Yoga não é mágica

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Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga - Conceitos Fundamentais
» por Maria Alice Figueiredo

Certa vez tivemos em nossa escola de Yoga um aluno de meia-idade, hipertenso, que estava com gastrite, muitos quilos a mais e extremamente tenso. Seus músculos pareciam pedras, de tão duros. Numa das primeiras aulas, um dos seus colegas perguntou à professora por que ela não comia carne. Ela respondeu que deixara de comer carne por haver percebido que isso dificultava a prática da meditação. No momento em que meditar tornou-se importante, não houve mais lugar para a carne. Além disso, disse ela, sua saúde melhorara tão acentuadamente que ela não pretendia tornar a comer carne, suprimindo esse hábito da sua vida.

Apesar de ela não haver sugerido que todos devessem adotar a dieta vegetariana, esse aluno ficou realmente indignado com a resposta, e reclamou: “Não vim aqui para me tornar um guru. Não pretendo modificar meus hábitos de vida. Não deixarei de tomar o meu uísque, de fumar o meu cigarro nem de comer carne. Vim aqui exclusivamente para relaxar”.

A professora tranqüilizou-o. Naturalmente, ele só faria o que quisesse fazer. Como poderia ser diferente? Mas deixou de dizer-lhe o mais importante, porque ele não o entenderia, ainda:

“Existem apenas dois métodos para relaxar sem transformar seus hábitos de vida, suas reações emocionais, seu modo de pensar, sua arrogância e sua impaciência. Aqui não empregamos nenhum deles. E, se você procurou essa escola, é porque também não deseja empregá-los. Um é a sedação através de medicamentos, e o outro é através da hipnose.

“Sabemos que o método que utilizamos é eficaz unicamente quando empregado pelo próprio indivíduo, voluntária e participativamente. Sabemos que não podemos ajudá-lo à sua revelia, e jamais tentaríamos entrar em guerra com você. Não conhecemos o seu caminho, nem podemos avaliar a sua capacidade. Temos indicações gerais, comuns a todos, que delineiam uma rota a seguir. Porém, o seu caminho só pode ser trilhado por você.

“Isso nos torna humildes e obriga-nos a sermos pacientes. Caso pretendamos realizar algum trabalho útil, precisamos ser tolerantes e aceitá-lo exatamente como chegou aqui, e, aos poucos, levar sua compreensão até a realidade, se você o permitir. Não podemos entregar-lhe o Yoga como se fosse uma mercadoria. Você terá que praticá-lo por si mesmo. Caso pudéssemos fazê-lo por você, nós o faríamos, porque sabemos que você está sofrendo, que sua vida é, em grande parte, um tormento, e que você precisa realmente relaxar.

“Seu corpo está doente, e seus nervos agitados. Seu emocional está inquieto, agressivo e em guerra constante.

“Seu mental sofre de separatividade e tem necessidade de afirmar sua superioridade sobre os demais. Por isso, não tem um momento de descanso. Está exausto.

“Sua situação toca o nosso coração, porque também já experimentamos coisa semelhante, em nosso passado.

“Desejamos ajudá-lo!

“Mas, como fazê-lo, se somente podemos ajudá-lo através de você mesmo, e você acaba de declarar que não quer mudar a situação que é responsável, única e diretamente, pelo seu estado?”

Não é o uísque, ou o cigarro, ou a carne que, em si, devem ser responsabilizados. É o todo que precisa ser transformado. É o contexto global da vida da pessoa que gera as conseqüências que criam situações como a desse homem.

Não temos a doença. Nós somos o doente.

Para curarmo-nos, temos que mudar a nossa forma de viver para, só então, nos tornarmos pessoas saudáveis. E isso é uma responsabilidade intransferível de cada um de nós.

O Yoga é um trabalho que atinge o próprio ser. Não é uma aspirina que tomamos para escapar de um sintoma desagradável. O Yoga não atua por fora, mas por dentro. E a origem dessa atuação vem do supramental, muito mais interior do que podemos supor com a mente totalmente exteriorizada que usamos quotidianamente, confundido-a com o nosso próprio ser. O caminho que ensinamos e a rota que seguimos não foi escolhida por nós de acordo com preferências pessoais.

A natureza tem suas leis. Leis para o corpo, para o psíquico e do espírito. E todo o segredo consiste em adequarmo-nos a elas. Jesus diz que devemos fazer a vontade do Pai e não a nossa. Mas temos feito o contrário, e empregado o poderio da inteligência para contrariar a natureza, como se fosse possível gratificar as predileções de nosso ego contra ela, impunemente. A saúde existe em seus próprios termos, bem como o equilíbrio emocional e a paz mental.

O Yoga não pode ser dado de presente nem outorgado mediante pagamento. Depende de um compromisso de transformação pessoal que o indivíduo faz consigo mesmo. E isso não pode ser providenciado por terceiros. Além disso, não basta decidir mudar. Temos também que descobrir o que deve ser mudado, por quê e como mudar.

O Yoga ajuda a clarear a percepção que temos de nosso corpo e de nosso psiquismo, e cria condições que facilitam as mudanças que nos levam ao encontro de nós mesmos. A prática do Yoga envolve a utilização de técnicas precisas, com objetivos específicos.

Yoga não é mágica. É a ciência do ser e a arte do existir.

Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga - Conceitos Fundamentais


Texto extraí­do das páginas 36 a 38 do capítulo 1 do livro Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga – Conceitos Fundamentais (Copyright © 1997 Maria Alice Figueiredo – todos os direitos reservados) e digitado por Cristiano Bezerra em 18 de janeiro de 2003.

Maria Alice FigueiredoMaria Alice Figueiredo é natural de São Paulo. Graduou-se em Administração pela UFBA em 1969 e trabalhou em Planejamento e Administração Municipal. Ao ter os seus filhos gêmeos, em 1973, sofreu uma eclampsia com azotenia renal e acidose metabólica que a levou a passar três dias em coma, no limiar da morte. Ao retornar à consciência, viu-se portadora de diabetes e de insuficiência renal, além de severa depressão. Passou então a praticar Yoga durante 3 horas por dia, todos os dias. Saudável desde meados dos anos 70, deixou sua antiga profissão passando por um estágio didático na conceituada Academia Hermógenes de Yoga, no Rio de Janeiro, em 1977, fundando o Yoga Vidya, em Salvador, BA, em 1978. Juntamente com a psicóloga argentina Marta Molinero, criou o Método de Auto-Integração do Ser, que trabalha com o corpo, o psiquismo e a compreensão filosófica dos valores abstratos, tendo como base o Yoga e outros métodos terapêuticos ocidentais de vanguarda. Essa orientação de unir o que de melhor têm o Oriente e o Ocidente partiu de seu mestre na época, o Svami Rama, um grande mestre de Yoga, intelectual e autor de vários livros, que considerava sua missão criar uma ponte entre o Yoga e a ciência ocidental. Fundador do Himalayan Institute of Yoga Science and Philosophy, na Pennsylvania, e de um hospital na região dos Himalaias, o Svami Rama faleceu em novembro de 1996.

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