Porno Yoga

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» por Pedro Kupfer, do yoga.pro.br

Playboy Yoga e a postura do cachorro olhando para baixo

Playboy Yoga e a postura do cachorro olhando para baixo

O observador atento da relação entre a mídia e o Yoga, na onda de popularidade crescente que este vive atualmente, já viu de tudo: Yoga e vinho, Yoga nu, Yoga para cavalos e cachorros, Yoga para acrobatas (Acro Yoga), Star Wars Yoga, etc. Enfim, Yoga deturpado em todas as suas formas. Essa enxurrada de atropelos e distorções pode provocar um efeito anestesiante na nossa comunidade, que já não se espanta mais com a próxima palhaçada new age ou invenção sectária.

Essa insensibilidade é similar ao marasmo que campa na nossa sociedade perante a infindável lista de escândalos do presente governo que, infelizmente, não escandalizam mais ninguém, nem terminam em punição para os envolvidos. Lá se foi o tempo em que Collor, o “caçador de marajás”, foi defenestrado da Presidência por causa de um Fiat Elba recebido como favor de corrupção.

Hoje em dia nossos políticos roubam bilhões nos níveis federal, estadual e até municipal, e isso não mais produz espanto ou indignação. Estamos anestesiados. Marx errou: o ópio do povo não é a religião, mas a política mequetrefe praticada pelos que governam este belo país atualmente.

Playboy Yoga

Playboy Yoga

Yoga + erotismo = $$$

Volto ao assunto do título: na onda da popularização do Yoga, multinacionais como Adidas, Puma e Nissan estão lutando para extrair seu quinhão de lucro, o que não surpreende. Agora, o que ninguém esperava, e que pode deixar muitos espantados, é a mistura de Yoga e pornografia, promovida pela revista Playboy para vender seus hiper sexualizados “produtos”. Essa iniciativa visa, como as estratégias promovidas pelas demais multinacionais, o mesmo objetivo: lucrar com as nossas saudações ao Sol e estilo de vida.

Nessa guerra pelo dinheiro, vale até usar até o chumbo grosso da apelação mais vil: a pornografia pura e dura associada à prática de asanas. Vai ser difícil aquele guru da mentira ou o criador da próxima palhaçada caírem mais baixo do que isso. Esse é o fundo do poço, o fim da picada mesmo. Não lembro de ter visto nada parecido nesses mais de 30 anos de convívio com todas as formas de Yoga, fidedignas e não fidedignas. O Porno Yoga deixou as demais distorções no chinelo. Tudo pelo lucro.

Playboy Yoga

Playboy Yoga

O corpo como objeto

Aquela velha desculpa de que “é melhor aceitar quaisquer práticas de asanas como sendo Yoga” (pois “quanto mais Yoga, mesmo deturpado, melhor para todos”), não cola mais, nem pode ser mais aceita sem ressalvas. Na leitura de Yoga que a revista Playboy faz, o corpo da “instrutora” é um commodity, um mero objeto usado para excitar os sentidos dos “clientes” da publicação. Ninguém vai praticar em casa seguindo as ”instruções” contidas nesses vídeos. A Playboy não poderia ser tão cínica para afirmar isto.

Você consegue aceitar isso numa boa? Que significado tem, para você, o seu próprio corpo? Você consegue perceber essa objetificação do corpo humano neste anúncio de meias cujo público-alvo somos nós, os(as) praticantes de Yoga? Aqui, eu vejo o corpo da moça como um objeto, e o Yoga como um produto que se associa a esse objeto, para vender meias. Isso está certo?

Anúncio da Toesox

Anúncio da Toesox

Se aceitarmos isso como sendo Yoga, o que nos reserva o futuro? Já temos Playboy Yoga e Adidas Yoga. Qual vai ser o próximo passo? Monsanto Yoga? Petrobras Yoga? Disney Yoga? Globo Yoga? Quem vai ser o próximo capitalista demente a querer apropriar-se do Yoga?

Em tempo, coloco aqui que não tenho nada pessoal contra a beleza do corpo nu, ou contra a sensualidade ou contra a celebração dessa beleza e dessa sensualidade. Pelo contário. Porém, creio que cada expressão desse tipo deve acontecer dentro de seu devido contexto. Qual é a diferença entre usar um corpo nu para vender pneus de caminhão e usar um corpo nu para vender meias? Ambos são igualmente degradantes para a mulher, no sentido de que reduzem o corpo, que é, per se, sagrado, e sua beleza e sensualidade, ao prosaico uso de um instrumento mercantil.

[Um aparte: você reparou no absurdo do produto que está sendo publicitado? Meias antiderrapantes para praticar Yoga? Onde se viu? Yoga se pratica, e sempre se praticou, de pés descalços. Aliás, exatamente o oposto do que se vê na foto acima: o corpo coberto (em caso de clima frio ou estarmos na Índia), e os pés descaços. Enfim…]

Yogis nus, lá e cá

Um sadhu fazer Yoga sem roupa numa montanha sagrada da Índia é muito diferente de uma coelhinha da Playboy fazer demonstrações com direito a caras e bocas (essa parte estou imaginando, pois não assisti o vídeo para cujo link aponta a imagem abaixo no site da Playboy, embora seja certo que haja caras, bocas e muitas outras partes expostas do corpo da modelo).

Playboy Yoga e a postura do cachorro olhando para baixo

Playboy Yoga e a postura do cachorro olhando para baixo

O yogi nu da Índia não tira a roupa com a intenção de apelar ou despertar o desejo sexual em si mesmo ou nos demais. Pelo contrário: ele desnuda seu corpo como um sinal externo de desapego, que acompanha uma série de outras atitudes desapegadas em relação à sociedade e a si mesmo. Esse desapego, bem compreendido, é um passo importante no processo de moksha (a libertação), no qual o praticante deve se desvencilhar daquilo que não tem valor para si.
Playboy Naked Yoga

Playboy Naked Yoga

Isso não significa que todos os praticantes devam tirar a roupa ou praticar o nudismo. A maneira em que interpretamos o desapego está em função do tipo de prática que precisamos fazer. Existem práticas tamásicas, rajásicas ou sáttvicas, de acordo com a necessidade de cada praticante. Porém, não há prática do Yoga erótico ou pornográfico, como quer a tal publicação. Yoga, associado a esse tipo de conteúdo, é o oposto do Yoga e do que ele propõe.

Agora, vejamos abaixo um caso de nudez humana bem usada para publicitar uma boa causa. Eis um grupo de professores de Yoga numa campanha da PETA (“Povo pelo Tratamento Ético dos Animais”) para não usarmos artigos de couro, considerando os direitos dos animais. “Preferimos andar NUS do que usar couro”, diz a frase abaixo, em inglês. O leitor amigo saberá perceber a diferença entre a duvidosa intenção das imagens acima e a intenção inequívoca desta que vem a seguir. Aqui não há apelo nem uso do corpo como um objeto para vender algo.

Grupo de professores de Yoga numa campanha da PETA

Grupo de professores de Yoga numa campanha da PETA

O Yoga na sociedade de consumo

A sociedade de consumo reduz tudo a dois tipos de produto: os que dão lucro e os que não. Por enquanto, o Yoga vende bem, ao que parece. A sexualização do Yoga, sua associação com o erotismo e a pornografia, é mais um capítulo que degrada e afasta aquilo que hoje se conhece como Yoga, do Yoga de raiz, o original. O problema da pornografia é que ela mostra tudo, menos o essencial. E o yogi busca ver o essencial, como bem sabemos.

Yoga como distração ou entretenimento não é Yoga. Yoga é uma ferramenta para a liberdade. Não tem, nem nunca teve, a pretensão de entreter ou divertir ninguém. Se você olhar com cuidado, verá que a sociedade destina os maiores pagamentos aos maiores “distraidores”: atores, políticos, rock stars, “celebridades” e falsos gurus. O verdadeiro Yoga sempre esteve à margem desses acontecimentos, tanto no seu lugar de origem quanto aqui no Ocidente. Até agora.

O autor dessas linhas não considera que o Yoga deva receber algum tipo de tratamento especial na sociedade de consumo. O fato de não gostar da mercantilização e o uso questionável que se faz atualmente da imagem do Yoga está inserido num contexto maior. Pessoalmente, não gosto da comercialização do Yoga assim como tampouco gosto da comercialização da arte, do erotismo e de todas as manifestações culturais. Essa extrema comercialização é ruim para todos nós, para a nossa cultura e para o mundo. Só isso.

Assim sendo, penso que o praticante consciente não deve dar força nem ficar calado perante esse tipo de distorção. Afundamos cada vez mais na Kali Yuga, a era do egoísmo e dos conflitos. Salve-se quem puder. Salve o Yoga, quem puder. Porém, antes de declararmos a morte do Yoga por choque de capitalismo, pensemos o que podemos fazer para tirá-lo da UTI onde se encontra agora.

Namaste!


Artigo originalmente publicado em 7 de outubro de 2010 em www.yoga.pro.br

Pedro Kupfer

Pedro Kupfer

Pedro Kupfer nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1966. Descobriu o Yoga aos 16 anos de idade, e pratica, aprende, estuda e ensina desde então. Estabeleceu o primeiro contato com essa cultura através de um workshop intensivo em 1983 com a professora indiana Swami Yogashakti, discípula de Svami Satyananda. Continuou praticando com os professores do Satyananda Niketan, em Montevidéu, até se mudar para o Brasil em 1986. Considera o Yoga mais como uma forma de vida do que uma atividade que simplesmente se faz dentro de uma sala. Pedro escreveu e traduziu vários livros sobre Yoga, além de integrar o Conselho Editorial das revistas Cadernos de Yoga e Yoga Journal e editar o website yoga.pro.br, veículos especializados nessa cultura. Fez várias viagens de estudos à Índia e a outros países do Oriente e, atualmente, mora na praia de Mariscal, em Santa Catarina, onde ministra Cursos de Formação em Yoga no Espaço Yogabindu, e é também Presidente do Conselho Técnico da Aliança do Yoga. Quando não está viajando, ensinando ou praticando, gosta de cantar, surfar e cozinhar. Conheça mais o trabalho do Pedro em seu website, www.yoga.pro.br

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