Yoga não é religião

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Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga - Conceitos Fundamentais» por Maria Alice Figueiredo

A palavra religião vem do latim religare, ou reunir, que tem o mesmo significado da palavra Yoga. No entanto, o Yoga não é um sistema de crenças, e sim um trabalho objetivo, sistemático, de caráter científico/experimental, que, por ativar a consciência nos níveis superiores de nosso ser, capacita-nos a vivenciar estados espirituais de modo direto e autêntico, independente de qualquer sistema interpretativo particular, como o Zen Buddhismo, mais do que todos os demais caminhos de auto-realização, tem o cuidado de enfatizar.

Por isso, o Yoga não é proselitista, nem dogmático ou sectário. O Yoga terá discípulos, mas não seguidores, porque nele tudo é uma questão de experiência pessoal direta, onde a crença é dispensável. Confundir o Yoga com religião, e com o hinduísmo em particular, é desconhecer sua verdadeira natureza.

Como existem pessoas cujo temperamento é naturalmente devocional, há um ramo de Yoga chamado Bhakti Yoga, que mostra como transformar a devoção em um trabalho sistemático de Yoga. Isso pode ser feito por devotos de qualquer religião, e o Yoga não determina que o bhakta seja hinduísta, nem sugere a escolha de qualquer forma particular de devoção. É claro que bhaktas indianos serão, provavelmente, hinduístas, e bhaktas tibetanos, chineses ou japoneses serão provavelmente budistas, mas um bhakta ocidental será, provavelmente, um cristão e um bhakta do mundo árabe certamente será um muçulmano.

O Yoga afirma que a mais alta vivência espiritual que o homem pode ter, a partir de qualquer religião ou filosofia, é a consciência da unidade do todo, que é experimentada como sat-chit-ananda1, e que tudo o mais, teologias, crenças, dogmas e mandamentos não passam de tentativas de explicar o inexplicável, usando instrumentos tão inadequados quanto são as palavras.

Afirma o Yoga que todas as divergências religiosas acontecem porque uma mesma verdade abstrata tem tomado formas concretas diferentes, dependendo da época e da cultura em que foram expressas. Enquanto nos deixarmos hipnotizar por essas formas, as religiões permanecerão como um fator de fanatismo e separatividade, quando seu objetivo maior deveria ser, e (pelo menos em seus livros sagrados) declaradamente é, a união de todos os homens pelo amor espiritual. Enquanto pensarmos que vida espiritual é manter uma crença, em lugar de experimentar e vivenciar estados supramentais, não haverá como dois praticantes de diferentes religiões entenderem que o Deus de uma é o mesmo Deus da outra.

Personalizar a Divindade é um grande perigo para os devotos, porque isso os leva a atribuir a Deus uma intolerância que é apenas deles, não Dele. O Ser Supremo é tão mais do que qualquer livro sagrado pode transmitir, tão mais do que nossos conceitos podem abarcar, que o Yoga afirma ser desnecessária uma crença prévia em sua existência, porque esta seria, certamente, limitada e imperfeita.

Uma pessoa pode descrer na existência do oceano, mas mesmo assim o encontrará, se navegar por um rio até a sua foz. Não importa qual o idioma usado para denominá-lo. Não importa se chamam-no Atlântico, Pacífico, Índico ou Mediterrâneo. Ele é um só, e sua água é salgada. Mergulhemos nele e nenhuma discussão fará mais o menor sentido.

Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga - Conceitos Fundamentais


Texto extraí­do das páginas 34 a 36 do capítulo 1 do livro Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga – Conceitos Fundamentais (Copyright © 1997 Maria Alice Figueiredo – todos os direitos reservados) e digitado por Cristiano Bezerra em 18 de janeiro de 2003.

Maria Alice FigueiredoMaria Alice Figueiredo é natural de São Paulo. Graduou-se em Administração pela UFBA em 1969 e trabalhou em Planejamento e Administração Municipal. Ao ter os seus filhos gêmeos, em 1973, sofreu uma eclampsia com azotenia renal e acidose metabólica que a levou a passar três dias em coma, no limiar da morte. Ao retornar à consciência, viu-se portadora de diabetes e de insuficiência renal, além de severa depressão. Passou então a praticar Yoga durante 3 horas por dia, todos os dias. Saudável desde meados dos anos 70, deixou sua antiga profissão passando por um estágio didático na conceituada Academia Hermógenes de Yoga, no Rio de Janeiro, em 1977, fundando o Yoga Vidya, em Salvador, BA, em 1978. Juntamente com a psicóloga argentina Marta Molinero, criou o Método de Auto-Integração do Ser, que trabalha com o corpo, o psiquismo e a compreensão filosófica dos valores abstratos, tendo como base o Yoga e outros métodos terapêuticos ocidentais de vanguarda. Essa orientação de unir o que de melhor têm o Oriente e o Ocidente partiu de seu mestre na época, o Svami Rama, um grande mestre de Yoga, intelectual e autor de vários livros, que considerava sua missão criar uma ponte entre o Yoga e a ciência ocidental. Fundador do Himalayan Institute of Yoga Science and Philosophy, na Pennsylvania, e de um hospital na região dos Himalaias, o Svami Rama faleceu em novembro de 1996.

  1. Sat: puro ser ou vida eterna, como a chamou Jesus. Chit: pura consciência, ou a verdade que liberta, como Jesus a designou. Ananda: pura bem-aventurança, a sublime união dos sentimentos de amor universal e paz celestial. []
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