Yoga não é relaxamento por sugestão

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» por Maria Alice Figueiredo

Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga - Conceitos FundamentaisMuitas pessoas buscam o Yoga pela necessidade de relaxar, porque estão tensas e nervosas e isso já começa a afetar-lhes a saúde. No entanto, o Yoga não é relaxamento por sugestão, embora exista uma técnica, chamada yoganidra, que emprega o relaxamento consciente e a auto-sugestão.

Tensão é uma contração involuntária, inconsciente e contínua da musculatura; é a contrapartida física da repressão psíquica. Ao afastarmos algo da consciência, mantendo-o no subconsciente, bloqueamos a passagem da energia sutil, contraindo nossos músculos, sem percebê-lo. Relaxar essas tensões profundas significa liberar, simultaneamente, a passagem da energia psíquica, permitindo que o consciente inteire-se do que havia sido escondido. Isso significa desvelar e encarar algo que havíamos considerado, anteriormente, estar além de nossas forças suportar.

Mas aquilo que estava além da capacidade de uma criança não constitui dificuldade para um adulto. No entanto, como foi colocado no arquivo morto com o rótulo de “Perigo”, nunca mais examinamos o conteúdo dessa pasta que ficou selada, por assim dizer, pelos nossos músculos empedrados. Na medida em que conseguirmos relaxar essas tensões musculares inconscientes iremos, também aos poucos, examinando essas pastas sepultadas no subconsciente, descobrindo que seu conteúdo não é tão terrível assim, e que a própria vida já nos trouxe condições para compreender e solucionar problemas antes amedrontadores que nos pareciam insolúveis.

Os problemas que continuam desafiando a nossa capacidade no momento presente, aqueles que continuamos incapazes de enfrentar, na atualidade, permanecerão ainda escondidos. Da mesma forma, permaneceremos incapazes de relaxar as tensões a eles relacionadas.

O verdadeiro relaxamento é um encontro verdadeiro com nossa realidade interior; é o fruto da solução de nossos conflitos íntimos. O Yoga emprega duas imagens para representar esse tipo de situação. A primeira é: entramos em um quarto e, na penumbra, vemos uma enorme cobra enrolada, pronta para o bote fatal. Instantaneamente nosso cabelo arrepia-se, nosso coração dispara, as pupilas dilatam-se, a respiração torna-se arquejante e a mente é tomada pela idéia da morte iminente do corpo, que se paralisa de terror. Mas, à medida em que os olhos acostumam-se à semi-escuridão, vemos que a imensa cobra é apenas um inofensivo rolo de corda.

A outra imagem, que tem o mesmo significado, é a de um tigre vividamente pintado em papel, que pensamos tratar-se de um tigre de verdade.

Com esses dois exemplos, o Yoga nos diz que o problema não está na realidade mesma, mas em nossa avaliação equivocada da realidade, em nossa reação inadequada aos fatos da vida por uma interpretação errônea do que eles realmente são.

Situações assim podem implicar em sofrimento, mas não constituirão problema existencial nem precisarão ficar ocultas em nosso subconsciente, desde que saibamos encará-las a partir de uma nova perspectiva. Esse novo ponto de vista origina-se em uma mudança de avaliação: uma mudança de natureza filosófica. Por isso, a prática do Yoga não poderá esgotar-se em um trabalho exclusivamente corporal. A verdadeira prática do Yoga será sempre, necessariamente, um trabalho realizado em vários níveis.

Existem apenas duas maneiras de relaxar – parcialmente, e de modo não duradouro – sem passar pelo processo de reaver a plenitude da consciência. São elas: o uso de medicamentos relaxantes ou drogas psicotrópicas e o emprego da sugestão num processo hipnótico ou semi-hipnótico, onde nossa mente cede à influência e ao domínio da mente de outra pessoa. Ou seja, o relaxamento é obtido momentaneamente às custas de um maior alheamento de si mesmo, de um adormecimento químico ou embalado pela voz do professor, pela música e pelo ambiente propícios ao sugestionamento.

Trata-se de um alívio temporário, às vezes até necessário, mas que agrega um novo problema ao anterior. Todo relaxamento e todo emprego dos processos sugestivos que não forem autônomos geram dependência e aumentam a dificuldade em resolver efetivamente o problema, porque o torna ainda mais nebuloso e mais distante dos processos mentais conscientes. Na parábola do quarto com a cobra imaginária, seria o mesmo que apagar a luz de uma vez, de modo a deixarmos de enxergar o que nos amedronta. Equivaleria a fazer-nos pensar em outra coisa, para não nos lembrarmos da cobra que está ali está. Medidas assim são formas de escapismo. Não equacionam, não solucionam, mas apenas confundem ainda mais.

Yoga é uma terapia integral do ser humano que promove a harmonização entre os diferentes níveis da consciência. Mas não substitui a terapia psicológica, quando ela é necessária, do mesmo modo que não substitui o tratamento médico, nos casos de doença. A prática do Yoga conduz a um despertar progressivo da atenção e da concentração da mente voltada para si mesma, onde as contradições interiores vão sendo percebidas e resolvidas.

O Yoga não é uma técnica que nos ensina a evitar os nossos conflitos íntimos, ou a adormecer mais facilmente, fugindo de nós mesmos de modo mais “eficiente”. O relaxamento yogi é fruto de um treinamento da atenção interior, da construção de uma nova perspectiva, através da qual contemplamos a vida por uma outra ótica, a da consciência supramental e espiritual. O estado de ausência de tensões é gerado por uma consciência lúcida, alerta e tranqüila, que é desenvolvida paralelamente a uma profunda transformação promovida por nós mesmos em nossa maneira de ser, de dentro para fora, à medida que entramos em contato com nossa própria verdade interior.

Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga - Conceitos Fundamentais


Texto extraí­do das páginas 32 a 34 do capítulo 1 do livro Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga – Conceitos Fundamentais (Copyright © 1997 Maria Alice Figueiredo – todos os direitos reservados) e digitado por Cristiano Bezerra em 18 de janeiro de 2003.

Maria Alice FigueiredoMaria Alice Figueiredo é natural de São Paulo. Graduou-se em Administração pela UFBA em 1969 e trabalhou em Planejamento e Administração Municipal. Ao ter os seus filhos gêmeos, em 1973, sofreu uma eclampsia com azotenia renal e acidose metabólica que a levou a passar três dias em coma, no limiar da morte. Ao retornar à consciência, viu-se portadora de diabetes e de insuficiência renal, além de severa depressão. Passou então a praticar Yoga durante 3 horas por dia, todos os dias. Saudável desde meados dos anos 70, deixou sua antiga profissão passando por um estágio didático na conceituada Academia Hermógenes de Yoga, no Rio de Janeiro, em 1977, fundando o Yoga Vidya, em Salvador, BA, em 1978. Juntamente com a psicóloga argentina Marta Molinero, criou o Método de Auto-Integração do Ser, que trabalha com o corpo, o psiquismo e a compreensão filosófica dos valores abstratos, tendo como base o Yoga e outros métodos terapêuticos ocidentais de vanguarda. Essa orientação de unir o que de melhor têm o Oriente e o Ocidente partiu de seu mestre na época, o Svami Rama, um grande mestre de Yoga, intelectual e autor de vários livros, que considerava sua missão criar uma ponte entre o Yoga e a ciência ocidental. Fundador do Himalayan Institute of Yoga Science and Philosophy, na Pennsylvania, e de um hospital na região dos Himalaias, o Svami Rama faleceu em novembro de 1996.

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