Tantra + Vedanta = Hatha Yoga?

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Shiva e Parvati
» por Pedro Kupfer

Com frequência, estamos acostumados a ver o Vedanta e o Tantra como ensinamentos conflitantes e mutuamente excludentes. O que não paramos para pensar é que essas duas escolas possam ter muito mais em comum do que imaginamos.

Ainda, para além dos pontos em comum que possamos encontrar entre ambas escolas, tampouco imaginamos, desde a nossa perspectiva limitada pelas etiquetas que em tudo colocamos, que alguém possa ter feito uma síntese entre essas duas grandes vias de conhecimento. E, pior ainda para nós, que essa síntese atenda pelo nome de Hatha Yoga!

A Shiva Samhita, um texto seminal do século XVII sobre Hatha Yoga, expõe com muita profundidade a visão não-dualista do Vedanta, combinada com as práticas tântricas. Filosoficamente falando, esse texto é o mais elaborado dos clássicos do Hatha, citando os exemplos e ensinamentos clássicos do Advaita, a filosofia monística ensinada por Shankara em textos como o Tattva Bodha, o Atma Bodha e o Brahma Sutra Bhashya.
Chakras
O leitor que já tiver familiaridade com o estudo do não dualismo vedântico reconhecerá esses ensinamentos. Notadamente, os exemplos sobre a unidade entre o Ser e a Criação, como o da confusão entre a corda e a serpente, o da confusão entre a prata e a madrepérola ou o do reflexo da Lua em diversos recipientes de água.

Algo que pode parecer chocante para o leitor é a presença, na mesma obra, de práticas e pontos de vista que hoje em dia nos parecem totalmente divorciados, como as práticas sexuais do Tantra e a visão monística do Vedanta. As práticas tântricas que envolvem a sexualidade foram sempre consideradas malditas pelo establishment político e espiritual de todas as épocas.

O Tantra encontrou inimigos não somente no seio do Hinduísmo, do qual sempre fez parte, mas igualmente fora dele. Durante o século XVI, era em que o imperador muçulmano Akbar governou o norte da Índia, praticantes do tantrismo Kaulachara que fossem descobertos eram condenados à morte por esquartejamento: seus corpos eram dilacerados por dois elefantes que puxavam em direções opostas. A crueldade dessas execuções nos dá a pauta sobre o preconceito e a animosidade que reinavam à epoca em relação às práticas do Tantra.

Essa mesma desconfiança em relação aos ensinamentos tântricos continuou até a colonização inglesa, não mais como perseguição a criminosos, mas na forma de censura e desaprovação. O vajroli mudra, descrito em detalhes nessa obra, faz parte desse corpo da espiritualidade maldita do Kaulachara Tantra.

A bem da verdade, essa aparente divergência nos pontos de vista do Vedanta e do Tantra é mais um produto da desinformação e do preconceito do que algo real. Tanto o Vedanta quanto o Tantra compartilham a visão, presente na espiritualidade da Índia desde os tempos vêdicos, sobre a unidade entre Consciência e Existência, entre o Ser e a Natureza.

A visão não-dualista, visível nos Vedas, nas Upanishads, nas Samhitas e todo o corpo literário pré-clássico do Hinduísmo (Smrti) a partir do quarto milênio a.C., é sintetizada magistralmente na obra de Shankara, que surge como o grande reformador do Dharma hindu. Essa mesma visão será atualizada mais tarde na literatura do Tantra, a partir do século IX d.C.

À diferença do Vedanta e outras correntes espirituais contemporâneas a ele, o Tantra não abdica nem renega a validade das experiências do corpo como veículo para a transcendência. Nesse sentido, o autor anônimo da Shiva Samhita empreende a corajosa tentativa de integrar, num único método de Yoga, todas as tecnologias práticas e pontos de vista que marcaram a espiritualidade indiana.


Pedro KupferPedro Kupfer nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1966. Descobriu o Yoga aos 16 anos de idade, e pratica, aprende, estuda e ensina desde então. Estabeleceu o primeiro contato com essa cultura através de um workshop intensivo em 1983 com a professora indiana Svami Yogashakti, discí­pula de Svami Satyananda. Continuou praticando com os professores do Satyananda Niketan, em Montevidéu, até se mudar para o Brasil em 1986. Considera o Yoga mais como uma forma de vida do que uma atividade que simplesmente se faz dentro de uma sala. Desde 2000 vem anualmente organizando em Santa Catarina o Yoga Sangam – Conferência Internacional de Yoga. Pedro escreveu e traduziu vários livros sobre Yoga, além de integrar o Conselho Editorial das revistas Cadernos de Yoga e Yoga Journal e editar o website yoga.pro.br, veículos especializados nessa cultura. Fez várias viagens de estudos à Índia e a outros países do Oriente e, atualmente, mora na praia de Mariscal, em Santa Catarina, onde ministra Cursos de Formação em Yoga no Espaço Yogabindu, e é também Presidente do Conselho Técnico da Aliança do Yoga. Quando não está viajando, ensinando ou praticando, gosta de cantar, surfar e cozinhar. Conheça mais o trabalho do Pedro em seu website, www.yoga.pro.br





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