

Capa do livro Mergulho na Paz» por José Hermógenes (1921-)

Sei muito bem do drama dos pássaros,
a disputar audiência
com os grandes ruí­dos do tráfego.

Agradecimento

As primeiras edições foram êxito de livraria. Foram consumidas. A sociedade de consumo aprovou-as! Como pode ter acontecido, se não fiz concessões, não adocei a pí­lula e fiz frontal e claramente as contestações que supus necessárias?!

Para enfermos e atormentados virou livro de cabeceira. Embora mais destinado a dar “alfinetadas” que servissem para despertar, embora sem pretender levar consolo e conforto com eufemismos afáveis, levou calma e segurança a almas atropeladas e ansiosas.

Confesso que fui um tanto pessimista ao lançar a primeira edição. Sentia-me tentando oferecer um solo de violino dentro do tumulto pop dominante. Quem me daria atenção?!

A surpresa foi agradável.

Educadores chegaram a incluí­-lo em relação de livros didáticos adotados. Usaram-no como livro acessório às cadeiras de Comunicação (português) e Educação Moral e Cí­vica.

Diferente de outros livros meus que tratam de terapêutica yogika, não visava promover melhoras em enfermos. Mas isso aconteceu. Um amigo levou a filhinha de onze anos ao pediatra e este receitou-lhe um Mergulho na Paz.

Pretendendo ser ecumênico, ou pelo menos ficar longe da área em que almas pseudo-religiosas se combatem, cada uma pretendendo afirmar a excelência de sua seita, conseguiu-o. Penetrou na atmosfera mí­stica e ascética de mosteiros e conventos. Trechos e páginas suas vêm sendo lidas em púlpitos durante a missa. Tem sido lido e comentado em sessões espí­ritas. Até mesmo supostos ateus leram e gostaram.

Como e por que alguém pode aceitar e gostar de um livro despretensioso e apenas muito sincero?

Para chegar a encontrar algo válido, belo, profundo e cósmico em Mergulho na Paz, precisa-se ser maduro em sentimento, conhecimento e mística; precisa-se amar a Verdade e cultuar a Beleza. Precisa-se principalmente sentir-se incompleto e com aspirações pela Divindade. Quem sente beleza em suas páginas é porque já vive a beleza em sua alma. Quem vê verdade, é que já a traz em si. Mergulho na Paz tem o mérito de fazer com que o leitor descubra imensa riqueza de Paz, Beleza, Amor e Verdade, não no que ele traz escrito, mas em seus próprios cernes, que são divinos.

Que aqueles muito vividos, que andaram arduamente amealhando experiências ao longo de caminhos, de seus caminhos estreitos, que aqueles que sofrem ou muito sofreram se enterneçam com o livro não admira, pois foi escrito por uma alma conscientemente buscadora e que atravessou áridas regiões ao longo de milênios.

O fato mais revelador, e que é o mais significativo e mais auspicioso, foi evidenciar-se o agrado com que os jovens consumiram e assumiram Mergulho na Paz. Em plena adolescência festiva e engolfados nesta hora caótica da cultura e dos valores espirituais, dentro dessa mutação furiosamente iconoclasta, muitos jovens passaram a curtir um mergulho, “não no psicodélico, não no pop, não no erótico, não na violência, mas na Paz“.

Falando ou em carta, mostraram-se efusivos em elogios: legal, bacana… Um grupo hippie o lê e sobre ele medita. Chamam de joinha um livro que, erradamente, eu supunha careta.

Como é bom verificar que a juventude quer espiritualizar a vida! Os jovens desvendam sí­mbolos! Procuram o Real, abafado sob tanta aparência, tanta hipocrisia! Refletem e meditam! Se embevecem com a mí­stica e com a poesia! Até mesmo aceitam que um coroa chegue a contestar aspectos da contestação que eles têm feito!

Como é esperançoso ver que os jovens, em realidade, amam o Amor, buscam a Beleza, querem a Verdade e sentem o apelo da Paz!

Como é gostoso ver uma juventude ecumênica procurando o mergulho na fonte da Paz – a Divina Presença em cada um!

Quanta esperança ao descobrirmos que o Cristo ainda ocupa lugar de destaque nos corações amorosos dos verdadeiros jovens.

Maria e eu estamos felizes com Mergulho na Paz, que nos revelou juventude em corações que viveram muito e maturidade em corações adolescentes.

Graças, meu Deus, mil graças pela esperança de um mundo melhor, um mundo de Paz.

Introdução

Professor Hermógenes na década de 1960Um diagnóstico seguro é o melhor iní­cio do tratamento. Quando o médico chega a saber o de que o paciente está sofrendo, só então está em condições de agir terapeuticamente. Em resumo: primeiro o diagnóstico; depois os remédios.

Até mesmo o homem das ruas já diz, com razão: o mundo está doente!

Só mesmo um otimista doido pode dizer que este é um mundo civilizado, livre, sadio, justo, honesto, tranquilo, equilibrado, perfeito…

O diagnóstico está feito.

Agora só falta o tratamento.

São tantos a diagnosticar que a segunda parte – o tratamento – está sendo esquecida. A cada dia mais um diagnosticador se manifesta contra a hipocrisia da moral, contra a imoralidade da violência, da fome… contra a imoralidade de restringir a imoralidade. A cada dia, nos jornais, nas revistas, no rádio, na televisão, em todos os canais de comunicação, surgem novas formas de acusar os outros e de protestar. Nos teatros e cinemas, roteiristas, produtores, diretores, atores, exibidores, finalmente a maioria dos industriais da arte (???!!!), com a maior audácia, regurgitam críticas sobre o que o homem faz contra o mundo e o mundo contra o homem. Os palcos estão empenhados em dizer às multidões sadomasoquistas o quanto e como o homem é sórdido. E o fazem exibindo, escandalosamente, a própria sordidez. As telas e os ví­deos, os shows, os happenings… disputam a atenção das platéias mórbidas, desejosas de ver cruamente sua própria morbidez. O romance, a pintura, a própria música, em expressão erótica e expansão caótica, atiram, às faces de todos, protestos, agressões, contestações… E, na generalidade, os homens pagam para ver essa deprimente autodiagnose. Todos esses bem pagos gênios do escândalo se esmeram em acentuar as sombras. Carregam nas cores do trágico. Avolumam os gritos da degradação. Abusam em ferir, em desmascarar, em agredir, em desmoralizar ainda mais.

Não é arte. Isso não é arte. É indústria usando máscara, a máscara da arte.

A máscara serve para reclamar a liberdade que a arte reclama e merece.

Não haverá em cada “diagnosticador” um hipócrita?

Arrogantes, apenas apresentam aquilo que chamam de “a realidade humana”. Apenas impingem e agridem com um diagnóstico altamente suspeito. Não sentem – é claro – qualquer compromisso com o tratamento. Não trazem, nem desejam, qualquer esperança de solução. Não têm – e orgulhosamente o declaram – qualquer intenção de remediar o mal que denunciam. É lógico que assim procedam. Se seu negócio é vender carniça, sua ruí­na seria a pureza, a melhora, o progresso espiritual das multidões que deixassem de gostar da mercadoria. Sem caridade, atrozmente, cinicamente, declaram que só lhes interessa revolver o lamaçal. Faturam com a violência. Vendem escândalo.

Chega de tanto diagnóstico, isto é, de autodiagnóstico. Autodiagnóstico, sim, pois, segundo o filósofo, “quando João fala de Paulo, fico sabendo mais de João do que de Paulo”.

Chega de chamar de arte esse negócio de denúncia, que em realidade é um aliciamento dos incautos para aquilo que é objeto da denúncia.

Chega da hipocrisia de denunciar a hipocrisia.

É muito simples localizar um monturo. Basta seguir a mosca em seu vôo.

Interessa-nos seguir o vôo da abelha em busca de pureza, luz, cores, trabalho, perfume, doçura

O que é mais fácil já está sendo eficazmente feito: demolir.

É preciso que apareçam alguns a revelar o lado divino do homem, mostrando uma esperança, apontando para uma luz, falando de uma solução, tentando mostrar que inferioridade e angústia são desafios necessários para uma realização evolutiva.

Mas como isso está parecendo difí­cil!

Que esperança posso ter de que minhas canções sejam ouvidas, se os decibéis da guerra e das guitarras já ensurdecem o mundo?

Que esperança posso ter de vender algum mel de minha colheita, se o vinho da sordidez agrada e alicia muito mais?

Que futuro pode ter aquele que oferece perfumes de singelas flores campestres a quem já está enlouquecido em fuga alucinógena?

Que esperar se não sei agradar com o agredir, que às multidões agrada?

Que resultado terá meu discurso se não fala do que as massas embrutecidas desejam escutar?

Apesar de tudo, não desisto.

Nisso, imitarei o Criador.

Ele é mesmo um otimista incorrigí­vel.

Ainda esperando que os homens o descubram, todas as noites, pontual e infatigavelmente, acende o imenso lampadário do céu.

Mas, Ele deve ter razão.

Sempre haverá um poeta distante, um mí­stico errante, um esteta enamorado olhando o céu, gozando o esplendor, fascinado pelas estrelas.

Vou fazer como Ele.

Continuarei cantando, falando, chamando, mesmo que o faça por fazer. Mas… sempre vou esperar que alguém me escute, me entenda, e venha comigo na estrada do Espí­rito, que é para todos nós.

Venha irmão, para um mergulho na Paz.

Mergulho na Paz


Texto extraí­do das páginas 11 a 14 e 19 a 23 da 24a edição, de 1998, do livro Mergulho na Paz (1970), de José Hermógenes (Editora Nova Era, Rio de Janeiro), e digitado por Cristiano Bezerra em 7 de outubro de 2001.

Visite o site do Professor Hermógenes em www.profhermogenes.com.br



Compartilhe esse conteúdo com alguém...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.