Saúde e sabedoria através do Yoga

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Hermógenes ensinando a seus alunos
» Entrevista com Professor Hermógenes por Inês Castilho

Em 1992, aos 71 anos, o professor José Hermógenes era o retrato vivo do poder terapêutico do método de Yoga por ele desenvolvido, o qual fez chegar a mais de um milhão de leitores através de 23 livros publicados. Com o lançamento do livro Saúde Plena: Yogaterapia (Editora Nova Era), ele comemorou três décadas de atividades na área alternativa.

De que trata seu livro Saúde Plena: Yogaterapia?

capa do livro Saúde Plena com Yogaterapia, do Professor HermógenesEsse livro coroa os 30 anos de fundação da Academia Hermógenes de Yoga e os 32 anos desde o lançamento do meu primeiro livro, Autoperfeição com Hatha Yoga, agora em sua 32a edição. Foram 30 anos de vitória. Em Saúde Plena: Yogaterapia (Editora Nova Era), relatei dezenas de casos de cura das doenças mais variadas, e até de doentes terminais. Eles testemunharam o poder terapêutico admirável do método de Yoga que desenvolvi e apresentei ao público nos mais de 20 livros que escrevi durante esses anos todos. O caso mais fantástico é o da cura de um doente terminal, Severino Araújo, um cientista, dirigente da FAO (Food and Agricultural Organization, da ONU) para a América Latina. Na linguagem doce de meu livro Mergulho na Paz, de poesia mí­stica, ele encontrou uma explicação para a vida que fez seus sintomas desaparecerem do dia para a noite. Isso veio confirmar minha suspeita de que a prática de asanas, as posturas, é muito eficiente, mas infinitamente mais poderosa, em seu potencial terapêutico, é a cosmovisão da filosofia védica. Esse homem entrou numa vivência profunda, que hoje é conhecida como “estado quântico”. O ní­vel quântico, descoberto pela fí­sica moderna, é aquele no qual o tempo, o espaço e a causalidade desaparecem. A gente vive na plenitude da Unidade que todos nós somos. E, no caso, a cura pode ser instantânea, um milagre.

Como se pode ter acesso a seu método?

O meu sistema está exposto em dois livros principais: Autoperfeição com Hatha Yoga e Yoga para nervosos. Mas os meus livros que têm aspectos mí­sticos também têm poder terapêutico, como prova o caso de Severino Araújo. Nesse livro, eu o organizei como uma sinergia, a cooperação de frentes terapêuticas. São elas a somaterapia, a terapia do corpo através de posturas, ou asanas, e da dieta inteligente (dietoterapia); a esteticoterapia, disciplina do plano emocional, sentimental; a pranoterapia, que é a atuação no campo energia, do prana; e a eticoterapia, a correção do comportamento moral. Na medida em que o ser humano aperfeiçoa a sua conduta, ele vai obtendo maior eficiência nos sistemas imunológico e homeostático de seu organismo.

Os sistemas defensivo e de estabilização automática são os que mantêm a saúde. A eticoterapia ajuda o bom funcionamento, assim como a esteticoterapia. Assistir a um filme de terror ou andar de montanha-russa, por exemplo, provocam um estresse que realmente perturba a homeostase e o sistema imunológico da pessoa. Há ainda a psicoterapia, que é o trabalho com a mente. E, finalmente, a logoterapia, o trabalho com o Espí­rito, que é o Ser Supremo em nós.

O trabalho com esses planos se dá simultaneamente?

Sim, ao mesmo tempo em que o aluno ou leitor faz a postura física ele está praticando uma respiração especial, que atua no campo do prana, e também a vivência de um sentimento agradável. Depois, procura atingir com a mente aquele estado de concentração que faz vivenciar, tomar consciência e penetrar no mundo transcendente, o mundo quântico. Ao longo do dia, ele faz a opção pela nutrição e pelo lazer. Diante de uma questão ética, é preciso que pare para ver se aquilo vai contribuir com a sua felicidade ou, ao contrário, vai deixar uma brasa em sua consciência e, por isso, alterar os subsistemas de seu corpo. Finalmente, é preciso observar como o aluno se relaciona com Deus. Um dos últimos capítulos do Saúde Plena: Yogaterapia é sobre a “colheita da Graça”. Aí­, eu ensino várias técnicas de meditação, de repetição do Nome de Deus, de oração.

Temos de administrar nossa vida para conquistar e manter a saúde plena. Se nos descuidamos, forma-se a patogênese. Bhoga é virar-se para fora, procurar o sentido da vida no imediatismo materialista, na sensualidade, no apego, no descontrole. Bhoga termina em roga, que é a doença. Yoga é interiorização, unificação, convergência, independência, desapego, amor. E Yoga leva a arogya, que é a saúde plena.

Assim como o leito é o caminho que leva o rio para o mar, o Yoga canaliza nossa vida para o grande mar que é Deus. Yoga significa união. Nossa miséria, nossa tortura, insegurança, nosso medo, nossos ódios e inferioridades decorrem de estarmos distantes e nos sentirmos distintos de Deus. Yoga é reaproximação, até que a gota d’água se oceanifique.

Nesse livro o senhor fala em “normose”. O que é isso?

É a caracterização de uma doença que ainda não está nos tratados de medicina, mas que a minha experiência de 30 anos me convenceu de que existia. Normose é a doença de ser normal, de viver ajustado a uma sociedade desajustada. O normótico é mesmificado, massificado, não se destaca e não se distingue, é uma peça do rebanho humano. E, como esse rebanho humano está muito tresmalhado, ser normótico é estar doente. Na parábola do filho pródigo existem dois momentos. Primeiro, a viagem de alienação, quando ele sai da casa do pai e chega ao extremo sofrimento. O segundo momento é quando ele passa por uma conversão, ou metanóia. Metanóia, para os gregos, é a mudança da mente. Se eu ia na direção mundana, na metanóia o mundanismo já não me pega, pois estou comprometido com alguma coisa que é interior e superior. Na primeira fase, que os hindus chamam de pravrtti marga, o normótico chega ao sofrimento e à doença. A partir da conversão ele começa a percorrer o caminho do Yoga e a volta para casa. É o nivrtti marga.

Pedro Kupfer surfando

Qual o seu conceito de saúde?

Saúde não é a simples ausência de doença. Para a Organização Mundial de Saúde, saúde é o perfeito bem-estar fí­sico, psí­quico e social do indiví­duo. Vou um pouco mais além e digo que saúde é a capacidade de manter a estabilidade interna, com a homeostase e o sistema imunológico, a fim de que eu possa reagir de maneira eficiente aos estí­mulos do meio externo e também ao meio interno. Perdida a estabilidade, saúde significa readquiri-la, fácil e rapidamente. Se eu perder a capacidade de me reestabilizar, então está caracterizada a doença.

Saúde, portanto, é um conceito dinâmico. Comparo aquele que quer manter a saúde com o jovem que está se equilibrando no dorso de uma prancha de Surf: ele tem de administrar, durante todo o tempo, a direção e o movimento de seu veí­culo. Essa administração da vida é fazer escolhas diárias a respeito de alimentação, do lazer, dos pensamentos e dos sentimentos. Isso só a pessoa pode fazer. Daí­ eu dizer que estamos diante de uma terapêutica em que não existe paciente. O jovem não se equilibra na prancha porque alguém diz: “Vá para a esquerda ou para a direita”. Ele é que decide.

Como o senhor chegou a esse conceito?

Eu era capitão do Exército, no final dos anos 50, quando tive uma tuberculose. Fiz um tratamento convencional que me obrigou a momentos de muita solidão. Consegui uma cura verdadeiramente milagrosa, depois de muita provação. Mas o médico me disse que eu não poderia mais pensar em tomar banho de mar nem banho de Sol, não podia pegar chuva, não podia andar apressado, não podia isso, não podia aquilo… Eu estava gordo, com uma barriga enorme de tanto repouso e alimentação. Era uma vida muito pobre de esperança e de vigor. Foi aí­ que me caiu nas mãos um livro de Yoga, em inglês, e depois outro, em francês. Fiz então o meu treinamento, escondido do médico. Parecia que eu estava só, mas Deus estava comigo e o resultado foi excelente. A cor foi voltando ao meu rosto, junto com uma nova disposição para a vida.

Foi tão grande a diferença operada em mim que eu disse: isso é uma mina de ouro. E decidi agradecer a Deus oferecendo minha vida a ensinar o mapa da mina. Para isso, tive de fazer um estudo muito determinado, para que meu livro pudesse ser lido inclusive por médicos. Usei e abusei do direito de estudar. E assim nasceu, em 1960, Autoperfeição com Hatha Yoga, que se tornou um best seller e está em sua 32ª edição.

Esse livro foi de um pioneirismo muito grande, não é mesmo?

Não quero ter vaidade nem soberba, mas é preciso reconhecer que a medicina holística, hoje tão falada, nasceu no Brasil com esse livro. O ser humano não é formado apenas de um corpo, como pensam os materialistas. Mas de um corpo com um campo de energia, que é suscetí­vel às emoções, e as emoções são suscetí­veis a pensamentos, que ainda recebem impressões do intelecto ou da razão. E tudo isso está dentro de uma vastidão, que é o Espírito. Esse é o modelo de homem que apresentei já em meu primeiro livro, sem nunca ter ouvido falar na palavra holismo, que foi aparecer muitos anos depois.

Como se deu seu encontro com Deus?

Minha busca de Deus vem desde criança. Nasci em uma famí­lia pobre, e desde cedo fui amorosamente desafiado por Ele. Isso me deu uma experiência fantástica para lidar com a vida. Fez de mim uma pessoa alerta, a pessoa que hoje tem autoridade para dizer aos outros que não tenham autopiedade, não tenham auto-severidade, que não sofram com as desilusões, aceitem o que vem. Isso já foi Deus conduzindo meu aprendizado de Yoga desde a minha infância, dura, mas feliz. Por outro lado, minha mãe foi um exemplo de bravura, de carinho, de devoção. Mas eu tive outra mãe, que foi minha terra, a cidade de Natal (RN), que, por sua beleza, tocou minha parte mí­stica. Ainda adolescente, contemplando a imensidão do mar em cima de um rochedo batido pelas ondas, com a água salpicando meu rosto, eu sentia a presença do Transcendente.

Mas, numa certa época, me afastei de Deus, porque não encontrava resposta às minhas perguntas. Quando li a Bhagavad Gita, porém, Krishna me restituiu o Cristo, e hoje estudo também o Evangelho de Jesus. Mantenho, na Academia, dois cursos permanentes, O Yoga do Cristo, com comentários sobre o texto evangélico, e o estudo da Bhagavad Gita, sempre fazendo referência aos ensinamentos de Jesus. Porque todos esses ensinamentos estão relacionados.

O episódio em que Jesus expulsa os vendilhões do templo, por exemplo, pode ter sido um fato histórico, mas significa também uma lição sobre o nosso corpo e a nossa mente como templos do nosso Ser Total. O Ser Supremo que somos é aquele que devia ser adorado no templo, mas, nesta vida de relação, temos dentro de nós muitas coisas que devem ser expulsas. Da mesma forma, a Bhagavad Gita toda é uma guerra entre as forças do Mal e as forças do Bem, e isso significa que realmente temos de travar uma batalha permanente dentro de nós. É também o que nos ensinou Mahomah (Maomé): quando ele falou em Jihad, não estava falando em matar o outro, mas em travar a batalha interna para se limpar. Temos de proteger o que, em nós, é divino, contra a presença danosa, perturbadora e escravizante daquilo que é perverso, egoí­sta e odioso.

Como o senhor vê o mundo de hoje?

Estamos no Kali Yuga. Kali significa sombras, trevas, e Yuga, Era. Estamos na Era das Trevas, quando predomina a dissenção, a luta, o egoí­smo. É uma hora em que as forças do ví­cio e da perversidade estão aparentemente dominando. E as forças da virtude, da santidade, da saúde, da paz e do amor estão aparentemente dominadas. Aparentemente, porque a reação já acontece. Na Bhagavad Gita, Krishna, que era Avatar de Vishnu, disse: “Quando a irretidão predomina sobre a retidão, quando o pecado domina a virtude, Eu desço à forma humana, eu me avatarizo para restaurar a virtude, esmagar o ví­cio, proteger os santos e castigar os í­mpios“.

Ele disse também que vem pela convocação de seus santos e devotos. Como Cristo, ao dizer: “Não penseis que vim ab-rogar a Lei. Eu vim plenificá-la“. Vejo o mundo de hoje com a vitória esmagadora do Mal sobre o Bem, mas isso é transitório, porque no final a Retidão predominará.

Sri Sathya Sai Baba (1926 - 2011) e o Professor Hermógenes (1921-)Quando a Humanidade começa a dizer: “Agora, só Deus”, é porque está pedindo a Presença Divina. E Deus já está presente aqui na Terra, com todos os poderes de Jesus Cristo, inclusive ressuscitando pessoas. Ele chama-se Sai Baba e vive na Índia. Seus feitos estão contados no livro Sai Baba, o Homem dos Milagres, também da Editora Nova Era, que eu traduzi. Então, o mundo está cedendo a uma Luz que está se manifestando. A essa busca de profecias do desastre que está por aí­ eu proponho a profecia da esperança, que vou transformar em livro. O nascimento de uma Nova Era será a partir de dentro de cada um de nós.

E o apocalipse?

O apocalipse é interno. Quando nossas bases egóicas e egoí­sticas começam a ruir – porque só na ausência do egoí­smo é possí­vel ter paz -, é chegado o momento do nosso apocalipse. É a hora crí­tica, o dia do Juí­zo, e ele é interno e individual. É quando se começa a recolher as consequências calamitosas dos erros praticados, uma hora de apuração e de depuração.

E como o senhor encara a morte?

Esse meu livro Saúde Plena: Yogaterapia trata da conquista da saúde, mas o tí­tulo do último capí­tulo é Eutanásia: a poesia do morrer. Eutanásia, em grego, significa “o bom morrer”, “morrer em paz”. Descobrir poesia em sua própria morte e na morte de um ser amado é a maior prova de sabedoria.


Originalmente publicado na revista Planeta, nº 242, de novembro de 1992, e digitado por Cristiano Bezerra em 23 de dezembro de 2001.

Visite o site do Professor Hermógenes em www.profhermogenes.com.br



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