Yoga é Amor » entrevista com Krishna Das

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Krishna Das
www.eyoga.com.br
» por Greice Costa

No Bhakti Yoga, o praticante encontra-se como parte do Ser Divino até finalmente ser Ele. Conheça um pouco mais do processo com Krishna Das, um dos nomes mais famosos nesse ramo.


A entrega do Bhakti (devoção) Yoga exige total confiança e abandono do eu. Quando se pretende algo em troca, não é devoção. Uma das ferramentas para passear por esse caminho é entoar mantras, invocando e louvando deidades hindus e seus respectivos poderes.

Mas o que você, praticante de Iyengar, Ashtanga Vinyasa ou outra forma de Hatha, que mora no paí­s do samba, com religião predominante cristã, tem a ver com tudo isso? Na verdade, o Bhakti tem de estar presente no Yoga de forma geral. Sem devoção e confiança desprovidas de expectativa de resultados, nunca se compreenderá o ensinamento total do Yoga.

Neem Karoli Baba
Neem Karoli Baba (Maharaj-ji)


O norte-americano Krishna Das é um dos principais condutores dessa viagem do Bhakti no Ocidente. Conheceu o seu guru Neem Karoli Baba na Índia e traçou um longo caminho até se firmar como um dos artistas que repassa a mensagem desse Amor incondicional, seja cantando e tocando em kirtans (leia o box no final), seja lançando CDs ou em conversas como a que você vai ler agora:

Krishna Das nos anos 60-70Greice Costa – Queria que você contasse como era a atmosfera quando você conheceu Ram Dass.
Krishna Das – Foi em 1968, nos Estados Unidos…

Greice Costa – E como era a sua vida nessa época?
Krishna Das – Muito ruim, eu era infeliz, muito sozinho, meu coração era todo fechado.

Greice Costa – Parece contraditório, porque você viveu numa época e num lugar muito especiais, os EUA nos anos 60…
Krishna Das – Era especial, mas se você olhar para trás, percebe que nem todo mundo estava realmente aberto, havia muitas drogas e pessoas ficando felizes apenas por isso, apenas porque podiam fazer o que quisessem.

Greice Costa – Você era parte disso?
Krishna Das – Um pouco, sim. Mas com o tempo você entende que não dá para fazer só o que quer, há responsabilidades, e a verdadeira liberdade tem de vir de dentro. Se você foge das coisas e não cuida das pessoas e não honra suas conexões com elas pessoas, você fica egoí­sta, com a mente limitada. Então havia isso nos hippies, sabe? Um sentimento maravilhoso, mas superficial. Eu não me sentia assim porque era depressivo, não me encaixava nesse contexto. Minha história era anterior a isso. Eu fui uma criança infeliz, sabe?

Greice Costa – E como começou a mudar?
Krishna Das e sua mãe com Maharaj-ji em 1972Krishna Das – Conheci Ram Dass. Ele tinha acabado de voltar da Índia e conhecido nosso guru. E desde aquele momento que soube sobre Karoli Neem Baba, e tudo o que fiz foi caminhar em direção a ele. Eu sabia no meu coração que o que quer que seja que eu estava procurando, era real… e existia neste mundo, e não era só um sonho, não estava só nos livros ou nas drogas, era real, uma pessoa podia achar isso. E mudou minha vida. Muito. Eu ainda estava depressivo (risos), Mas sabendo que havia algo a encontrar… e então fiquei mais depressivo ainda! Onde encontraria?

Greice Costa – E o q você fazia durante esse tempo com Ram Dass? Você começou a cantar mantras?
Krishna Das – Não, eu tinha bandas de rock, ia à escola. Em um verão ele convidou pessoas para ficar na casa do pai dele. Fui e passei o verão trabalhando lá. Depois nos encontramos em um retiro no México. Eu passei um ano e meio viajando com Ram Dass e ouvindo as histórias do guru. Então, no verão de 1967, eu fui para Índia atrás dele.

Greice Costa – Mas há sempre a possibilidade de se decepcionar com um guru, não? Como muitos que pregam coisas como viver o presente intensamente, mas nem mesmo olham nos olhos de quem ouve. Estou surpresa que, depois de anos “na estrada”, você ainda dá atenção e carinho a todos ao seu redor. O que o mantém fresco nesse sentido?
Krishna Das – É verdade. No meu caso, acho que vejo que não sou diferente de ninguém.

Greice Costa – Mas como se manter sempre disponí­vel para a atenção dos fãs?
Krishna Das – Bem, eu nem sempre sou tão aberto, quando preciso do meu espaço, posso arranjar. Mas no geral, quando é que se quer evitar amor? Isso é uma bênção. Não quero parecer humilde demais, só estou tentando dizer a verdade.

Neem Karoli Baba (Maharaj-ji)Greice Costa – E seu guru era assim?
Krishna Das – Ele tratava do presidente da Índia às faxineiras de banheiro da mesma maneira, sempre. Ele amava todo mundo completamente e da mesma maneira. Ele estava além de tudo neste mundo. Ele não queria dinheiro nem para construir belos templos. Tudo o que ele tinha era um cobertor e uma roupa. Quando precisava ir, não tinha nada o prendia, era só ir…

Greice Costa – E como aprender a ser assim?
Krishna Das – Você não aprende, você se torna isso, se você realmente quer. As pessoas me vêem, me abraçam e me beijam. Elas querem amor, não querem a mim. Elas querem o amor que vem do meu guru. Meu trabalho é só não atrapalhar o caminho (ficar fora do caminho) e deixar que sintam essa conexão. Se quero coisas para mim, ficar famoso, ficar com várias mulheres, e dinheiro, então estou no caminho entre vocês e ele. Quando comecei a cantar, era assim, e isso me machucou muito, porque no fundo eu via que estava estragando e arruinando tudo.

Greice Costa – Como foi?
Krishna Das – Ainda quando voltei da Índia, passei muitos anos triste, porque ele morreu logo depois que me mandou de volta pra casa. E eu me achei sozinho e destruí­do sem ele. Sou teimoso, não queria olhar dentro do meu coração para achá-lo. Por muitos anos vivi uma vida bem louca procurando por esse amor fora de mim, procurando me perder, criando muitos problemas pra mim mesmo e para as pessoas ao meu redor.

Greice Costa – Pode nos contar alguns desses problemas?
Krishna Das – A maioria era por causa da minha própria infelicidade, e eu deixava todos infelizes.

Krishna Das cantando em 1999Greice Costa – E como você superou isso?
Krishna Das – Só comecei a cantar para as pessoas em 1994.

Greice Costa – O que fez você sentir “Agora é a hora. A partir de hoje, canto pelo meu guru”?
Krishna Das – Eu sabia que queria isso, mas não me permitia. Um dia, no meu quarto e, de repente, soube que se eu não cantasse para as pessoas, nunca conseguiria limpar os cantos escuros do meu coração. Simples assim. De repente, eu sabia isso.

Greice Costa – E então?
Krishna Das – Então eu me esforcei para ir atrás, fui até o Jivamukti Studio, em New York, pedi a David e Sharon (os fundadores desse famoso centro de Yoga) para cantar lá e eles concordaram. Foi assim.

Krishna Das cantando em 1999Greice Costa – E as coisas aconteceram muito rápido depois disso, não?
Krishna Das – Não, nos primeiros dois anos foi tudo bem calmo, eu ficava em NY e não viajava muito. Mas aí­ gravei o primeiro CD, ele ficou conhecido e me convidaram para cantar em lugares diferentes. Em 1997, cantei na Califórnia e daí­ foi tudo rápido, comecei a cantar em várias partes do mundo.

Greice Costa – E agora que você alcançou esse ponto?
Krishna Das – Eu não tenho nenhum plano. Não sei mesmo. Talvez passe este inverno na Índia, mas não sei.

Greice Costa – Você ainda tem raí­zes na Índia?
Krishna Das – Ah, sim, muitos amigos, vou visitá-los. E também ficar sozinho, tranquilo.

Krishna Das em Fortaleza - 19 de agosto de 2006 - foto por Cacilda Patrí­cioGreice Costa – E o Brasil? Você parece se conectar com algumas raí­zes daqui também.
Krishna Das – Ah, é. Eu senti uma obrigação sentimental de voltar. Quando vim pela primeira vez, no ano passado, só pensava: “Nossa, são pessoas felizes mesmo, ninguém aqui precisa de mim, hahahaha!”. Estava tão surpreso e feliz, me senti fortemente conectado, entre corações abertos e disponí­veis para deixar rolar. E, acredite, eu não digo isso em todo lugar que vou!

Greice Costa – Você acha que essa é a principal mensagem que você transmite do seu guru — abra o seu coração e deixe acontecer?
Krishna Das – É a primeira parte disso. Quero que, ao abrir o coração, se perceba que há muita gente ao seu redor e você deve cuidar dessas pessoas também. Porque, quando você abre o seu coração, percebe que há muita gente sentindo dor perto de você.

Krishna Das em Fortaleza - 19 de agosto de 2006 - foto por Denise MustafaGreice Costa – Geralmente, as pessoas evitam isso porque pode ser pesado para elas.
Krishna Das – É, pode ser pesado demais, mas quando você realmente abre o coração, não é tão assustador; afinal, você não precisa fazer nada além de ser bom e gentil. Não é sua responsabilidade, mas dá para ser carinhoso e fazer as pessoas mais felizes. Se não ajudar, pelo menos fizemos o que deu pra fazer. É cuidar do seu próprio coração e depois reconhecer o próximo. Todo mundo quer a mesma coisa: amor, ser feliz.

Greice Costa – E depois de tantos anos convivendo com questões como amor, conexão, pessoas, lugares, você ainda acredita que ainda vamos ver um mundo melhor?
Krishna Das – Sabe de uma coisa? Não sei. Acredito que vamos sempre existir, mas não tenho idéia do que vai acontecer.

Greice Costa – Como podemos mudar, evoluir?
Krishna Das – O Amor já está aqui, não é uma questão de mudar ou de ensinar ou aprender. É uma questão de tirar a cobertura, e quando você faz isso, influencia todos ao seu redor.

Greice Costa – E onde entram os mantras?
Krishna Das – Eles ajudam a gente a ficar mais forte para lidar com nossa própria m…, para viver 100% da vida, dar o melhor em qualquer que seja a ação. As coisas podem mudam por dentro se fizermos assim. A maioria não faz. E também ajudam a não nos esconder de nós mesmos.

Greice Costa – Você acha que a prática de Hatha Yoga te ajudou em algum momento?
Maharai-ji e Krishna DasKrishna Das – Eu ainda faço asanas. Fiz muito tempo atrás e fiquei um perí­odo sem fazer, mas agora estou praticando. É bom para se sentar ereto!

Greice Costa – É verdade! Você fica imóvel por horas durante suas apresentações.A prática de asanas ajuda?
Krishna Das – Não, é o meu guru que me segura assim.

Greice Costa – Uma curiosidade: quando foi o dia em que você virou Krishna Das?
Krishna Das – Foi o meu guru que deu esse nome. O nome dele é Neem Karoli Baba. Ram Dass tinha comprado um ônibus na Índia. Baba me deu a chave e disse: “Você é o motorista”. Então onde quer que fôssemos, era assim que ele me chamava: “Ei, Driver (motorista)!” Todos recebiam nomes indianos e eu era… Driver? Então tá bom, né? Numa manhã, escrevi no meu diário que achava que seria o Driver para sempre. Krishna DasNaquele mesmo dia, no templo, ele me chamou e disse que meu nome era Krishna Das.

Greice Costa – Então ele podia ler pensamentos!
Krishna Das – Ah, ele sabia tudo. Tão poderoso… Mas era doce, amável.

Greice Costa – E qual a sua mensagem para nós?
Krishna Das – … Se eu posso, todo mundo pode.

Greice Costa – Mas você já tem o dom da voz!
Krishna Das – Mas é sobre ser feliz. Se eu consegui, ninguém deve desistir. Porque é tudo verdade. Tudo que você sonha é como deve ser mesmo. Basta não impedir que aconteça.


Vakratunda Mahakaya Suryakoti Samaprabha Nirvighnam Kurumedeva Sarvakaryeshu



Svami Sivananda
Segundo Svami Sivananda, a prática do Bhakti Yoga pode ser Apara Bhakti ou Para Bhakti. No Para Bhakti, a dimensão Divina é percebida em tudo e em todas as coisas, e não apenas na forma do objeto de devoção. No Apara Bhakti a devoção aparece em rituais de adoração a uma personificação do Divino. Algumas das práticas de Bhakti:

Sravana – escutar histórias envolvendo a forma que para você representa o Divino.

Kirtana – cantar a Presença Divina em forma de som, e que por isso mesmo atua limpando a mente e o coração.

Smarana – lembrança da presença Divina. Entoar os nomes de Deus com ou sem mala (colar utilizado para contar as repetições do mantra) é uma prática central no Bhakti Yoga, pois o Nome de Deus é o Divino em forma de som.


Vakratunda Mahakaya Suryakoti Samaprabha Nirvighnam Kurumedeva Sarvakaryeshu



www.eyoga.com.br

Entrevista originalmente publicada nas páginas 78 a 80 da edição nº 1, de dezembro de 2006 / janeiro de 2007 da revista Prana Yoga Journal.

Reconhecido mundialmente, não só nos meios alternativos mas também no vasto universo da chamada World Music, Krishna Das é uma grande referência no canto de músicas da tradição indiana, inspirando milhares de pessoas em seus Concertos e Satsangs. Visite seu website, seu Canal no YouTube e suas páginas no Facebook, no Twitter e no MySpace.





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