A Índia de todos os sentidos

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Juliana Luna na Índia

Juliana Luna na Índia



Conheça a experiência sensorial e cultural de uma brasileira na Índia…

» por Juliana Luna

Minha viagem à Índia começou num jantar em Paris, no contato entre a minha boca e o perfumado arroz basmati, uma qualidade especial cultivada na Ásia. Mais do que um sabor impactante, um portal, que me transportou a um mágico universo de cores, cheiros e gostos, que pouco a pouco seduziram todos os meus sensos… Um por um.

A Índia mística no imaginário ocidental

Um segundo contato ocorreu através do meu nariz. Um amigo exalava um sedutor aroma, oriundo dos óleos essenciais que ele havia trazido de sua última viagem à Índia. Convidei-o para jantar em minha casa. Enquanto me preparava para comer com palitinho chinês, sentindo-me o auge do exotismo, meu amigo afirmou: “Na Índia, as pessoas comem com as mãos…”.

E começou a transportar a comida do prato para a boca com a mão, diante da minha cara pasmada.

Meus ouvidos também foram rapidamente seduzidos pela musica clássica indiana. A melodia oriunda de instrumentos ancestrais, como as tablas e o sitar, são verdadeiras pontes de contato com o que há de mais profundo no universo e dentro de cada um.

Mas nenhuma dessas experiências superou experimentar um verdadeiro néctar dos deuses que resultava da mistura de leite, chá e alguns temperos. Masala (uma especiaria) está presente em toda a culinária indiana, dos doces aos chás. A sua mistura é uma verdadeira arte dessa civilização. Não esqueçamos que os portugueses buscavam especiarias na Índia quando chegaram ao Brasil.

A sedução dos sentidos ocidentais pelo subcontinente indiano não é algo tão novo. Em 326 a.C., quando o exército de Alexandre, “O Grande”, marchava no noroeste indiano, o mesmo já buscava “sufistas desnudos” (sadhus), cuja reputação já havia chegado até a Grécia.

Muita coisa mudou desde os tempos de Alexandre. No entanto, infelizmente, a moderna civilização ocidental, com toda sua industrialização, tecnologia e globalização, ainda não conseguiu colocar a “paz de espírito” à disposição dos consumidores nas prateleiras dos supermercados. Como resultado, o que vem do oriente balança, e cada vez mais, o ocidente.

Desde que, em 1968, os Beatles estiveram nos Himalaias visitando seu guru Maharishi Mahesh Yogi, a imagem da Índia mística, o exotismo das suas filosofias e o modo de vida oriental associados com a busca do autoconhecimento, vêm sendo difundidos de modo maciço no imaginário ocidental.

O último comentário que escutei, antes de tomar o avião, veio de uma amiga brasileira: “Muitas pessoas creem que vão encontrar a paz na Índia. Mas, ao contrário, é tudo muito intenso”.

Da lama ao caos, do caos à lama: bem-vinda à Índia real

Uma mulher muçulmana, coberta de negro dos pés a cabeça, foi a primeira cena que vi ao sair do hotel pela manhã. Meus olhos atordoados revezavam-se entre o absoluto negro da sua roupa contrastando com o fosforescente azul da minha camiseta.

O segundo que vi foi o típico meio de transporte local, um veículo motorizado de três rodas chamado auto-rickshaw, justamente quando buscávamos chegar a um segundo hotel. Concordamos o preço, acomodamos as malas e nos sentamos. Tudo estava perfeitamente “normal”, até o momento em que o motorista deu partida no carro.

Mais emocionante que uma montanha russa, mais excitante que um videogame de pura ação, o trânsito de Bombaim é uma experiência (como quase todas na Índia), completamente surreal. O termo “caótico” está a quilômetros de distância de uma adequada classificação. Durante todo o percurso, meu coração quase saía pela boca. Tive a certeza absoluta que o motorista ia esmagar o pequeno auto-rickshaw e as nossas cabeças contra todos os caminhões e os carros que ele tentava ultrapassar o tempo todo e a qualquer custo. Senti que ele ia atropelar todos aqueles que tentavam atravessar a rua atirando-se na frente do carro.

Alguns momentos depois, tive minha primeira experiência, não menos inusitada, como pedestre. Como não vinham carros no sentido normal da rua, comecei a atravessá-la. Do sentido contrário, vinha uma charrete puxada por um cavalo em pleno centro de Bombaim que quase me atropelou.

Um dos meus contatos iniciais com a Índia real também se deu através da boca. O inesperado sabor apimentado da comida parou na minha garganta. E ela não se movia nem para frente nem para trás. Ao sair do restaurante, o odor de excrementos na rua (característico, sobretudo nos centros urbanos), foi rapidamente sentido pelo meu nariz. Imediatamente vomitei e adoeci: bem-vinda à Índia real!

Seja pelos olhares insistentes da população local (parece que um bilhão de pessoas está olhando pra você), ou pelos odores fortes, o ruído excessivo, poluição impregnada no ar, na roupa, na pele e cabelos, a comida extremamente apimentada, a Índia real faz com que todos os sensos sejam ativados, exacerbados. E quase destruídos.

A cena urbana nesse país é uma caixinha de surpresas. Sentado no chão ao lado de um pano estirado no solo, coberto com dentaduras, pinças e remédios, o homem me oferece serviços dentários, mostrando-me a qualidade do serviço na boca do ultimo cliente. As vacas, considerados animais sagrados, desfilam livremente pelas ruas, disputando o esquálido espaço com rickshaws (veículo a duas rodas puxado por bicicleta), auto-rickshaws, bicicletas, motos, automóveis e caminhões, que buzinam constantemente a todo volume. Inabalável pelo caos exterior em pleno centro urbano, descalço e ostentando rastafáris loiros, um hippie ocidental desfila esbanjando um sorriso e uma expressão de tranquilidade e paz. Mas quando a cena foi completada por um elefante que ajudava a tornar o trânsito mais caótico, eu quase não pude acreditar no que os meus olhos estavam vendo.

Nosso mundo de cabeça para baixo

“A Índia é o nosso mundo de cabeça para baixo”, afirmou-me uma amiga, talvez a melhor definição que obtive até agora. A voz da minha mãe dizendo-me toda a vida para lavar as mãos depois de pegar em jornal repetia-se como uma alucinação na minha cabeça, quando vi, pela primeira vez, jornais sendo utilizados como guardanapos para servir omeletes na rua.

Os indianos têm uma noção de higiene muito diferente da nossa. Comer com as mãos, por exemplo, como eu já sabia desde Paris, é socialmente considerado normal. Afirma-se ser mais higiênico comer com a própria mão que com talheres, os quais são utilizados por várias pessoas e muitas vezes não se sabe se foram devidamente lavados. Também, ao comer com as mãos, coloca-se uma quantidade menor de comida na boca, o que facilita o processo digestivo. No entanto, só a mão direita toca os alimentos. “A mão esquerda se utiliza depois”, afirmam os indianos. A higiene com água é mais comum do que o papel higiênico, cujo preço é caríssimo. Os indianos não tocam os lábios em copos de uso comum. Ao cozinhar, não provam a comida com uma colher e a colocam outra vez na panela. Caso alguém coloque uma comida na boca, ninguém mais a toca.

A linguagem corporal também tem suas especificidades. Quando queremos dizer “sim”, flexionamos a cabeça para frente e para trás. Quando queremos dizer “não”, flexionamos a cabeça reta para a esquerda e para a direita. Numa estação rodoviária, onde a única sinalização constitui-se de pessoas gritando diante dos ônibus, necessito saber qual desses devo tomar. Então, à qualquer pergunta, as pessoas flexionam a cabeça para a direita e o queixo para a esquerda ou vice-versa. Isso pode ser “sim”. Pode ser “não”. Pode ser qualquer coisa!

Consequentemente, um discreto movimento de recusa feito com a cabeça diante dos pedidos de mendicância não parece ser facilmente compreendido. Os mendigos insistem, persistem e não desistem! Passam horas tentando te convencer a dar-lhes uma rúpia (dinheiro indiano). Caso o discurso verbal não funcione, eles continuam seguindo você, agarrando-se na sua roupa, esfregando-se no seu corpo. Muitos, desde que conseguem algo, solenemente param as caretas teatrais e começam a caminhar como se nada tivesse ocorrido.

Obviamente, o nosso comportamento ocidental é igualmente exótico para os hindus, cuja noção de “ser discreto” é outra bem diferente da nossa. Muitos hindus são capazes de permanecer com os olhos arregalados, surpresos e fixos em nossa direção durante horas. Nos templos, enquanto apreciamos os monumentos, os hindus nos apreciam. Nos zoológicos, nós olhamos para os animais, enquanto os hindus olham para nós. Realmente, não se sabe quem ou o que é a atração principal. Então, o tempo todo é bom estar preparado para responder a uma série de perguntas clássicas: Qual o seu nome? A que país você pertence? Você é casado? Quanto você ganha? Também não era muito fácil explicar o porque do reduzido tamanho da delegação brasileira.

Vejamos um possível diálogo:

– Qual é o seu país?

– Brasil.

– Quantos membros vocês são?

Olho para um lado e para o outro e respondo:

– Um membro.

A reação vem em seguida:

– Você não tem amigos? Porque você não pediu a um membro da família para acompanhar você? Porque você está só? Você deveria estar acompanhada.

Os indianos, que nunca estão sós, não entendem como alguém pode estar só, sobretudo uma mulher. No imaginário indiano, a mulher ocidental é livre e fácil. Os turistas, e especialmente as turistas, são constantemente abordados por jovens garotos indianos, que se apresentam cumprimentando com um aperto de mão. Essa forma de saudação não é comum na cultura indiana, onde tradicionalmente a saudação é com as duas mãos juntas diante do peito acompanhada da expressão namaste. E as pobres turistas nem sonham com o erótico teor desse, para nós, tão comum aperto de a mão. Igualmente, os adolescentes indianos, normalmente em grupos, gostam muito de pedir às turistas que posem ao seu lado para uma foto. E ao posar para a câmera (que, segundo um amigo, muitas nem filme dentro têm) cada um vai posar o braço ao redor do corpo da exótica dama.

Viajar pela Índia é defrontar-se constantemente com situações limites, inusitadas e absurdas. A escolha parece pequena entre cair numa crise de nervos e histeria ou aprender a aceitar que tudo o que você vê ao seu redor é normal. Finalmente entendi porque as pessoas viajam a Índia em busca de autoconhecimento: ou você fica zen ou você fica doido.

Primeiro você casa, depois aprende a amar

Mas talvez o mais impressionante para os ocidentais seja a maneira como os hindus se casam. Com exceções das grandes cidades, como Nova Delhi ou Bombaim, cerca de 90% dos casamentos em todo o país são arranjados pelas famílias, ou seja, os pais escolhem os futuros noivos, que não têm muito contato antes do casamento.

Sob o ponto de vista tradicional, o casamento por amor não oferece garantias, e é visto com grande desconfiança. Segundo os indianos, nessa forma de casamento as pessoas se apaixonam e depois se desapaixonam, enquanto que, no casamento arranjado, “primeiro você casa e depois se aprende a amar”, como me afirmou outro dia um amigo.

Nas pequenas comunidades, a enquete para encontrar os noivos é feita entre os vizinhos e nas grandes cidades anúncios são colocados em jornais. A escolha é feita considerando a qualificação profissional, a casta e o dote que a noiva deve pagar, que, apesar de proibido, também cumpre importante papel. A verificação astrológica é fundamental, e muitas das potenciais uniões são rejeitadas baseados nos dados do horóscopo.

Um dia, passeando numa cachoeira, vi nove casais recém-casados, que viajavam em lua-de-mel. Cenicamente, todos pousavam para fotos em poses extravagantes e apaixonadas, entre beijos e demonstrações de amor. Na primeira oportunidade, perguntei e vi que sete dessas nove uniões eram casamentos arranjados, enquanto dois eram casamentos por amor. Muitos ocidentais, ao verem que muitas dessas uniões parecem funcionar melhor do que no nosso modelo, baseado no efêmero fogo da paixão, questionam-se sobre a maneira como nós nos relacionamos atualmente.

A morte pede passagem

Na Índia, o sexo pode ser ainda um grande tabu. No entanto, um assunto que no Ocidente muita gente tem medo até de falar, a morte, é vista sob um ponto de vista bem diferente.

Caminho pelas ruas. A cidade de Varanasi é a mais sagrada de todas as sete sagradas cidades indianas, e atrai cerca de um milhão de peregrinos todos os anos. Localizada no banco ocidental do rio Ganges, provavelmente já era uma importante cidade no século 7 a.C., e Buddha passou por ela há 2.500 anos. Também muitos afirmam que o próprio Cristo passou seis anos de sua vida por aqui. De repente, vejo quatro pessoas que cantam, dançam e carregam uma maca, contendo um defunto sendo levado em direção ao rio Ganges. Peregrinos de toda a Índia vêm para banhar-se nessas águas sagradas, em cujas margens são jogadas as cinzas dos cadáveres cremados nas suas margem no decorrer do dia.

A Índia é um dos poucos países do mundo em que a estrutura social e religiosa que define a identidade da nação se mantém intacta por pelo menos 4.000 anos, e a maioria da população, composta de mais de mais de um bilhão de pessoas, ainda vive num mundo sagrado, com valores bem diferentes da tradição liberal ocidental. Acredita-se que morrer em Varanasi é capaz de levar a liberação total da cadeia de reencarnações. Como resultado, Varanasi está cheia de pessoas que estão esperando morrer. Muitos entre estes se recusam a ir ao hospital com medo de afastar-se e morrer longe das margens do rio Ganges.

Meu nariz sente o odor da fumaça e meus ouvidos percebem o sutil ruído do vento. Diante dos meus olhos, fogueiras laranjas consomem a madeira, dentro da qual repousa uma vida cuja passagem terrestre chegou ao fim. O Sol resplandece num dourado brilho sobre as águas da sagrada mãe Ganges. A única certeza da vida, a morte, está ai, desnuda, explícita e não escondida sob palmos de terra ou lápides com fotos bonitas. Alguém me informou que em 3 horas tudo se transformaria em cinzas. Apenas três horas. A materialização da impermanência. Minha amiga francesa estava em estado de choque e quis ficar só. Quanto a mim, apenas senti a realidade da impermanência. Que não vale a pena apegar-se demasiado. Senti meu coração batendo no caminho certo.

Saí caminhando tranquilamente pelas imundas, caóticas e estreitas ruas de Varanasi. Como se não fosse o suficiente, levanto a cabeça e vejo uma vaca sagrada fazendo suas necessidades fisiológicas bem diante do meu nariz. Sinto toda a autenticidade dessa civilização que há mais de 5.000 anos senta no chão e come com as mãos.

São sete horas da manhã. Imediatamente, entro num restaurante. Mais uma vez, um contato profundo entre a Índia e a minha boca, que sentiu, como se pudera ser a última vez, o inconfundível néctar resultante da mistura: chá, leite e masala: CHAI!


Texto originalmente publicado nas páginas 25 a 33 do volume 11, do Inverno de 2006, dos Cadernos de Yoga.

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