O que é o Yoga?

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Cristiano meditando em padmasana, a postura da flor de lótus

Cristiano meditando em padmasana, a postura da flor de lótus


» por Pedro Kupfer (1966-), do yoga.pro.br

Muito se fala a respeito do Yoga. Muitas definições foram dadas, mas sempre temos a sensação de que alguma coisa fica faltando; de que ele se recusa a ficar aprisionado numa definição. Porque essas quatro letras juntas significam muitas coisas. E o Yoga acaba sendo sempre mais do que as palavras podem dizer.

O Yoga é uma visão peculiar sobre o ser humano e seu papel na ordem das coisas, bem como um caminho de autoanálise que pode ser colocado em prática, prescindindo de qualquer teoria ou crença. Um caminho que conduz o homem a compreender verdadeiramente a si mesmo.

Todo mundo já ouviu dizer que Yoga significa em sânscrito união, mas Yoga igualmente significa trabalho, aplicação. Ou seja, Yoga seria o meio e o fim ao mesmo tempo. Jaideva Singh, no comentário do Vijñanabhairava (p. XIII), um antigo texto tântrico, afirma:

“A palavra Yoga é usada tanto no sentido de união (com o Divino) como no de veículo (upaya) para essa união. […] Desafortunadamente, nenhuma palavra foi tão profanada nos tempo modernos como a palavra Yoga. Andar sobre o fogo, tomar ácido lisérgico, parar o batimento cardíaco etc. se consideram Yoga, quando, a bem da verdade, não têm nada a ver com ele. Mesmo os poderes psíquicos [siddhis] não são Yoga. Yoga é consciência; transformação da consciência humana em consciência divina.”


Yoga também é liberdade. Libertar-se de condicionamentos e preconceitos, por exemplo. Está escrito na Bhagavadgita: Yogaskarmasu kausalam (Yoga é perfeição na ação). Essa é uma visão tão ampla como simples da prática: qualquer ato pode fazer-se como sadhana, contínuo e constante.

Mas aqui temos um paradoxo: o que significa perfeição? A perfeição na ação não deve tomada literalmente no sentido de fazer uma ação “perfeita” em seus detalhes (por essa conta, um hábil batedor de carteiras poderia ser considerado um yogi), mas em fazer as ações em harmonia com o bem comum e com o reconhecimento de que nosso privilégio é agir, e não tentar controlar ou escolher os resultados das ações.
Noutras palavras, perfeição significa viver consciente. Patañjali explica o mesmo com outras palavras: “Discernimento constante é o meio para destruir a ignorância.” (Yogasutra, II:26).

Por outro lado, o Yoga não fica no plano das ideias nem se restringe unicamente a uma série de exercícios feitos na sala de prática. Com isso em mente, podemos dizer que praticar o Yoga é como participar de um jogo: conhecendo as regras, jogamos por amor, relaxados, para conviver e estar junto àqueles que amamos.


Mesmo se você não tiver nenhuma experiência com Yoga, saiba que suas atividades diárias, como trabalhar, criar os filhos ou estudar, também podem ser encaradas como um sadhana. É por isso que o Yoga é um jogo, cuja única regra é permanecer totalmente consciente o tempo todo, de cada ato, a cada momento.

Talvez você possa achar, como muita gente, que o Yoga é algo separado de si próprio ou do seu dia a dia. Algo que você faz, como ir às compras ou falar ao telefone. O Yoga é para ser vivido, de maneira atenta e equânime. Esse viver consciente, essa atentividade constante, é a essência da prática e ao mesmo tempo o fruto do amadurecimento interior, que é um processo gradual.

Por isso, não convém dizer “eu faço Yoga”, pois, em verdade, você não faz Yoga. Ele já está feito! Você ‘desliza’ para o Yoga (união) em certos momentos, através das atitudes equânimes. Isso tem a ver com a sua existência, com o seu momento presente, com o ar que entra por suas narinas no mesmo instante em que você está aqui sentado lendo, pois o sadhana aponta para colocar a visão em prática. Se você não for usar o Yoga, para que vai querer estudá-lo? Isso equivaleria a contentar-se com ver uma foto da praia, ao invés de ir pessoalmente dar um mergulho nela.


O Yoga é para todos. Não é apenas para pessoas sadias ou só para doentes. É para seres humanos, e não consiste em substituir o sistema de valores ou mitologias do mundo ocidental por outro exótico, não é escapismo ou uma resposta desesperada ao vazio que a sociedade oferece.

A partir da definição que o sábio Patañjali dá no Yogasutra, “Yoga é a supressão da [identificação com] as modificações da psiquê“, vemos que a prática começa numa sede profunda de transcender os condicionamentos humanos; vemos a necessidade de tornar cósmico o homem, de desenvolver as suas potencialidades para conquistar a iluminação. O método através do qual o Yoga pretende atingir esse objetivo é a reflexão sobre si mesmo, aliado a práticas que possuem como único objetivo aniquilar os condicionamentos que nos escravizam.

Os condicionamentos não nos deixam viver em paz e nos fazem repetir os mesmos erros, ano após ano, ad eternum. Para ‘sair da roda do karma’, ou seja, alcançar a liberdade verdadeira, o yogi precisa aniquilar um a um esses condicionamentos na sua própria fonte: o inconsciente, a parte ‘escura’ do ser.


Dizem os shastras que o caminho do Yoga começa ‘quando o homem consegue quebrar a prisão das suas misérias’. O Yoga parte da condição humana desamparada, nua e crua, e tem o mérito sem par na história do pensamento de descobrir o verdadeiro potencial do homem: o da sua espiritualidade. A vida espiritual sempre começa no conflito interior, na sede de transcendência. E, neste kaliyuga, a era dos conflitos, requer muita mais pureza de coração, coragem e determinação que em outro tempo qualquer.

Precisamos quebrar o casulo da identificação com o ego para compreender quem somos. A Katha Upanishad diz que o Yoga é ao mesmo tempo dissolução e emergência, morte e renascimento (Yogah prabhavapyayau). É preciso matar o apego às coisas do ego para vivermos livres. Os ensinamentos do Yoga são somente acessíveis através da praxis: o praticante deve pôr sob o jugo seu corpo e sua psique para compreender que já é a liberdade que está buscando.

Múltiplo em suas diferentes correntes e manifestações, ele é sempre fiel a um modo de ver o homem e de servi-lo: após a severidade e paciência exigidas pela prática, sente-se a calidez da sua solicitude carinhosa por todos e respeito por todo o criado. Seu caminho é radical mas acessível e nos leva à conquista da liberdade.


Texto originalmente publicado 24 de julho de 2000 em www.yoga.pro.br

Pedro Kupfer

Pedro Kupfer

Pedro Kupfer nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1966. Descobriu o Yoga aos 16 anos de idade, e pratica, aprende, estuda e ensina desde então. Estabeleceu o primeiro contato com essa cultura através de um workshop intensivo em 1983 com a professora indiana Svami Yogashakti, discí­pula de Svami Satyananda. Continuou praticando com os professores do Satyananda Niketan, em Montevidéu, até se mudar para o Brasil em 1986. Considera o Yoga mais como uma forma de vida do que uma atividade que simplesmente se faz dentro de uma sala. Pedro escreveu e traduziu vários livros sobre Yoga, além de integrar o Conselho Editorial das revistas Cadernos de Yoga e Yoga Journal e editar o website yoga.pro.br, veículos especializados nessa cultura. Fez várias viagens de estudos à Índia e a outros países do Oriente e, atualmente, mora na praia de Mariscal, em Santa Catarina, onde ministra Cursos de Formação em Yoga no Espaço Yogabindu, e é também Presidente do Conselho Técnico da Aliança do Yoga. Quando não está viajando, ensinando ou praticando, gosta de cantar, surfar e cozinhar. Conheça mais o trabalho do Pedro em seu website, www.yoga.pro.br

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