A história da civilização da Índia

Compartilhe esse conteúdo com alguém...
0 Flares 0 Flares ×

Porto Lothal
» por Gloria Arieira

Ao entrar em contato com o vasto conhecimento dos Vedas, nos deparamos constantemente com a tentativa de marcar datas para a história da cultura e da população indiana, entender sua origem genética e determinar a antiguidade e, portanto, a originalidade do conteúdo dos Vedas.

Max Müller, na primeira metade do século XIX, e outros estudiosos europeus difundiram a teoria da invasão ariana, povo originado da Europa e/ou Ásia Central que teria entrado na Índia pelo noroeste do país. Essa teoria, que rouba o valor, a originalidade e a antiguidade dos Vedas, viria a ser aceita como verdadeira, mesmo por estudiosos indianos, até recentemente, muito após a independência da Índia em 1947.

Ela afirma que, 1.500 anos antes da era cristã, pastores nômades semi-bárbaros, vindos da Ásia Central ou norte da Europa, cuja língua é indo-européia, chamados arianos, vieram para o continente indiano. Ao chegar ao vale do rio Indus, encontraram uma civilização muito antiga, cujos habitantes eram os dravidianos. Os arianos invasores atacaram e destruíram essa civilização. Esse povo fugiu para o sul da Índia. Foram esses arianos que compuseram os Vedas em sânscrito e desenvolveram a grande civilização ao redor do rio Ganges.

Essa teoria foi se estabelecendo como verdadeira pela urgente necessidade dos britânicos de eliminar o valor pela cultura do país que queriam dominar e extrair todas as riquezas materiais que lá haviam. Tiveram que diminuir e até eliminar o valor da civilização védica, e assim fizeram através de uma bem programada e sistemática campanha que menosprezou a cultura, a civilização e a sociedade védicas, incluindo suas origens, como podemos ver em filmes, livros e relatos históricos.

Apesar de muitos relatos de admiração e profunda apreciação, de gregos antigos a modernos europeus, pela Índia, por seu povo e civilização, durante a colonização britânica muito se falou sobre o “primitivismo do hinduísmo” em contraste com “a verdadeira religião cristã”.

Infelizmente, ao mesmo tempo, estudiosos autodidatas europeus adquiriram o conhecimento do sânscrito, e, não entendendo o que liam, contribuíram para denegrir a imagem da Índia e de sua rica e profunda cultura e conhecimento.

Max Müller, que nunca foi à Índia, escreve que a literatura antiga indiana não tem mais valor do que fábulas e canções e tradições de nações selvagens. Depois de tentar entender os Vedas em vão, declara: “o que pode ser mais tedioso do que o Veda? Seus hinos não fazem qualquer sentido!”. Seus estudos e traduções dos Vedas não têm valor de autenticidade, porém até hoje são autoridades para o mundo ocidental!

Foram os europeus que criaram divisões na sociedade da Índia e incentivaram o conflito entre castas. Sabiam que dividindo o povo seria mais fácil governar e mesmo converter. Tal incentivo criou uma divisão entre o Sul, a dita raça dravidiana, e o Norte, dito ariano, o que criou muitos conflitos, inclusive preconceito contra o próprio Veda, que seria ariano. Com essa confusão foi mais fácil converter o povo ao Cristianismo.

Não se pode deixar de citar o inglês Thomas B. Macauly, que afirmou que o Hinduísmo derivou-se de “uma literatura reconhecida como de pouco valor intrínseco… com erros sérios em todos os assuntos importantes… desprovido de razão, de moral… de superstições monstruosas”.

Porto LothalSe analisarmos arqueologicamente, temos como plataforma a civilização de Mohenjo-daro e Harappa no vale do rio Indus. Arqueólogos, como o francês Jean-François Jarrige, dataram o estabelecimento dessa civilização em 6000 a.C. Descrevem o desenvolvimento urbano encontrado como muito sofisticado e só conhecido na Europa 2.000 anos mais tarde.

Não há qualquer evidência de guerra que possa ter aniquilado essa civilização, como a suposta invasão de arianos. Há evidências de que o rio Sarasvati mudou seu curso várias vezes, devido a inundações, e o sítio sofreu com terremotos, além da seca que tomou conta da Ásia a oeste e ao sul.

Entre 2000-1900 a.C., o rio finalmente secou. Porém, é interessante saber que nessa área, o deserto do Rajastão, há água a 50 ou 60 metros abaixo do leito seco do rio. O Central Arid Zone Research Institute, de Jodhpur, mapeou o rio Sarasvati com imagens de satélites e fotografias aéreas e pesquisas de campo.

Existem hoje outros argumentos contra o mito da invasão ariana. Estudiosos afirmam que não existe raça ariana e muito menos dravidiana. Considera-se raça em sentido geográfico ou agrupamentos de tipos humanos, como asiáticos, europeus e africanos. Arqueólogos biólogos, tendo analisado os esqueletos dos sítios de Harappa e Mohenjo-daro, afirmam não haver características biológicas específicas para a afirmação de um tipo diferente chamado ariano ou dravidiano.

Em 2006, numa Conferência na Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, estudiosos informaram sobre pesquisas arqueológicas e astronômicas que concluem que a civilização indiana e sua população é indígena. Afirmam ainda que o povo original do subcontinente indiano e sua cultura seriam muito possivelmente a origem genética, lingüística e cultural da maior parte do mundo.

O Dr. V.K. Kashyap, do National Institute of Biologicals, Índia, afirma na mesma conferência que não há qualquer evidência genética de invasão de um povo indu-ariano na Índia.

Quanto à língua sânscrita ter se originado numa língua chamada indo-européia, não há evidência da existência dessa língua, tampouco de um lugar onde determinado povo que falasse tal língua estivesse estabelecido. Aliás, o estudioso Koenraad Elst defende a idéia de que é da Índia que se originaram tantas outras línguas por volta de 6000 a.C. Além disso, as línguas chamadas dravidianas, como tamil, telugu e mallayalam, têm forte conexões com o sânscrito, e estão mais ligadas a ele do que outras línguas chamadas indo-européias, como o eslavo, o báltico, itálico, germano, celta e línguas derivadas dessas.

Encontramos nos Vedas cálculos matemáticos precisos como de solstícios e equinócios por volta de 8500 a.C., o que faz com que a data do Veda seja anterior. Le Gentil, astrônomo francês que viveu muitos anos na Índia, reconhece que o fabuloso conhecimento indiano não existia em nenhum outro lugar, nem na China e nem no Egito antigo. Hoje é sabido que são da Índia a invenção do sistema decimal, dos números chamados arábicos e o conceito do zero.

Os sábios antigos do Rig Veda sabiam que a distância entre o Sol e a Terra é por volta de 108 vezes o diâmetro do Sol; conheciam o período dos 5 planetas (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno) e já haviam determinado o ano solar em 365 e 366 dias, milhares de anos antes desse conhecimento aparecer no Egito, na Babilônia ou na Grécia.

Podemos concluir que a teoria de que a civilização indiana teve origem fora da Índia é falsa. Interesses políticos e econômicos levaram à criação de tal doutrina, apresentada como certa e indiscutível, e que só se sustentou enquanto não foi questionada e analisada.

A Índia é o berço da mais antiga tradição de que se tem conhecimento, e, o que é mais incrível, essa tradição em todo seu esplendor está viva até hoje, e faz referência a todas as áreas do saber humano. Essa tradição tem sido mantida por mais de 6.000 anos através de uma complexa e rica tradição oral, de uma geração a outra, até os nossos dias. Por isso, é adequado o termo Bharata Mata, “Mãe Índia”, pois sua cultura e língua são anteriores a de todas as outras civilizações que se têm conhecimento hoje.

O conhecimento da Índia é imenso, profundo e envolve todas as áreas da vida humana. O fato de que tem sido preservado até hoje denuncia uma riqueza intrínseca a ele e eterna atualidade, pois sabemos que o ser humano não gasta seu tempo protegendo o que não lhe é útil. Através do tempo e em todo o continente indiano há uma mesma cultura que carrega um grande tesouro, que é ao mesmo tempo secreto, pois só se desvela àqueles que a procuram e reverenciam.

A cultura védica não é um somatório de partes, sejam elas geograficamente distantes, ou aparentemente diferente nas várias formas religiosas, artístico-culturais, linguística, relacionada à alimentação ou vestiário. Todas essas expressões são derivadas de um único Veda, que desvela uma verdade única, a qual é sua alma transcendental, apesar da relativa diferença nas formas. O espírito védico continua vivo e continuará, apesar das mudanças que o mundo moderno pode produzir na expressão de sua forma, pois ele existe além da forma.

O antigo espírito védico, Sanathana Dharma, está vivo no coração dos milhões que ainda hoje se dedicam a mergulhar em sua riqueza e desvelar seus segredos. Mais do que demarcar datas e local para a tradição védica, seremos abençoados ao mergulharmos em sua tradição oral viva e vislumbrarmos sua riqueza ilimitada, a afirmação desvelada de que a verdade única, absoluta e imortal é a natureza essencial do ser humano e de todo o universo.


Referências bibliográficas:
* The Invasion that never was, Michel Danino e Sujata Nahar, François Gautier » www.francoisgautier.com
* Scientists Collide with Linguists to Assert Indigenous origin to Indian Civilization » www.umassd.edu/indic

Gloria ArieiraGloria Arieira é a Diretora Presidente do Vidya Mandir – Centro de Estudos de Vedanta e Sânscrito, fundado em 1984 no Rio de Janeiro para facilitar o seu trabalho de ensino dentro da mesma tradição de ensinamento dos primeiros sábios, os rishis dos Vedas. Em janeiro de 1974 foi para a Índia estudar com Svami Dayananda, que se tornou seu mestre. Com ele estudou até julho de 1978, retornando então ao Brasil. Além de permanecer no ashram Sandeepani Sadhanalaya, um local de estudo e vivência com o mestre, em Mumbai, também estudou em outros ashrams em Uttarkashi e Rishikesh, norte da Índia. Viajou também para lugares nas várias regiões da Índia para participar de cursos, palestras e visitas a locais sagrados, como os templos de Tamil Nadu e Kerala, conhecendo melhor a tradição cultural e religiosa dos Vedas. Desde seu retorno, vem ensinando Vedanta e sânscrito no Rio de Janeiro e em outras cidades do Brasil e também em Buenos Aires, Argentina. Dedica-se também ao trabalho de tradução para o português dos textos em sânscrito, como a Bhagavad Gita, as Upanishads e vários outros. É responsável pela publicação em português dos livros de Svami Dayananda, editados pela Vidya Mandir Editorial, e de dois outros livros, Orações Milenares e Puja – a realização de um ritual vêdico.

Visite o site do Vidyamandir – Centro de Estudos de Vedanta e Sânscrito, da professora Gloria Arieira, em www.vidyamandir.org.br





Compartilhe esse conteúdo com alguém...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.