Técnicas e métodos para o despertar da consciência

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Entrevista com Robert Broughton

www.robertbroughton.comCristina – Quais são as suas técnicas e métodos?

Robert – Essa questão “quais são as suas técnicas e métodos”, assim formulada, é compreensí­vel, porque essa é a maneira que nós fomos condicionados desde crianças; a maneira como nós vivemos é mais conectada com fazer do que com ser. Então somos orientados para métodos e técnicas em relação a tudo. E a melhor coisa que uma técnica e um método podem fazer é dar uma experiência temporária do que está além da mente. Assim que você termina de praticar o método ou a técnica, a mente volta imediatamente. E essa maneira de viver orientada em métodos e técnicas tem a sua utilidade. Mas existe uma coisa que, por exemplo, surfistas, atletas e até atores chamam “a zona”. Essa coisa que eles chamam de a zona acontece quando estamos praticando uma atividade tão engajados e completamente dedicados, com tanta energia e com tanta atenção, que estamos totalmente absorvidos, e essa absorção faz com que a mente pensante pare.

Eles falam sobre isso no Buddhismo Zen. Entre os artistas Zen, o mestre diz: “Vá e pinte aquela árvore, sente em frente àquela árvore, mas não comece a pintar até que você seja um com a árvore”… Em outras palavras, quando a mente silenciar, quando a mente não estiver lá, quando você não estiver tão envolvido com os seus pensamentos. Quando isso acontece com qualquer atividade que você esteja fazendo, e eu acho que todos nós ocasionalmente experimentamos isso, você se sente em unidade com tudo. O que você estava fazendo quando você experimentou isso?

Robert com grupo em Tiruvanmalai, Índia, em 2008José – Amor.

Robert – Amor, é uma maneira muito comum como isso acontece…

José – Meditação… na natureza.

Robert – E você, Antônio?

Antônio – Natureza… me lembra quando eu tomei LSD.

Robert – E quando foi isso?

Antônio – Sete anos atrás.

Robert – A maioria das pessoas pode pensar em alguma vez em que esteve nessa zona. Como um médico quando está realizando operações difí­ceis por 7 horas, e, quando ele sai, você lhe pergunta quanto tempo ele passou na sala de cirurgia, mas ele não sabe dizer. Essa zona, quando você está na zona, está completamente conectado com o presente. No entanto, quando você para de executar essa atividade que te leva à zona…

Cristina – A atividade que leva você à zona é prazerosa?

Robert – Sim, algo que você gosta muito. Tem que ser algo que você gosta muito, porque, quando você gosta muito, você não tem resistência em fazê-lo.

Ram DassÉ algo que você gosta muito, pois não existe resistência. Quando paramos de realizar essa atividade, a mente volta. Por isso Ram Dass foi para a Índia. Porque ele disse que, cada vez que tomava um LSD, via uma grande onda vermelha vindo em direção à ele, e primeiro ele não sabia o que era isso, e gradualmente ele se deu conta de que era a mente voltando. Ram Dass se deu conta que essa nuvem-onda que ele via depois de cada LSD que tomava era a mente que voltava a atuar. Eu experimentei isso numa ocasião após uma sessão de terapia de renascimento em um Ashram na Índia. Quando você respira fortemente por 10, 15 ou 20 minutos, e isso é algo que realizamos em nossos workshops. Existe um pouco de técnica e método nisso, mas eu digo claramente para as pessoas que essa técnica vai colocá-las na zona temporariamente, é útil para começar a desfazer bloqueios no corpo em emoções antigas que estão reprimidas. Essa técnica começa a soltar emoções que estão presas no corpo, mas essas técnicas, por elas mesmas, não levarão ao despertar total da sua consciência. Quando a respiração fica muito forte e você se entrega completamente, a mente vai desaparecer, porque causa uma hiperventilação, que é uma grande quantidade de oxigênio fluindo no cérebro, e isso faz com que os seus pensamentos parem. Quando eu fiz, em 1981, foi uma experiência muito poderosa, eu estava completamente fora da mente, em êxtase. Então eu escutei a voz dos lí­deres do workshop dizendo: “Volte”. E o primeiro pensamento que eu tive foi: “Voltar para onde?”. Nesse momento eu me dei conta de que era voltar para a mente. Voltar para o estado normal… E eu comecei a chorar, chorar e chorar… com uma tristeza profunda de ter que voltar para… mas também foi um liberação de emoções antigas. Então o Ram Dass, quando viu essa onda vermelha, ele soube que isso era a mente voltando, e aí­ a questão veio para ele: é possível permanecer nesse estado natural de êxtase o tempo todo, e não apenas quando você está por 8 horas sob efeito do LSD?

Numa conversa que ele teve com uma pessoa, ela lhe disse que existe esse tipo de pessoas na Índia, que podem fazê-lo, mas é difícil encontrar, mesmo que ele fosse lá. Talvez ele não encontrasse, mas talvez encontrasse. Seria o destino dele encontrar essas pessoas ou não.

Então ele chegou em Calcutá e lá alguém o levou para uma casa de chá, e ele encontrou outro americano que já vivia na Índia por alguns anos. Isso foi no começo dos anos 60, quando praticamente ninguém do Ocidente vivia na Índia. Então ele falou para esse outro americano porque ele havia vindo para a Índia.

E ele respondeu que, se ele quisesse, poderia levá-lo a encontrar o seu mestre, mas seriam vários dias viajando, pois ele vive no alto dos Himalaias. Então eles viajaram juntos pela Índia, e o Ram Dass trouxe com ele vários tabletes de LSD numa caixa, centenas de comprimidos, para saber se era possí­vel entrar naquele estado sem tomar LSD.

Ram Dass e Neem Karoli BabaOs dois americanos chegaram e encontraram esse senhor sentado lá nos Himalaias. Ram Dass disse que assim que ele viu esse homem sentado, algo explodiu no peito dele, e ele saiu correndo em direção a esse homem com lágrimas nos olhos, algo muito estranho para ele, que abaixou-se e tocou o pé desse homem. O mestre lhe disse: “Eu estava esperando você chegar… Você tem um remédio para mim”.

Ram Dass, chocado, disse: “Sim…”, e o mestre respondeu: “Me dê…”.

Ram Dass tirou o LSD do bolso e o senhor pegou a caixa e tomou todas as centenas de comprimidos de LSD, e, enquanto Ram Dass estava chocado, pensava: “Isso mataria 50 pessoas”.

Então, tudo o que Ram Dass descreve em seu livro é: “Eu sentei com ele a tarde toda, e ele estava sempre sorrindo”. Essa foi a resposta para a questão de Ram Dass: aquele homem estava naquele estado naturalmente, por isso que o LSD não teve efeito. Ele permaneceu um mês estudando com esse guru, que lhe deu o nome de Ram Dass.

Neem Karoli BabaCristina – Como é o nome desse Baba?

RobertNeem Karoli Baba. Ele já está morto. Você pode ler o livro dele, ele não tem mente. O Guru disse: “Ram Dass, você agora volta para o Ocidente e ensina”. Então Ram Dass fez isso. Até esses dias Ram Dass (pelo menos é honesto), não está completamente no estado natural, mas esse primeiro movimento que ele fez foi um grande salto, do estado de ser normal para o natural. Então é possí­vel viver nessa zona, ou nesse estado natural, o tempo todo. Mas você tem que tomá-lo passo-a-passo. E coisas como surf, sexo, nos dão um gosto disso, e começam a nos trazer mais nessa direção.

A outra coisa que nos traz na mesma direção é o intenso sofrimento, e isso foi o que aconteceu com Eckhart Tolle, autor do livro O Poder do Agora. Ele teve 29 anos de depressão, e ficou numa situação tão ruim que este pensamento veio para ele: “eu não posso mais viver comigo mesmo”. E com esse pensamento ele estava pronto para cometer suicí­dio.

Então ele disse: “Eu olhei para esse pensamento. Um pensamento muito estranho, porque existe eu e comigo, essas duas coisas, e o próximo pensamento foi talvez uma dessas duas coisas não seja real“. Assim que esse pensamento ocorreu, ele sentiu que uma grande energia começou a percorrer seu corpo. Eckhart TolleEntão ele sentiu como um vórtice dando volta para baixo, como se ele estivesse caindo dentro de um buraco negro. E um grande medo veio e uma voz que disse para ele: “Deixe rolar”. Ele dormiu. Quando ele levantou, toda a depressão havia ido embora, e ele estava num estado de êxtase. E isso não mudou depois disso. Foi um despertar rápido e completo. Ele não sabia o que era e começou a ler alguns livros, pois não tinha nenhum professor ou ensinamento. Ele não sabia o que era aquilo, a não ser o professor mais poderoso: o sofrimento intenso. Apenas depois disso ele deu-se conta do que aconteceu: o sofrimento foi tão intenso que a atenção dele voltou-se para dentro dele. Assim, a identidade criada pela mente entrou em colapso e ele entrou diretamente no estado natural. Então começou a investigar sobre pessoas que despertaram e concluiu: “Ah, isso é o que aconteceu comigo”. Então ele escreveu um livro (O Poder do Agora) e começou a ensinar.

Mas, sobre as técnicas e métodos, não existe nenhuma técnica ou método que vai lhe levar completamente além da mente nesse estado natural e fazer com que você permaneça lá para sempre. As técnicas e métodos podem mostrar-nos um pouco o caminho, e depois disso depende de quão pronto você esteja, da sua habilidade de deixar rolar, o que depende do desenvolvimento da sua consciência. Então, a sua consciência torna-se mais poderosa que os seus pensamentos, e é isso o que fazemos nesses nossos encontros. Sempre que realizamos esses encontros, criamos um campo de Buddha no qual eu sou o catalizador para esse estado natural. Eu não estou completamente nele o tempo todo, mas, com todo o trabalho que eu tenho feito ao longo de todos esses anos, existe uma presença que vem através de mim. E quando você está pronto para isso, vai catalizar a presença em você.


Entrevista originalmente publicada em www.julianaluna.com, traduzida para o português por Juliana Luna e realizada em maio de 2007 na cidade de Florianópolis (SC).

Visite o site de Robert Broughton em www.robertbroughton.com





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