Yoga não é uma ginástica

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Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga - Conceitos Fundamentais» por Maria Alice Figueiredo

Pelo fato de existirem muitas academias de Hatha Yoga – a linha do Yoga que lida com o corpo físico -, pensa-se que o Yoga seja uma modalidade esportiva com sabor oriental. Isso é uma grande distorção, favorecida pelo fato de a maioria das academias – que deveriam chamar-se escolas – praticarem apenas asanas (posturas), em vez do Hatha Yoga completo, que compreende também kriyas, bandhas e asanas, de que falaremos a seguir.

O Hatha Yoga trata, basicamente, da circulação da energia vital (prana) em nosso corpo. Sua finalidade é limpar e desimpedir os “canais” sutis de circulação dessa energia (nádís), de modo a facilitar a comunicação entre a mente e o corpo, tornando-o um veículo adequado às energias mentais mais delicadas, abstratas e espirituais. Paralelamente, o Hatha Yoga procura favorecer o bom funcionamento orgânico, para que o corpo goze de um bom estado de saúde e conserve a vitalidade por mais tempo. É por isso que, na Índia, a parte do Hatha Yoga considerada mais importante não são os ásanas, mas os kriyás, que são técnicas de purificação e limpeza dos órgãos internos, principalmente daqueles que compõem o sistema de eliminação de toxinas, impurezas e resíduos de nosso corpo. A prática dos kriyás, pelo Hatha Yoga, não deve ser confundida com o Kriyá Yoga, que trata da purificação da mente.

A partir de uma determinada idade, passamos a acumular mais impurezas do que conseguimos eliminar. Elas deixam o corpo intoxicado e a mente entorpecida para a percepção dos estados sutis, dificultando a prática da meditação. Essa também é uma das causas do desgaste orgânico, envelhecimento e morte.

O estado de pureza do corpo depende do que ingerimos: ar, água, alimentos, bebidas, remédios e substâncias químicas não naturais, e da maneira pela qual processamos e eliminamos os resíduos: através da respiração, pela pele, fígado, rins e intestinos. Daí a importância dos hábitos alimentares e respiratórios e dos métodos curativos que empregamos, bem como da prática dos kriyas, técnicas de limpeza das vias respiratórias, do estômago, dos intestinos, etc. A prática de ásanas sem a mudança dos hábitos alimentares e sem a prática simultânea de kriyás não pode ser considerada uma prática completa de Hatha Yoga, embora, mesmo assim, traga benefícios.

Ásanas são posições estáticas que atuam sobre a circulação da energia vital, estimulando áreas específicas do corpo, principalmente órgãos e glândulas. Seu objetivo é o bom funcionamento orgânico dos sistemas respiratório, digestivo, circulatório, nervoso, reprodutor e eliminador de resíduos. Promove a flexibilidade das articulações e o alongamento muscular, proporcionando uma boa postura da coluna vertebral, importante para a livre circulação do prána, a energia sutil.

As nádís, que são os canais por onde circula o prána, têm uma afinidade com as células nervosas que, de todas as células do corpo, são aquelas naturalmente equipadas para captá-lo e servir-lhe de suporte físico. Daí a importância da coluna e da medula espinhal, suporte das nádís principais: idá, o circuito negativo, receptivo, pingalá, o circuito ativante, positivo, e sushumná, a nádí central, que representa o equilíbrio entre os opostos e o psico-físico, a perfeita integração da consciência e da fisiologia. A prática dos ásanas mobiliza os músculos, mas seu objetivo não é o desempenho muscular.

Bandhas são compressões profundas que atuam como massagem interna em órgãos e glândulas, mas cujo verdadeiro papel é o de bloquear a passagem da energia, de modo que esta se acumule em determinados centros, com o objetivo de estimulá-los, ou fazer com que a energia se redirecione, passando por circuitos diferentes dos habituais.

O Yoga, com certeza, não é uma espécie de ginástica. É um sistema concebido para desenvolver a consciência do homem em todos os seus níveis.

Esses níveis, em número de sete, são os seguintes:

1) físico, ou corporal;

2) instintivo, vital, energético;

3) emocional;

4) mental subconsciente: chitta;

5) mental cotidiano: manas, ahamkára;

6) mental superior intuitivo/discriminativo: buddhi;

7) espiritual: átman.

Chitta é a memória. Constitui o arquivo de nossas memórias e impressões passadas, inclusive de vidas anteriores. Em sua grande maioria, essas impressões permanecem subconscientes, mas nem por isso deixam de influenciar o funcionamento de manas.

Manas é a unidade que processa informações sensoriais, as quais muitas vezes evocam antigas impressões do passado. É a parte da mente que recolhe as impressões sensoriais e organiza as respostas motoras convenientes. Seu funcionamento pode ser consciente, mas atua grande parte do tempo de forma quase automática.

Ahamkára é a consciência do ego. Quando as percepções de manas são apresentadas ao ahamkára é essa função da mente que reconhece que “isso está ocorrendo comigo; sou eu que vejo; sou eu o agente da ação ou aquele que sofre os efeitos da ação”. Ahamkára confere um sentido de singularidade aos fatos em função da identidade pessoal. Também é a origem da separatividade.

Buddhi é a função que avalia e decide o curso da ação. No caso dos animais, essa decisão é automatizada e deflagrada pelos impulsos instintivos e emocionais ligados à circunstância identificada pelas impressões sensoriais. Mas, no caso da mente humana, essa decisão envolve o livre arbítrio. A atuação de buddhi envolve a discriminação sobre os valores abstratos envolvidos nos acontecimentos. Envolve uma delicada interligação do uso dos poderes superiores da mente: a razão e a intuição espiritual. Envolve a compreensão do que é certo e errado, do que é bem e do que é mal.

Buddhi, como vimos, é a capacidade discriminativa, habilitada a realizar julgamentos de valor e destinada a tornar-se o veículo de uma sabedoria superior. É através da utilização de buddhi que desenvolvemos viveka, o discernimento. No entanto, essa sabedoria superior que é viveka, essa jóia sublime da consciência, existe apenas como uma potencialidade a ser desenvolvida na maioria das pessoas.

Átman é o núcleo espiritual do ser, cuja característica é a consciência de Si Mesmo e da Unidade do Todo. Em átman não há separatividade. Os hinduístas cumprimentam-se dizendo “namastê”, que significa “Deus em mim saúda Deus em ti”. Jesus declarou explicitamente a união dEle com o Pai quando disse: “Eu e o Pai somos um” (Mt, 10:30), e a possibilidade da nossa união com Ele quando declarou: “Quem está em Mim, e Eu nele, esse dá muito fruto” (Jo, 15:57) e “Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim quem de Mim se alimenta, também viverá por mim” (Jo, 6:57).

Quando não temos uma visão intuitiva da experiência de união ao nível espiritual, essas afirmações soam absurdas, e os judeus enfureceram-se como nunca quando Jesus as fez. Hoje não temos dificuldade em aceitar a união entre Jesus e o Pai, mas como é difícil acreditar que também nós tenhamos sido convidados a partilhar dessa unidade que, embora impossível ao nível da personalidade, representa a meta suprema da vida espiritual.

O corpo físico alimenta-se de matéria orgânica, a alma alimenta-se de energia sutil modelada sob a forma de emoções, sentimentos e pensamentos, e o espírito alimenta-se da presença divina vivenciada no único lugar onde isso é possível: nele mesmo.

Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga - Conceitos Fundamentais


Texto extraí­do das páginas 28 a 32 do capítulo 1 do livro Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga – Conceitos Fundamentais (Copyright © 1997 Maria Alice Figueiredo – todos os direitos reservados) e digitado por Cristiano Bezerra em 18 de janeiro de 2003.

Maria Alice FigueiredoMaria Alice Figueiredo é natural de São Paulo. Graduou-se em Administração pela UFBA em 1969 e trabalhou em Planejamento e Administração Municipal. Ao ter os seus filhos gêmeos, em 1973, sofreu uma eclampsia com azotenia renal e acidose metabólica que a levou a passar três dias em coma, no limiar da morte. Ao retornar à consciência, viu-se portadora de diabetes e de insuficiência renal, além de severa depressão. Passou então a praticar Yoga durante 3 horas por dia, todos os dias. Saudável desde meados dos anos 70, deixou sua antiga profissão passando por um estágio didático na conceituada Academia Hermógenes de Yoga, no Rio de Janeiro, em 1977, fundando o Yoga Vidya, em Salvador, BA, em 1978. Juntamente com a psicóloga argentina Marta Molinero, criou o Método de Auto-Integração do Ser, que trabalha com o corpo, o psiquismo e a compreensão filosófica dos valores abstratos, tendo como base o Yoga e outros métodos terapêuticos ocidentais de vanguarda. Essa orientação de unir o que de melhor têm o Oriente e o Ocidente partiu de seu mestre na época, o Svami Rama, um grande mestre de Yoga, intelectual e autor de vários livros, que considerava sua missão criar uma ponte entre o Yoga e a ciência ocidental. Fundador do Himalayan Institute of Yoga Science and Philosophy, na Pennsylvania, e de um hospital na região dos Himalaias, o Svami Rama faleceu em novembro de 1996.

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