Yoga e Psicoterapia

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Cristiano em preparatório do janusirshasana na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

Cristiano em preparatório do janusirshasana na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

» por José Hermógenes (1921-)

Tratamento psicoterápico é o que procura sanear (tornar ) a mente, fundamentando-se na tese de que as condições de desequilíbrio, desarmonia, impureza e inquietude mentais são responsáveis pelos transtornos físicos. É tratamento comprovadamente eficaz. Sua eficácia demonstra a solidez da tese.

As escolas de psicologia do inconsciente, principalmente a Psicanálise e a Auto-análise, têm sido as que melhor atendem aos fins psicoterápicos. Têm sido as mais utilizadas pelos especialistas de todo o mundo.

Segundo elas, somos o que somos, fazemos o que fazemos, reagimos como reagimos, sofremos ou gozamos, temos nossas crises e nossos remansos e até mesmo pensamos e cremos, não de acordo com o nível conhecido da mente, mas sim movidos, manobrados e determinados pelas camadas mais profundas, das quais não temos conhecimento claro.
Sigmund Freud (1856 - 1939)

Sigmund Freud (1856 – 1939)

Sendo a mente comparada a um iceberg, a parte aflorada, isto é, a mente consciente, é mínima e relativamente incapaz, enquanto a parte submersa, o inconsciente, tem poder incomparavelmente maior. A psicoterapia pela Psicanálise e pela Auto-análise – tão eficientes -, em linhas gerais, consiste em tornar conhecidos (passar para o consciente ou fazer aflorar) os conteúdos e condições inconscientes e profundos. Tais conteúdos e condições resultam de esquecidas experiências traumatizantes (predominantemente da infância), que, por sua natureza maléfica e poderosa, se expressam através do anômalo comportamento dos nervos e das glândulas endócrinas. Dizem os psiquiatras que a doença é a “somatização” dos conflitos e traumas escondidos, isto é, sua expressão orgânica.

Feita uma faxina do inconsciente, isto é, expulsos de lá os conteúdos reconhecidos como deletérios, já tendo esses perdido o anterior poder perturbador, concretiza-se a cura ou libertação do neurótico. Esse processo de limpeza, vale dizer de desmascaramento do adversário escondido, de alívio de carga, de conscientização do ignoto, de extravasão, de elucidação e de catarse, muda a mente e, em conseqüência, rearmoniza, corrige e normaliza os mecanismos auto-reguladores do organismo, daí imediatamente redimirem-se os sintomas.
Arthur Schopenhauer (1788 - 1860)

Arthur Schopenhauer (1788 – 1860)

Assim, o neurótico se redime do inferno em que vivia. Diz-se, também, que se corrige a desconfortante “linguagem visceral”. Em outras palavras, desfaz-se a “somatização”.

Quem estuda o Yoga em seus veneráveis textos originais surpreende, em seu aspecto psicológico, atualidade, riqueza e sutileza tão profundas que, não fora a linguagem velada, exótica e simbólica, pareceria obra dos mais refinados e modernos entendidos nos aspectos inconscientes da alma humana. Não tenho receio de concordar com autoridades no assunto e também afirmar que o Yoga é o ancestral comum de todas as modernas escolas de psicologia profunda.

Segundo a psicanalista francesa Marise Choisy, o próprio Freud fundou a Psicanálise em princípios yogikos, que lhe teriam chegado através de Arthur Schopenhauer, o filósofo ocidental que mais se inspirou nos clássicos do Hinduísmo.

Carl Gustav Jung (1875-1961)

Carl Gustav Jung (1875-1961)

Não é diferente a opinião de Carl Gustav Jung, fundador de um dos mais importantes ramos da Psicanálise, que diz: “A própria Psicanálise, bem como as diretrizes de pensamento às quais deu origem e que são, na verdade, um desenvolvimento ocidental, são uma tentativa de principiantes, comparados com o que, no Oriente, constitui uma arte imortal”.

M. Bachelard considera o Yoga a “psicologia da verticalidade”.

Realmente. Se a Psicanálise, num mergulho, atinge o inconsciente e daí não passa, o Yoga, mediante uma experiência transcendente, chamada samadhi, fim e essência do processo yogiko, diviniza o homem no deslumbramento superconsciente.

O objetivo do processo psicanalítico é a cura de um enfermo. O do Yoga é a redenção humana ou libertação (moksha) da alma individual (jiva).

A Psicanálise tem por objeto de estudo a mente enferma. O Yoga estuda e considera o homem integral, isto é, o homem potencialidade do Divino, germe e promessa da Alma Universal, expressão do Absoluto em via de aperfeiçoamento e atualização.

Para o psicanalista ortodoxo, o inconsciente é um depósito de experiências dolorosas, um porão de escória reprimida pela convivência com a sociedade que não a aceita. O Yoga considera o inconsciente apenas uma zona da mente onde o consciente não chega, não sendo fatalmente de má qualidade, formado exclusivamente de negatividades recalcadas. O inconsciente tem, em si, também luzes, tendências, impressões, energias boas, potencialidade infinita e qualidades divinas.

Cristiano meditando em padmasana, a postura da flor de lótus, na sala de Yoga do Ar+Zen

Cristiano meditando em padmasana, a postura da flor de lótus, na sala de Yoga do Ar+Zen

Sendo uma psicologia do inconsciente, o Yoga explica a vida consciente, em parte, como conseqüência do inconsciente. Todas as nossas experiências, fatal e fielmente, são gravadas numa espécie de “fita de gravação”, através de ininterrupta introjeção. O que introjetamos ou gravamos nos plásticos abismos do inconsciente são: vasanas (tendências, inclinações, impulsos, motivações…) e samskaras (impressões, representações, imagens, juízos…). Lá do fundo, esse conteúdo comanda o nosso comportamento dito voluntário e consciente; comanda o que somos, queremos, sentimos, dizemos, fazemos e pensamos.

Conforme as introjeções que fazemos no curso da vida, tal será nosso destino. Quem introjeta espinho, conseqüentemente será espetado. Essas noções de vasanas e samskaras dão uma explicação psicanalítica à conhecida Lei do Karma.

Assim esclarecidos, deveríamos, por interesse profilático, selecionar as impressões e tendências que introjetamos, com o mesmo critério com que um dietista escolheria sua refeição num cardápio, visando a que, nos dias de porvir, possam elas (as escolhidas) operar em proveito da saúde e não contra ela; em direção à liberdade e não à servidão; em prol de nossa felicidade e não em seu prejuízo.

A indiscriminada, inconsciente e indisciplinada introjeção de vasanas e samskaras polui, adoece, corrompe, perturba, vicia e infelicita a mente. O yogin, sabendo disso, procura acautelar-se. Evita fisicamente as que pode e, mentalmente, aquelas que, fisicamente, lhe são impostas pelo ambiente.

Seu cuidado não é apenas na área da higiene mental, mas também na fase da cura.

Nesse particular, em que consiste a cura?

Patañjali » escultura por Natalia Rosenfeld, de Fairfax, California

Patañjali » escultura por Natalia Rosenfeld, de Fairfax, California

Em depurar, liberar, aclarar e aprimorar o mental. O Ashtanga Yoga ou Yoga dos oito componentes, codificado pelo sábio Patañjali, é uma forma técnica de sanear a mente, não a mente que costumamos chamar de doente, mas a mente que costumamos chamar de normal e que, em verdade, é “normalmente” incapaz para a felicidade e para o alcance da Verdade. Agitada como é, tecida de conflitivos desejos, encabrestada pelo egoísmo, sacudida de paixão, obcecada pelo irreal e condicionada a fatores múltiplos, o que chamamos de “mente normal” não deixa de ser, inclusive, um obstáculo para a percepção da Verdade. Essa só é possível quando a mente impura cessa de manifestar-se, isto é, quando emudecem seus vrttis (manifestações, fenômenos, movimentos, vacilações…). Levada a mente à plena quietude, ocorre a comunhão com o Infinito; dá-se o samadhi. Tal é o objetivo da ascese de Patañjali. Tal foi o caminho seguido e ensinado por S. João da Cruz.

As imperfeições mentais, que o método visa a remover, são:

a) mala (ou asuddha), isto é, impureza, luxúria, ódio, cobiça…;

b) vikshepa, ou seja, o estado de vacilação, agitação, insegurança, volubilidade…;

c) avarana, o véu de ignorância, que lhe dá miopia espiritual e limita o alcance e a percepção.

O yogin aprende com Patañjali como purificar, aquietar e iluminar sua mente.

Cristiano em vajrasana, a postura do diamente, na sala de Yoga do Ar+Zen

Cristiano em vajrasana, a postura do diamente, na sala de Yoga do Ar+Zen

Segundo essa escola de Yoga, a cura mental liberta o homem das condições normais e enfermiças de sua personalidade, que são:

1) avidya (ignorância);

2) asmita (egoísmo);

3) raga (concupiscência ou apego);

4) dvesha (aversão) e

5) abhinivesha (medo de morrer).

Tais defeitos de personalidade podem ser simultaneamente efeitos e causas das imperfeições do psiquismo.

Cristiano em purvottanasana, postura de alongamento anterior, na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

Cristiano em purvottanasana, postura de alongamento anterior, na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

A psicoterapia comum visa a restituir à mente enferma e sofredora as condições caracterizadas como normais. O Yoga ajuda a atingir tais resultados, mas vai mais além. Seu objetivo final é dar à mente: pureza (suddha), transcendência (buddhi) e redenção total (mukti).

Uma forma bem interessante de entender a ação yogaterápica no tratamento do nervoso já foi exposta nas páginas 79 a 82 do livro Yoga para Nervosos (35ª edição, 2001, Nova Era), quando expusemos a teoria dos gunas. Ali mostramos que a prática do Yoga, numa ação neuroanaléptica, levanta as forças do abatido ou astênico. Em termos de gunas, poderia ser dito que à mente tamásica a prática do Yoga acrescente rajas. Ao agitado indivíduo de mente rajásica, o Yoga sattiviza, isto é, dá-lhe o equilíbrio, a harmonia e a serenidade sattva.

Cristiano em matsyasana, a postura do peixe, na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

Cristiano em matsyasana, a postura do peixe, na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

Até aqui estávamos vendo o Yoga como uma forma de Psicanálise. No entanto, chegou o ponto em que vamos concluir que é exatamente a antítese da Psicanálise, isto é, uma psicossíntese.

Psicanálise, ao pé da letra, quer dizer análise, divisão, separação do todo em partes, da alma (psique). O Yoga, em sua conceituação essencial e ao mesmo tempo etimológica, é exatamente a antítese disso. Yoga vem da raiz sânscrita yuj, que quer dizer juntar, unir, reunir, unificar… Yoga une. Análise separa. Como doutrina e técnica psicológica, seria literalmente uma psicossíntese.

Cristiano em sirshasana, a postura sobre a cabeça, na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

Cristiano em sirshasana, a postura sobre a cabeça, na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

Unificar a alma despedaçada é Yoga. Dar unidade e coerência à mente onde reina conflito é Yoga. É Yoga harmonizar os antagonismos psíquicos. É Yoga dar coerência à vida mental. Se a mente está doente, é porque vive como “uma casa dividida contra si mesma”. Yogaterapia consiste em restaurar a paz interna. Se, em seu estado comum, a mente é fraca, é porque a dispersão a domina, dispersão que a esparrama estagnada como pântano ou a exaure em fluir multidirecional. O Yoga atua no sentido de dar-lhe a concentração necessária, conseqüentemente gerando poder, segurança, penetração, equanimidade, coerência, harmonia e bem-estar. Como psicossíntese, o Yoga reduz a fluidez e a dispersão.

Em resumo, o Yoga é uma psicoterapia porque socorre o neurótico e o livra dos sofrimentos desde que:

a) harmoniza conflitos;

b) limpa o inconsciente de vasanas e samskaras nocivos, substituindo-os, através de introjeções positivas, condizentes com a libertação e a realização espiritual;

c) unifica a vida mental, mediante harmonizar os vários níveis e as expressões da personalidade;

d) acrescenta sattva à mente rajásica, e rajas, à tamásica, isto é, dá sabedoria e tranquilidade ao excitado e ânimo ao astênico;

Cristiano em variação de parivrtta hasta padangusthasana, uma postura de equiíbrio com torção, na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

Cristiano em variação de parivrtta hasta padangusthasana, uma postura de equiíbrio com torção, na sala de Yoga do Ar+Zen » foto por Ana Lorena Magalhães

e) orienta a mente para os rumos do Divino;

f) reduz o egoísmo, a concupiscência, o apego e o medo;

g) liberta de velhos e dominantes condicionamentos.

O prof. Oskar R. Schlag foi um dos discípulos diretos de Freud, condiscípulo do grande Jung e amigo de E. Fromm. Com ele mantive amigável palestra, lastimavelmente curta demais. Ensina Yoga na Universidade de Zurich (Institut fuer Angewandte Psychologie). Para ele, o Yoga é muito mais do que a Psicanálise como caminho redentor. Em conferência, em 1952, opinava: Yoga é algo essencialmente prático para chegar-se a um fim (objetivo). Que fim é esse? A libertação. Libertação de que? A libertação de uma situação que Freud denominou “o encargo incômodo da nossa civilização“… Você mesmo é a fonte de todo o incômodo da nossa civilização. Dentro de você se encontra tudo aquilo contra o que você protesta e do qual deseja se libertar”.

Aos estudiosos de Yoga como psicoterapia, e em especial aos psicanalistas, indico principalmente dois livros: Western Psychoterapy and Hindu-sadhana, de Jacobs, Hans (George Allen & Unwin Ltd., Londres) e Yogas et Psychanalyse, da eminente psicanalista católica Marise Choisy (Collection Action et Pensée aux Éditions du Mont-Blanc; Genève, Suíça). Para esta, o Raja Yoga é o mais admirável tratado dos fatos interiores que o homem concebeu.
Capa da 48ª edição, de 2013, do livro Yoga para Nervosos

Capa da 48ª edição, de 2013, do livro Yoga para Nervosos


Texto (originalmente publicado na década de 1960) extraído das páginas 94 a 99 da 35ª edição, de 2001, do livro Yoga para Nervosos, e digitado por Cristiano Bezerra em 13 de junho de 2001.

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Comentários

Yoga e Psicoterapia — 2 Comentários

  1. Parabéns por mais esse magnífico texto! Vindo do Professor Hermógenes, então…
    Esse texto nos revelou, de maneira simples, o que os aprendizes e mesmo aqueles que já se encontram na estrada por algum tempo já o sabem. Talvez por isso é que os ensinamentos do Yoga não deverão jamais confinaren-se a um só aspecto, seja ele fisico ou psíquico, pois a sua prática nos leva a um profundo autoconhecimento em amplos aspectos, sejam eles externos ou internos, e, se fossemos estudar todos esses aspectos, como algumas Universidades propõem, teríamos que fazer todas as cadeiras disponíveis e ainda criar mais algumas outras, pois as pessoas que iniciam na estrada do Yoga sabem que a estrada é longa e eterna Yoga é medicina, direito, ciências psíquicas, biológicas, químicas, físicas, alquímicas, etc… Yoga é Unidade.

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