O que é pranayama?

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» por Pedro Kupfer
yogi tibetano
Pranayama consiste em controlar o processo
de inspirar (shvasa) e expirar (prashvasa)
Patañjali, Yoga Sutra, II:49

A vida começa com a primeira inspiração e se prolonga até a última exalação. O alento é a vida, que flui com tal naturalidade que são poucos os momentos em que percebemos o seu valor. No entanto, se compararmos os elementos vitais para a existência, esse vai ocupar o primeiro lugar: sem alimento consegue-se subsistir durante várias semanas, sem água alguns dias, sem ar durante alguns minutos, mas sem prana, sem energia, não podemos subsistir nem um segundo sequer.

Respirar é viver, respirar bem implica viver melhor, respirar com plenitude significa existir plenamente. Acontece que a maioria das pessoas respira de forma superficial e insuficiente, utilizando apenas uma í­nfima parte da capacidade pulmonar e vital. É uma forma bastante precária e limitada de respirar e viver, se considerarmos o potencial que temos para desenvolver de saúde, vitalidade e resistência.

A cada estado emocional corresponde um ritmo respiratório. Uma cadência profunda e ritmada demonstra satisfação, segurança e serenidade. A respiração curta e rápida denota ansiedade, insegurança ou medo. Aprendendo a manipular o ritmo respiratório com as técnicas ensinadas neste livro, conseguiremos modificar e sutilizar as emoções, o que irá interferir positivamente nas relações afetivas, no desempenho profissional e na qualidade de vida. Porém, os respiratórios do Yoga vão muito além, pois através deles tomamos consciência de que a energia vital que compõe nosso corpo é a mesma que configura e movimenta o Universo, mostrando-nos outra dimensão de nós mesmos.

O pranayama é um excelente aliado para os esportes, especialmente mergulho, surf, natação, alpinismo, artes marciais, atletismo e outros, por ampliar incrivelmente a capacidade pulmonar e outorgar maior resistência, mais consciência corporal e respostas rápidas a todas as exigências fí­sicas. Também para o canto, teatro ou qualquer outra atividade na qual seja imprescindí­vel uma voz clara, limpa e melodiosa, predicados que dependem de uma respiração bem aplicada; e ainda para melhorar a qualidade de vida, amenizando o estresse advindo do ritmo alucinante dos grandes centros urbanos.

A palavra pranayama deriva de dois termos sânscritos: prana1, que significa alento, força vital, respiração, energia e vitalidade, e ayama, expressão que, segundo o Amarakosha2, significa extensão, intensidade, propagação, dimensão. Pranayama, então, é o processo através do qual se expande e intensifica o fluxo da energia no interior do corpo.

Em outra acepção, essa palavra estaria formada pelos vocábulos prana, designando a energia vital, e yama, que significa controle, domí­nio, retenção, pausa. Donde pode traduzir-se também como domí­nio da bioenergia, utilizando técnicas respiratórias. Esse domí­nio não se faz no sentido de limitar a respiração, mas de expandi-la, a fim de lograr juntamente com isso a elevação da consciência. Uma vez que a respiração esteja perfeitamente regulada, poderemos facilmente controlar os processos conscientes, já que respiração, mente e emoções interagem mutuamente.

Em todos os textos de Yoga que chegaram até nós, o prana aparece sempre associado à força vital, energia e poder. Porém, é preciso destacar que esse termo possui dois aspectos: o cósmico e o individual.

O prana cósmico abrange todas as formas de energia existentes: a matéria (dinâmica na vibração das suas partí­culas atômicas) e as forças elementais da Natureza (luz, calor, magnetismo, eletricidade, gravidade) são suas expressões tangí­veis.

No plano sutil também designa o pañchatattva, os cinco elementos que constituem a matéria. “Śiva disse: Ó, Parvati, este corpo nada mais é do que a combinação dos cinco elementos: éter, ar, fogo, água e terra3. Segundo a cosmogonia Samkhya, esses pañchatattva formam o último estágio da manifestação de Prakriti, a Natureza, a substância primordial que emite o Universo através da interação das três qualidades que a compõem.

No plano humano, prana é o substrato energético que forma o nosso corpo tangí­vel, regulador de todas as funções orgânicas e fí­sicas. O volume de prana que circula dentro do corpo determina o grau de vitalidade de cada indiví­duo. Extraí­mos essa bioenergia de diversas fontes: da luz e do calor do Sol, dos alimentos que ingerimos, da água que bebemos, e, principalmente, do ar que respiramos. Ela circula no corpo pelas nadis, canais da fisiologia sutil.

O prana pode ver-se facilmente, em dias de Sol e céu limpo. Deitado ou sentado ao ar livre, fixe o olhar no infinito, respire tranquilamente e mantenha a mente alerta. Poucos minutos depois você começará a ver minúsculas esferas de luz brilhante e transparente, que refletem o azul do céu. Utilize sempre esta imagem ao visualizar a absorção do prana. O ar que respiramos é ar material (sthula vayu). Através do domí­nio desse ar material, que conseguimos controlar o prana ou ar sutil (sukshma vayu). É sobre essa relação entre o ar denso e o ar sutil que versa o pranayama.

O prana como energia manifestada biologicamente é um conceito essencial dentro do Yoga. Através do desenvolvimento e controle dessa força atingimos os estados de consciência relativos à unificação do ser, indispensáveis para alcançarmos o samyama4.

O domí­nio e a expansão do prana no corpo do praticante começa pela execução de determinados exercí­cios que consistem em dar à respiração um ritmo diferente daquele que caracteriza o estado de vigí­lia, visando a fazer com que ela flua ora de forma lenta e profunda, ora acelerada e vigorosa, de acordo com o efeito desejado. A razão disso é que existe uma relação muito estreita entre ritmo respiratório e estados de consciência.

Essa afirmação vai muito além da simples comprovação de que, por exemplo, a respiração de uma pessoa que está fazendo um esforço para concentrar-se diminui o seu ritmo naturalmente, enquanto que alguém submetido a uma situação limite respirará de forma superficial e agitada.

O Yoga conhece quatro estados bem diferenciados de consciência, além do samadhi5: o estado de vigí­lia ou consciência habitual (que é a que você provavelmente está utilizando agora, enquanto lê este livro), o sono e o sonho, nos quais a atividade consciente continua, embora regida por outras leis que não as empregadas durante a vigí­lia; e, finalmente, o chamado turiyavastha (quarto estado), imediatamente anterior à iluminação.

Sobre esse quarto estado nos dizem as escrituras: “Uma vez que a coisa chamada o espí­rito de vida veio de algo que é maior que ele próprio, deixai que este se entregue àquilo que se chama turiya, a quarta condição da consciência“. Porque foi dito: “Há algo além da nossa consciência e que habita em silêncio nela. É o supremo mistério que ultrapassa o pensamento. Apoiai a mente e o corpo sutil nesse algo e não o apoieis em nenhuma outra coisa6. O estado de turiya não é nada impossí­vel de ser alcançado: desde as primeiras experiências profundas de pranayama ou samyama é possí­vel vivenciá-lo.

Através do pranayama, prolongando cada vez mais a inspiração, a expiração e as retenções, o yogi pode penetrar em todas essas modalidades de consciência. O sadhaka7, mantendo a continuidade da sua atenção, vivencia os estados próprios do sono e do sonho sem renunciar à sua lucidez e logra a concentração e a unificação dos seus pensamentos no quarto estado, o que lhe dará acesso à meditação contemplativa (dhyana), e, posteriormente, ao estado de hiperlucidez (samadhi). Porém, como veremos mais adiante, o objetivo imediato do pranayama é bastante mais despretensioso.

yogis que, nos estágios mais avançados do sadhana8, auto-induzem estados catalépticos, associados ao turiya, nos quais a respiração e o ritmo cardí­aco diminuem até se tornarem praticamente imperceptí­veis. Isso não é de maneira alguma resultado de auto-sugestão, mas fruto da concentração e da força de vontade: “A restrição da respiração é às vezes tão grande que alguns yogis podem ser enterrados sem perigo durante um tempo, com uma reserva de ar que seria totalmente insuficiente para garantir a sua sobrevivência. Essa pequena reserva de ar tem como objetivo, segundo eles, permitir-lhes sair em caso de que algum acidente interrompesse a sua experiência yogika e os obrigasse a fazer algumas inspirações para se repor” (Dr. Jean Fillizoat, Magie et Médicine, p. 115 e 116).

Esse estado cataléptico é um dos oitenta e quatro siddhis, os poderes paranormais (literalmente, perfeições) mencionados por Patañjali no Yoga Sutra, poderes lendários que fazem com que o Yoga exerça um grande fascí­nio desde tempos imemoriais em todas as camadas da sociedade indiana, tanto sobre os filósofos eruditos como sobre os cultos mágicos populares hindus.

Resumindo, podemos afirmar que o pranayama é a disciplina através da qual o praticante procura plasmar o seu próprio organismo com a totalidade das forças e poderes do Universo.

Guia de Meditação



Pedro Kupfer

Texto extraí­do das páginas 41 a 46 da edição, de maio de 2000, do livro Guia de Meditação (1997), de Pedro Kupfer (Fundação Dharma, Florianópolis).

Visite o site do Pedro em www.yoga.pro.br

  1. Prana, por sua vez, provém das raí­zes pra, intenso, que denota constância, intensidade, e na, movimento. De onde se conclui que prana é uma força em constante movimento ou vibração. []
  2. Amarakosha é o mais importante dicionário sânscrito clássico, escrito pelo lexicógrafo e gramático Amarasimhah, da corte do rei Vikramaditya, que, calcula-se, tenha governado entre os séculos I aC e IV dC. []
  3. Śiva Svarodaya, 191. Esse é um texto sânscrito tradicional, escrito em forma de diálogo entre Śiva e Parvati, no qual se expõe o saber sobre o domí­nio da bioenergia e a corporeidade oculta segundo o Tantra. []
  4. Samyama é o nome da técnica trí­plice que designa as etapas finais da meditação no Yoga: a concentração (dharana), a contemplação (dhyana) e a iluminação, também chamada ênstase (samadhi). []
  5. Iluminação, hiperconsciência, objetivo final da prática do Yoga. O samadhi não compreende apenas um estado de consciência; ele seria mais uma área de sabedoria que abrange várias modalidades de megalucidez. []
  6. Maitri Upanishad, VI:19. []
  7. Praticante. []
  8. Prática cotidiana. []
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