Yamas e Niyamas, a ética do Yoga

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Sri Krishna e os cinco irmãos Pandavas, personagens do épico indiano Mahabharata

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» síntese por Cristiano Bezerra

Quando o yogi se torna qualificado, através da prática da disciplina ética, por abster-se de ações ilícitas (yama) e da auto-superação (niyama), pode (então) começar a prática de asanas e das outras técnicas.
Yoga Bhasya Varana, II:29

Se você não tiver tempo ou disposição para agir conforme a ética do Yoga, tampouco terá tempo nem atitude para praticá-lo. Yama e niyama são os dois primeiros passos da caminhada, condição indispensável para que a prática dê resultados concretos.
Pedro Kupfer

Lakshman, Hanuman, Rama e Sita, personagens do épico indiano Ramayana

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O fundamento do Yoga, como de toda espiritualidade autêntica, é uma ética universal. Essa prática compreende 10 grandes obrigações morais que podem ser consideradas patrimônio de todas as grandes religiões. São elas os 5 yamas e os 5 niyamas.

Yama significa controle ou domínio. É o pontapé inicial no caminho do Yoga. Os yamas são cinco proscrições: ahimsa, satya, asteya, brahmacharya e aparigraha, aquilo que não devemos fazer, os refreamentos ou abstinências que pretendem purificar o yogi, aniquilar a subjetividade advinda do egocentrismo e prepará-lo para os estágios seguintes da prática. Desempenham o controle dos impulsos naturais, que se manifestam através dos cinco órgãos de ação (karmendriyas): braços, pernas, boca, e órgãos sexuais e excretores. Essas normas de disciplina moral têm a finalidade de por freio ao poderoso instinto de sobrevivência e canalizá-lo para servir a um propósito superior, regulando as interações sociais do yogi, harmonizando o relacionamento dele com os outros seres. Esse controle criativo que os yogis exercem sobre as suas energias exteriorizantes resulta num excedente energético que pode então ser posto a serviço da transformação espiritual da personalidade.

Ahimsa, a não-violência, entende-se como não matar, não agredir, não ferir, nem causar nenhum tipo de dor a nenhum ser vivo. É a raiz de todas as outras normas morais.

Satya, a veracidade ou o não mentir, consiste em fazer coincidir pensamentos, palavras e ações, o que deve entender-se como evitar a falsidade em todas as suas formas.

Asteya significa não roubar, não cobiçar ou invejar bens ou conquistas de outrem. Não é apenas não roubar, mas eliminar totalmente o impulso de apoderar-se de objetos (ou ideias) alheios.

Radha e Krishna

Radha e Krishna

Brahmacharya, o não desvirtuamento da sexualidade (não perverter, nem degradar, exacerbar, explorar ou se submeter ao sexo) pode interpretar-se como ser coerente em sua vida relacional e sexual. A palavra Brahmacharya é composta da raiz char, que significa mover-se, e da palavra Brahma, que significa verdade essencial. Assim, podemos entender brahmacharya como um movimento em direção ao essencial. É mais usado, geralmente, em termos de abstinência sexual. Mais especificamente, brahmacharya sugere que devemos formar relacionamentos que nos façam entender as verdades mais nobres.

Aparigraha, a não possessividade ou o não cobiçar, traduz-se em generosidade e desapego (vairagya) em relação não apenas aos bens materiais, mas também às relações afetivas. O apego (raga) nos tira da sintonia necessária para praticar. Assim, os yogis são encorajados a cultivar a simplicidade voluntária, pois o excesso de bens materiais só serve para distrair a mente, sendo a renúncia (vairagya) um aspecto essencial do estilo de vida yogiko.

Não pode ser eficaz e verdadeira a meditação de alguém que está em dí­vida com seus semelhantes, se há alguém a quem feriu, a quem enganou, a quem furtou, a quem explorou sexualmente, a quem deseja ou desejou arrebatar algo, pois as vítimas estarão vibrando contra o pretenso meditante. À mente deste acorrerão lembranças e remorsos, que a inquietarão e frustrarão a pretensão de meditar.

Shiva

Shiva

Niyama, as prescrições psicofísicas, compreendem cinco disciplinas ou observâncias, ou seja, aquilo que devemos fazer: sauchan, santosha, tapas, svadhyaya e Ishvarapranidhana. Essas atitudes cumprem a função de domínio sobre os cinco órgãos de percepção (jñanendriyas): olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. Esse controle dos sentidos aponta à organização da vida pessoal e interior do praticante, harmonizando o seu relacionamento com a vida em geral e com a Realidade transcendente.

Sauchan é a pureza ou purificação. A purificação externa inclui alimentação vegetariana, exercícios de purificação orgânica (como a lavagem das vias respiratórias e dos aparelhos digestivo e excretor) e manter limpo o ambiente em que se vive. Um organismo poluído por hábitos impróprios, como o uso de drogas (incluindo o cigarro e o álcool) ou alimentação intoxicante, gera comportamentos e condicionamentos contraproducentes para a prática do Yoga. A purificação interna inclui a eliminação das impurezas do pensamento. As técnicas mais refinadas de purificação são tattva suddhi e chitta suddhi (antar mouna).

Santosha, o contentamento, consiste em cultivar um estado interior de permanente alegria, independentemente das circunstâncias externas, o que facilitará muito o progresso na prática. O contentamento é uma expressão da renúncia (vairagya), o sacrifício voluntário das coisas que nos serão inevitavelmente arrebatadas no momento da morte. Liga-se de perto àquela atitude de indiferença que faz com que os yogis encarem com a mesma atitude um torrão de terra e uma pepita de ouro, o que permite que eles se deparem com o sucesso e o fracasso, o prazer e a dor, com a mesma equanimidade inabalável.

Sri Rama abraçando Hanuman, ambos personagens do épico indiano Ramayana

Sri Rama abraçando Hanuman, ambos personagens do épico indiano Ramayana

Tapas é disciplina, determinação, força de vontade concentrada, esforço sobre si próprio, a sobriedade e austeridade visando a queimar os desejos egocêntricos, inferiores, instintivos e naturais, eliminando moleza, debilidade, pieguice etc.

Svadhyaya é o estudo da metafísica do Yoga e de si próprio; abrange não apenas o autoconhecimento, através da reflexão sobre a sabedoria das escrituras (shastras), mas também a aplicação prática desse conhecimento.

Ishvarapranidhana é a devoção, consagração, auto-entrega e submissão a Ishvara (Senhor, Deus pessoal), entendido como o arquétipo do yogi, o modelo ideal a ser seguido pelo praticante. Também significa entregar incondicionalmente as ações e seus frutos a uma vontade superior à sua própria. Pode entender-se como auto-aceitação no momento presente ou, ainda, como serviço à Humanidade.

Poucas escolas de Yoga hoje em dia, principalmente aqui no Ocidente, se dedicam a ensinar os yamas e niyamas. Entretanto, uma pequena reflexão sobre eles revela a sua importância na manutenção da “ecologia” social e individual. Através da prática desses preceitos se estabelece uma convivência pacífica, harmoniosa e feliz na sociedade. É por essa razão que o sábio Patañjali os chama sarvabhauma, supremos ou universais, pois valem para todas as pessoas e em todas as circunstâncias.


Síntese por Cristiano Bezerra baseada em textos dos livros A Tradição do Yoga, de Georg Feuerstein, Convite à Não-violência, de José Hermógenes, e Yoga Prático, de Pedro Kupfer.

Cristiano Bezerra » foto por Sérgio Campos no Espaço Núcleo Sol

Cristiano Bezerra » foto por Sérgio Campos no Espaço Núcleo Sol

Cristiano Bezerra nasceu em Fortaleza (CE) em 1971, e dedica-se ao estudo, à prática e à divulgação do Yoga há mais de 20 anos (de 1989 a 1992 e de 1999 em diante), tomando seu primeiro contato com essa cultura em 1988, através da obra literária do Professor Hermógenes, e começando no ano seguinte a praticar em Fortaleza com a professora indiana Ved Kumari Arora. Em 1999, através da internet, tomou conhecimento do trabalho do Prof. Pedro Kupfer, com quem fez sua primeira Formação em Yoga, no Curso Livre de Formação em Yoga, realizado nos meses de julho de 2001 e julho de 2002, e com quem trabalhou, de 2001 a 2006, na edição do site www.yoga.pro.br – fonte de estudos de Yoga. De 2001 a 2011 promoveu a vinda a Fortaleza de diversos professores, como Tania Sturzenegger (SP/Suíça), Pedro Kupfer (SC), Camila Reitz (SC), Juan Anguiano (EUA), Maria Laura Packer (SC), Cathia Karin Heuser (RS), Sueli Jonishi Corradini (SP), Ravi Wadhwani (Índia/USA), José Henrique Siqueira (SP), Renato Turla (Itália), Gustavo Ponce (Chile), Krishna Das (EUA), Gloria Arieira (RJ), Silvana Duarte (SP), Katia Dacosta (RJ), Renata Sumar Gaertner (MG), Cláudio Fernandez (RJ), Goura Nataraj das (PR), Tales Nunes (SC) e Rodrigo Gomes Ferreira (SC), para a realização de dezenas de Cursos Intensivos, Workshops, Formações e Satsangs. Desde 2006 é Instrutor Registrado na Aliança do Yoga, e desde 2014 é membro do Corpo Docente do Curso de Formação e Aprofundamento em Yoga do Espaço Núcleo Sol.

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