Entrevista com Gloria Arieira no eYoga.com.br

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Conheça a história da estudiosa, os segredos de sua viagem à Índia e o amor pelo que é védico.

Gloria Arieira e Marie Furlanetti em Teresópolis (RJ) » julho de 2008» por Thays Biasetti

Uma das mais respeitadas estudiosas dos Vedas e tradutora de sânscrito no Brasil, Gloria Arieira largou sua vida no país para viver quatro anos na Índia e estudar com Svami Dayananda, seu mestre. Desde seu retorno, dedica-se a promover o Vedanta e o sânscrito no Brasil e na Argentina, além do trabalho de tradução para o português de textos em sânscrito. Confira o bate-papo com a estudiosa sobre sua vida, a viagem à Índia e a paixão pela cultura védica.


eYoga » Você tem uma vasta história com os Vedas. Como foi seu primeiro contato com eles?

Gloria Arieira » Meu primeiro contato com os Vedas foi por meio do Svami Chinmayananda, que veio ao Brasil e proferiu duas palestras em 1973.

eYoga » O que levou a largar sua vida no Brasil para passar anos na Índia viajando e aprendendo com seu mestre?

Gloria » Estava, naquela época, buscando um significado maior para a vida e um conhecimento que me libertasse da busca constante pela paz e da satisfação comigo mesma, algo que fizesse sentido para mim. Não encontrei em filósofos, em estudiosos, nem na arte, tampouco nas religiões com as quais tive contato. As palavras de Svami Chinmayananda, que ele disse ser o ensinamento de Vedanta, fizeram tanto sentido que eu resolvi ir à Índia estudar com ele. Quando cheguei, ele me disse que aprendesse com seu discípulo, Svami Dayananda, que ministrava o curso no ashram deles no subúrbio de Mumbai. Svami Dayananda tornou-se, então, meu mestre.

eYoga » Como foi sua experiência na Índia? O que mais gostou e o que menos gostou?

Gloria » A Índia é um país de contrastes, de paradoxos. De imediato gostei muito do povo, dos lugares, da comida, da roupa. Adorei estudar no ashram, das aulas, dos cânticos védicos, das meditações e do estudo do sânscrito. Foram quase cinco anos inesquecíveis por esses estudos e descobertas, mas também foram anos muito difíceis por preconceitos e dificuldades que passei. Minha dedicação foi completa, por isso deixei de lado muitas coisas que não eram tão importantes naquele momento. Além dos estudos, conheci muitas pessoas importantes e significativas para mim.

eYoga » Você acredita que aprendeu mais com seus estudos ou com a convivência com Svami Dayananda?

Gloria » Com ambos. Aprender e conviver com o mestre são coisas importantes, como também é conviver com outras pessoas que buscam o autoconhecimento. É uma oportunidade para estudar e conhecer mais sobre nós mesmos como pessoas e lidar adequadamente com nosso ego.

eYoga » Você faria tudo de novo?

Gloria » Sem dúvida, faria tudo de novo!

eYoga » De tudo que você aprendeu, qual o ensinamento que você mais gosta?

Gloria » Naturalmente que o conhecimento de Vedanta é minha vida, mas gosto também dos cantos védicos. Dos textos estudados, a Bhagavad Gita, Sri Krishna e Arjuna estão sempre comigo.

eYoga » Qual é mais difícil de seguir na vida diária? Aliás, você acredita que isso é possível?

Gloria » Quando o conhecimento de Vedanta, de Yoga, faz parte de nossa vida, não há mais dificuldade em seguir, pois não há mais escolha, faz parte da própria pessoa. Uma vida de dedicação exclusiva ao estudo, meditação e cantos, como se vive em um ashram, é muito atraente, mas eu acreditei que seria fácil demais pra mim, que o desafio estava em unir isso à vida de família, na sociedade urbana. Foi o que fiz e foi possível.

eYoga » Você acredita que pode chegar a saber tudo sobre os Vedas?

Gloria » Pode-se saber tudo sobre os Vedas no sentido de conhecer sua mensagem, seus valores, proposta de vida e tema fundamental. A pessoa torna-se vedavit, conhecedor dos Vedas, que é o vedahrdayavit, o conhecedor do coração dos Vedas. Mas tudo que está nos Vedas, em detalhes, não é possível conhecer.

eYoga » O que fez você se apaixonar pelo sânscrito?

Gloria » O sânscrito é uma língua lógica, com regras claras, com palavras especiais para o estudo dos Vedas que não podem ser traduzidas, mas entendidas, como a palavra dharma, por exemplo. É uma língua encantadora e, sendo lógica, fácil de estudar, ainda que complexa. O que me apaixonou foi sua estrutura gramatical, sua lógica, e a beleza de seu som.

eYoga » Para se aprofundar nos ensinamentos, todo yogi deveria saber sânscrito?

Gloria » Para se aprofundar no conhecimento contido nos Vedas, seja Vedanta, Yoga ou Ayurveda, algum conhecimento de sânscrito se faz necessário. Existem traduções muito ruins de sânscrito e, ao menos, a pessoa deve poder avaliar se a tradução é confiável ou não.

eYoga » Qual o texto mais difícil que você traduziu e por que?

Gloria » Já traduzi a Bhagavad Gita, algumas Upanishads e muitos outros textos de Vedanta. Quando o texto possui um comentário em sânscrito de um grande mestre, como Sri Shankara, torna-se mais fácil traduzi-lo e ter certeza sobre seu entendimento correto. Um texto muito difícil é o Yoga Sutra de Patañjali, porque não temos certeza sobre o que ele quis dizer. Existem muitas traduções inexatas e outras que não fazem sentido. Ainda estou trabalhando na tradução dos Yoga Sutras à luz de Vedanta e buscando as bênçãos de Sri Patañjali para finalizar o trabalho.

eYoga » Qual seu conselho para as pessoas que querem se aprofundar nos estudos dos Vedas?

Gloria » Para estudar os Vedas, mais especialmente Vedanta e Yoga, é fundamental encontrar um professor ou professora que tenha estudado com seu próprio mestre e possa lhe ensinar. O mestre tem que ser vivo. Não funciona ter um mestre morto ou ser autodidata. Depois de certificar-se que o professor é confiável, dedique um tempo a sentar com seu professor e estudar, ouvir seus conselhos, conviver com a pessoa, fazer o que for necessário para isso. O próprio ensinamento e os mestres irão abençoar a pessoa sincera com o ensinamento que ela deseja. Pode ter certeza.


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Entrevista realizada por Thays Biasetti e originalmente publicada em 15 de agosto de 2008 na coluna Yogi » Bate-papo do site www.eyoga.com.br da revista Prana Yoga Journal.

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