O novo momento do Yoga

Pedro Kupfer (1966-) na Índia em 2011
Esta entrevista, sobre o novo momento que o Yoga está vivendo em nossa sociedade, fez parte do trabalho de pesquisa da jornalista Marcela Buscato, da revista Época. Compartilhamos aqui, com nossos amigos e leitores, seções da mesma que não foram publicadas nesse semanário, esperando que gostem e desfrutem. A reportagem da Época, originalmente publicada em 31 de janeiro de 2011, pode ser lida em epoca.com.br.
Marcela Buscato: Depois de ler alguns livros e conversar com alguns profissionais, percebi que o Yoga parece viver um novo momento, e está sendo redescoberto como uma prática para quem quer buscar o equilíbrio, não necessariamente seguindo toda a filosofia da religião.
Pedro Kupfer: Em verdade, essa é outra leitura do Yoga, um pouco menos rasa, do que a visão que se tinha no meio da década de 1990, quando as academias de ginástica foram invadidas pela versão mais “física” do Yoga.
Marcela Buscato: Você sentiu essa mudança? Houve um aumento no número de alunos que estão procurando o Yoga não pelos benefícios físicos nem pelo aspecto transcendental, mas para buscar equilíbrio e autoconhecimento? Em caso afirmativo, o que você acha que provocou essa mudança (o Yoga não é mais nem coisa de bicho grilo nem uma moda de academia)?
Pedro Kupfer: Sim, percebi essa mudança. Tenho a impressão de que ela se deve ao bom trabalho feito pelos próprios professores de Yoga, no sentido de esclarecer à opinião pública que Yoga não é ginástica.
Desde a minha percepção, nunca deixou de haver gente interessada nas metas originais do Yoga, que são o autoconhecimento e a liberdade. Porém, a quantidade de pessoas que buscam o Yoga apenas pelos seus benefícios parece haver diminuído.
É como se a comunidade inteira dos praticantes de Yoga tivesse amadurecido de maneira grupal.
Marcela Buscato: Por que as mulheres são o maior público? Conversei com muitas que se disseram estressadas com a vida de mãe, esposa, profissional e partiram para o Yoga para encontrar equilíbrio. Você já percebeu isso nas suas alunas?
Pedro Kupfer: É um fato que a maioria dos praticantes de Yoga da atualidade, aqui no Ocidente, corresponde ao sexo feminino.
Embora pessoalmente eu acredite que não há diferenças essenciais entre homens e mulheres, parece haver sim uma diferença na maneira de escolher as soluções que ajudem a administrar o estresse e a pressão que a sociedade impõe às pessoas.
Assim, uma maioria de mulheres parece ter reconhecido no Yoga uma solução eficiente para reencontrar o equilíbrio, a serenidade e a qualidade de vida. Mas isso não significa que muitos homens não tenham igualmente percebido que essa solução é tão eficiente para eles quanto o é para as mulheres.
Marcela Buscato: Como explicar que o Yoga fornece esse equilíbrio e autoconhecimento que as mulheres buscam? Quais são os aspectos e os elementos da prática que ajudam a manter a calma e a concentração?
Pedro Kupfer: A prática de Yoga funciona em níveis diferentes: fisicamente falando, ativa e estimula de maneira positiva o sistema endócrino. Isso se traduz, por sua vez, em sensações de bem-estar, serenidade e equilíbrio. Além disso, ajuda bastante na manutenção da saúde, regula o apetite e aumenta a longevidade. Esses benefícios acontecem a partir da prática das posturas físicas e dos exercícios respiratórios, chamados, respectivamente, asanas e pranayamas.
Emocionalmente falando, o Yoga nos ensina a a aceitar de maneira equânime as circunstâncias e desafios que a vida nos coloca. Isso se traduz numa postura mais serena e numa melhor disposição no cotidiano. O relaxamento e os exercícios de concentração tomam conta dessa esfera.
Na esfera mental, o Yoga tem como efeitos mais evidentes deixar o praticante em estado de equilíbrio, cultivando a aceitação, tanto de si próprio como das circunstâncias externas. Isso acontece como efeito das práticas de meditação e auto-observação, onde a pessoa aprende a observar sua própria mente e evitar as reações mecânicas e os condicionamentos.
Marcela Buscato: Você acha que é possível praticar o Yoga sem crer em uma busca pelo divino ou transcendental?
Pedro Kupfer: Sim, claro. Inclusive porque há muitas diferentes interpretações do que seja a meta do Yoga. Dentre elas, há gente empenhada numa “busca pelo divino”, como você diz, o que aproxima as versões do Yoga que elas praticam da religião, e outras que colocam a ênfase no autoconhecimento, na reflexão e na aplicação desse conhecimento no cotidiano, como é o caso da linha que pessoalmente eu sigo.
Algumas formas de Yoga pedem a mesma fé que a religião exige. Outras pedem que a pessoa compreenda quem ela é, sem apelar a nenhum tipo de crença. Essa flexibilidade que o Yoga apresenta o torna muito versátil e atraente nos dias atuais, quando algumas das grandes religiões parecem ter perdido a força, e as pessoas não se contentam nem se preenchem com o materialismo nem com o humanismo.
Marcela Buscato: O que é o Yoga para você? Uma religião, uma filosofia, um exercício físico?
Pedro Kupfer: Para mim, o Yoga não é nem religião, nem filosofia (muito menos, um exercício físico), mas uma visão da vida e da maneira de olhar para ela. Desde dentro da cultura da Índia, onde o Yoga nasceu, ele é chamado darshana, ou “ponto de vista” sobre a realidade.
Prefiro não usar a palavra filosofia, pois aqui no Ocidente ela está vinculada a sistemas de pensamento nascidos da mente de alguns pensadores que desconstroem o que a geração anterior construiu e colocam outras ideias no lugar daquelas, enquanto que o Yoga lida com aquilo que é universal e eterno, que não muda: os valores universais e suas diferentes aplicações, bem como as formas de encontrar a felicidade e a liberdade que são inatas a nós mesmos. Filosofias vão e vem, como opiniões e teorias. A visão (o darshana) permanece.
Visite o site do Pedro em yoga.pro.br
- Originalmente publicada na íntegra em 2 de fevereiro de 2011 em yoga.pro.br, o site do Pedro[↩]














Texto explicativo e excelente! Gostaria de saber aonde fica o consultório da Dra Maria Stela de Simone.
Que bom que você gostou dessa entrevista do professor Pedro Kupfer, Eliana, fico feliz em saber!
Quanto ao consultório da Dra Maria Stela de Simone, não sei onde fica, mas quem sabe você consiga encontrá-lo por uma busca em sites de mecanismos de pesquisa?
Namaste! Sou Instrutor de Yoga Cristão. É notório como a Pandemia diminuiu em 90% o número de alunos, que estão presos em seus lares. No meu entender, essa prisão é mental. Neste momento tive uma luz: é necessário implantar um trabalho voluntário de conscientização (lá na mente), libertar-se do medo e volta a vivermos em grupo.
Namaste, Noel! Muitíssimo grato por esse teu comentário. Mais do que uma “prisão mental”, as medidas de isolamento social foram necessárias nessa Pandemia de Covid-19 para a proteção de todos, sobretudo dos mais vulneráveis, até que tivessem chegado as vacinas para a nossa imunização coletiva, mas que bom que o pior já passou e em breve tudo voltará ao normal.