Origem e evolução do Ayurveda

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» por Dr. Danilo Maciel Carneiro
Sri Yantra

A origem do Ayurveda

O Ayurveda é considerado um dos ramos dos Vedas. Mais comumente, ele é relacionado como um Veda acessório do Rig Veda ou do Atharva Veda. Mas, segundo a Charaka Samhita, ele é, na verdade, uma corrente de conhecimento que vem de geração a geração, desde a eternidade, paralelamente com a literatura védica. Por isso, na Índia se diz que o Ayurveda originou-se diretamente do próprio Criador (Brahma), antes mesmo da criação do Universo. O Ayurveda é considerado eterno, porque ninguém realmente sabe em que época ele ainda não existia. Tudo isso mostra sua longa tradição e a sua profunda ligação com a cultura indiana.

BrahmaDe acordo com a História da Índia antiga, a tradição do Ayurveda começou diretamente a partir de Brahma, que o passou integralmente, através de Daksha Prajapati e do deus Indra, ao sábio Bharadvaja, ou Atri, os quais entregaram toda essa ciência nas mãos do sábio Atreya. Isso mostra que a tradição do Ayurveda, até Indra, é uma tradição divina, e que foram os sábios Bharadvaja ou Atri que a trouxeram para o plano terreno. O sábio Atreya, após o ter recebido, discutiu os tópicos de medicina ayurvédica com os mestres da época em diversos simpósios, organizados em várias partes do paí­s, e formulou os conceitos básicos do Ayurveda como um sistema de medicina humana. Atreya formou diversos discí­pulos, mas o mais famoso e brilhante deles foi Agnivesha, que escreveu o Agnivesha Tantra (Tratado de Agnivesha). Os outros discí­pulos também escreveram vários compêndios, representantes da famosa Escola de Atreya (ou medicina), mas o Agnivesha Tantra foi sempre o texto mais reconhecido e adotado. Posteriormente, esse tratado foi refinado e ampliado pelo sábio Charaka, e passou a ser conhecido como Charaka Samhita, embora o tratado original de Agnivesha tenha permanecido por um longo perí­odo, Dakshacomo se constata pelas diversas citações encontradas em vários textos comentados da época. A Charaka Samhita, por sua vez, também foi revista por um mestre de Kashmir, chamado Drdhabala, e o texto atual da Charaka Samhita, lida em todo o mundo e considerada a “bíblia” viva do Ayurveda, é o próprio Agnivesha Tantra refinado por Charaka e posteriormente revisado por Drdhabala.

Em termos de datas, para fundamentação histórica do Ayurveda, não é fácil se estabelecer números em calendários aceitos na atualidade. Contudo, segundo os registros disponíveis, de acordo a literatura pesquisada, podemos fixar que o sábio Atreya viveu por volta do ano 1.000 a.C, Indrao que nos remonta para uma idade de 3.000 anos de história. O sábio Charaka, por sua vez, segundo os dados de que dispomos, viveu por volta de 500 anos a.C, o que nos remonta a uma época situada há 2.500 anos. Muitas outras datas e números são encontrados na literatura e na tradição da cultura indiana, mas são pouco fundamentadas em termos de registros históricos válidos. Não se sabe por quanto tempo o conhecimento sobre o Ayurveda permaneceu sendo difundido antes de ser entregue a Atreya. Talvez por isso se diz, considerando os perí­odos que antecedem Atreya, que o Ayurveda é praticado na Índia há mais de 5.000 anos.

A evolução do Ayurveda

AtreyaO sucesso do Ayurveda no mundo atual tem como bases principais dois aspectos igualmente importantes: primeiramente, sua história de quase 5.000 anos de tradição, que rompe as barreiras impostas pelo tempo e pelas fronteiras culturais, sobrepondo-se a todas as transformações sociais, polí­ticas e cientí­ficas. O Ayurveda consegue não apenas manter-se vivo em seu local de origem, mas também expandir-se pelo mundo e inserir-se naturalmente na vida de povos dos mais diversos paí­ses do mundo. Em segundo lugar, esse sucesso pode ser atribuí­do à evolução do Ayurveda dentro do conceito de ciência e a sua inserção no meio acadêmico moderno, Agnivesha e discípuloso que constitui uma vitória sobre os preconceitos e sobre o separatismo que a ciência moderna impõe sobre as formas de saber tradicional. Esse segundo aspecto configura-se como uma afirmação cientí­fica de acordo com os moldes racionais e positivistas do mundo ocidental, estruturada a partir dos estudos e pesquisas da ciência oficial. A estruturação cientí­fica do Ayurveda acontece especialmente na Índia, onde ele é ensinado nas Universidades, dentro dos cursos de Medicina e de Farmácia, em conjunto com os conhecirnentos da medicina ocidental moderna. Atualmente, os estudantes de Medicina na Índia cumprem dois anos de estudos ayurvédicos, paralelamente com o aprendizado da medicina ocidental, durante os seis anos de curso médico. Isso mostra a força do Ayurveda enquanto um saber tradicional que se mantém vivo, apesar da invasão cultural estrangeira.Charaka

O Brasil é um paí­s muito novo. Pode ser considerado um bebê em relação à Índia e seus cinco milênios de história. Isso dificulta a nossa compreensão do que seja uma tradição cultural ou um saber médico tradicional que resiste ao tempo, à colonização e a todo o seu processo de aculturação. Nos dias atuais, quando recém completamos nossos 500 anos de colonização, vemos nossos í­ndios manifestarem-se contra uma atitude nacional que expressa a maior de todas as aculturações possí­veis: o fato de estarmos comemorando o “descobrimento” do Brasil, como se antes ele fosse uma terra despovoada, sem donos, sem vida e sem cultura. O afastamento de nossa cultura original foi tão grande que sequer reconhecemos que existia algo aqui antes da implantação da cultura européia do século XVI. Na Índia, apesar da colonização inglesa, que reprimia as manifestações de identidade cultural do povo indiano, a cultura védica tradicional jamais pode ser destruí­da. Ela continuou se manifestando no í­ntimo dos lares e dos corações dos indianos, até o advento da revolução cultural conduzida por Gandhi, após a qual a sabedoria, a filosofia e a ciência tradicionais foram reconduzidas ao estado de oficialidade.

Com a integração do Ayurveda ao sistema polí­tico e cientí­fico oficial, as Universidades abriram espaço para estudos, pesquisas e ensino acadêmico dessa ciência, que correspondeu a todas as expectativas dos seus adeptos, fazendo confirmar, a cada dia, as suas bases teóricas através de experimentos cientificamente reconhecidos. É claro que ainda existe uma vasta gama de conhecimentos ayurvédicos a serem pesquisados, como de resto em toda a ciência e em toda a medicina moderna. Sabe-se que, atualmente, menos de uma terça parte dos procedimentos e condutas da medicina ocidental moderna foi pesquisada de acordo com os moldes mais rigorosos da metodologia cientí­fica. Assim, também, o Ayurveda encontra-se em fase de evolução dentro desse rigor cientí­fico, mas, como já mencionamos acima, ele já venceu a prova mais difí­cil de todas, que é a prova do tempo, esta sobre a qual a medicina moderna ainda não conseguiu se impor, tendo em vista as constantes quedas de teorias e práticas, que hoje são a Lei e amanhã caem por terra, derrubadas por outras novidades. Além disso, considerando-se a questão do tempo de vida, a medicina científica moderna, com seus menos de 200 anos de história, pode ser comparada a um embrião em relação ao Ayurveda, imutável em seus princí­pios há 5 mil anos.

O que podemos afirmar é que o Ayurveda cativa pela sua genial simplicidade, pela inexplicável magia de desvelar há milênios verdades cientí­ficas que só recentemente puderam ser desvendadas pela ciência moderna, e pela eficiência enquanto uma terapia natural, atóxica, suave e potencialmente barata.

Por todos esses aspectos, o Ayurveda é recomendado pela Organização Mundial de Saúde como um sistema médico a ser adotado especialmente pelos paí­ses em desenvolvimento, em nome do já antigo sonho de tornar a saúde um bem acessí­vel a todos os cidadãos do planeta.


Texto extraído da apostila do Curso de Fundamentos e Aplicações da Medicina Ayurvédica, do Dr. Danilo Maciel Carneiro,
e digitado por Cristiano Bezerra em de junho de 2002.

Dr. Danilo Maciel CarneiroDr. Danilo Maciel Carneiro estuda e pratica o Ayurveda há mais de 20 anos.
Especialista em Medicina Geral e Comunitária/Preventiva e Social, pelo Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da UFG.
Médico Especialista em Homeopatia. Membro da Associação Médica Homeopática do Brasil.
Membro da Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura. Sócio Fundador da Sociedade Médica Goiana de Acupuntura.
Membro da Seção de Ensino e Pesquisa do Hospital de Medicina Alternativa da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás – SUS-GO. Professor Convidado do Departamento de Saúde Coletiva do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da UFG.
Membro da Rede de Pesquisa em Fitoterápicos da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG).
Membro Honorário da ABRA – Associação Brasileira de Ayurveda. Representante da ABRA – Centro-Oeste.
Autor do livro Ayurveda, Saúde e Longevidade.

Visite o site da ABRA – Associação Brasileira de Ayurveda em www.ayurveda.com.br

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