Com quantos niyamas se faz uma yogini?

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Sigmund Freud (1856 - 1939)

Sigmund Freud (1856 – 1939)


» por Adriana Bogéa

O meu naufrágio no barco da Psicanálise

Descobri o Yoga em um momento de profunda insatisfação profissional e de grande descontentamento com a insuficiência das respostas fornecidas pela Psicanálise, referencial teórico que escolhi ainda na faculdade de Psicologia, às minhas indagações sobre o viver. Ainda na faculdade, me encantei com a postulação freudiana sobre o Inconsciente, que era apresentada como a terceira ferida narcísica imposta ao ser humano, depois da Teoria de Copérnico e da Teoria de Darwin.

A noção de Inconsciente, “carro chefe” da teoria psicanalítica, trazia consigo a idéia da ingovernabilidade do ser humano, pois ele não seria mais “senhor” de si nem na sua própria morada. E isso se daria porque havia um lugar psíquico de certo modo “inacessível e indomável”, que direcionaria os comportamentos do indivíduo à revelia deste.

Há sete anos trabalhando no Conselho Tutelar, confronto-me diariamente com situações de violação de direitos de crianças e adolescentes – algumas de fácil resolução e outras extremamente complexas. Nesse espaço, testemunhando as situações delicadas que fazem parte do meu dia-a-dia, passei a me questionar mais intensamente sobre uma frase proferida por Freud em seu final de vida, onde ele dizia que a Psicanálise nunca se propôs a oferecer felicidade ao indivíduo, mas somente em transformar a infelicidade neurótica em uma infelicidade comum.

Bom, no meu atual campo de trabalho comecei a me incomodar com essa afirmação e a me indagar: será que isso é tudo o que uma criança espancada ou um adolescente com total impossibilidade de gerenciar seu cotidiano por causa do seu sério envolvimento com drogas pode esperar da vida? Será que isso é tudo o que nos é reservado nesta vida? Na melhor das hipóteses, uma infelicidade comum?

Como explicar as situações vividas pelas famílias – adultos, adolescentes e crianças – que atendo no meu trabalho e tentar auxiliá-las no sentido da resolução dos conflitos experenciados? E, obviamente, uma infelicidade comum é tudo o que posso esperar alcançar diante das inquietações para as questões da minha vida particular? A Psicanálise já não era uma resposta suficiente e nem satisfatória às minhas questões de vida…

O meu encontro com o Yoga

Ao começar a praticar Yoga, no final de 2008, ouvi desde o início que já somos toda a plenitude e felicidade que tanto procuramos (e que muitas vezes delegamos a objetos externos/relacionamentos), que somos livres de limitações, mas que precisamos remover nossa ignorância acerca de nós mesmos. A partir disso, haveria uma inevitabilidade para acessarmos moksha1. Mas como esse conhecimento se daria? Como isso, tão mais reconfortante e diametralmente oposto à conceituação psicanalítica, seria possível?

Bom, começar a estudar foi um caminho inevitável. E já nesse início de estudo, dentre tantas novas informações, duas conceituações, que para mim são impossíveis de serem dissociadas uma da outra, chamaram-me a atenção: tapas e sthairyam.

Tapas surge no Yoga Sutra de Patañjali como um dos niyamas, um dos instrumentos a serem utilizados para se chegar ao autoconhecimento. As explanações sobre tapas como sendo um esforço intenso que deve ser feito sobre si mesmo em direção à realização de algo com o que se esteja comprometido reverberaram de modo significativo em mim. Estamos falando aqui em manter certo “calor” na ação, em empreender o esforço preciso, firme e necessário para se atingir um objetivo. No entanto, talvez o mais importante dessa conceituação seja alcançar uma clareza de que o foco desse esforço deve ser sempre moksha, a liberdade.

Nesse sentido, sthairyam, um dos 20 valores abordados por Krishna na Bhagavad Gita, pode ser entendido como um correlato de tapas. Conforme explicado por Svami Dayananda no livro O Valor dos Valores, esses 20 valores são as qualidades que a mente do buscador deve ter para alcançar o conhecimento do Ser. Nesse contexto, sthairyam, essa firmeza, constância ou perseverança deve estar presente ao longo desse processo.

Para destruir a ignorância a respeito de mim mesma, preciso adotar esta constância e estabelecer um compromisso com o estudo. Ainda seguindo com Dayananda, sthairyam significa que deve haver “um esforço firme em direção a qualquer coisa que você tenha se comprometido a realizar ATÉ que seja realizada…” (grifo meu), fazendo menção à realização de qualquer dever que a própria responsabilidade do indivíduo lhe impõe.

Assim, sthairyam surge como um valor, uma atitude extremamente importante na busca pelo autoconhecimento, pois se assumo o compromisso de procurar acessar o conhecimento sobre a minha verdade, este não se dará apenas por minha simples e mágica vontade. É preciso que eu empreenda um esforço, que eu tenha constância, disciplina e firmeza nos meios necessários para atingir esse objetivo. E também aqui surge a importância de sua aplicação nas qualificações secundárias – tais como, por exemplo, atitudes a serem cultivadas e estudos a serem efetuados.

Por mais que tenha clareza de que nem todos estão cognitiva e emocionalmente preparados para compreender o que é dito nas escrituras (conforme nos é apontado no Tattvabodhah) e que a destruição da ignorância não se dá pela execução de nenhuma ação, acho a idéia de tapas e sthairyam fascinante! Ambos evocam e reforçam a ativa participação do indivíduo nesse processo de autoconhecimento, quase como colocando jiva contra a parede (desculpe-me a imagem um pouco “grotesca”…) e questionando-o sobre como quer se posicionar diante dos grandes pontos de interrogação em sua existência.

A yogini e o crack

Esse ponto me remeteu a uma adolescente que atendi há pouco mais de dois anos no meu trabalho. Vamos chamá-la de Rita. Às vésperas de completar 15 anos, ela procurou espontaneamente o Conselho Tutelar, pois desejava parar de consumir crack, droga que a estava debilitando física e psicologicamente de modo bastante intenso. Rita era moradora de uma grande favela carioca e vivenciava uma situação social com muitas privações.

Ao longo dos nossos atendimentos, constatamos que toda sua família – inclusive sua mãe e 5 dos seus 6 irmãos – tinha envolvimento significativo com drogas e que a violência física era um signo muito marcante na história familiar. No entanto, a despeito de todas as adversidades de sua história de vida, Rita empreendeu um esforço descomunal para descolar-se desses condicionamentos que eram naturalizados e nomeados por sua família e ambiente social como sendo “normais”.

Após nossas avaliações, Rita foi encaminhada para um período de internação para tratamento da dependência de crack (já que seu comprometimento com a droga era muito intenso e ela não aderiu a nossa primeira tentativa de um tratamento ambulatorial) e posteriormente foi abrigada em instituição para adolescentes devido às grandes dificuldades familiares (inclusive o falecimento de sua mãe devido a AIDS e a câncer de pulmão).

Rita voltou a estudar, começou a trabalhar e pôde experenciar a recuperação de parte de suas potencialidades. Apesar de uma grande recaída ocorrida logo após a saída da internação e da constante desvalorização familiar pelo seu “novo estilo de vida”, Rita permanece firme e determinada no seu propósito de não querer agir de forma não-reflexiva, simplesmente reproduzindo o que seria o “padrão natural” dentro da história da sua família.

Em uma de suas visitas recentes ao Conselho Tutelar, onde me visita esporadicamente para apenas conversar e contar como anda sua vida, Rita verbalizou seu espanto ao olhar para a vida de seus irmãos e perceber como eles não mudam seu estilo de vida. Agora, já estando de volta a seu ambiente familiar após quase dois anos de abrigamento institucional, ela se questionou: “Como eles não conseguem perceber que a vida pode ser muito mais feliz longe da história de violência e de uso de drogas da nossa família? Nossa, eles só tem que querer mudar e se esforçar pra isso!”

A ética do Yoga, na vida como ela é

Rita é para mim um exemplo muito claro de tapas e sthairyam. Ela apresentou um estranhamento diante das condutas ditas como “normais” pelo seu discurso familiar e empreendeu um esforço firme rumo à modificação daqueles condicionamentos legitimados dentro da sua família.

Rita é uma yogini! Provavelmente nunca ouviu falar absolutamente nada sobre Yoga. Provavelmente nunca executou um asana sequer e tampouco ouviu falar sobre yamas e niyamas. Tapas e sthairyam fatalmente nunca fizeram parte de seu vocabulário. Contudo, sua postura diante das situações com as quais se confronta nesta vida não me permite concluir nada diferente.

Enquanto tenho a necessidade de praticar muito em cima do tapetinho, estudar Vedanta e fazer Cursos de Formação, atentando sempre para a aplicabilidade de tudo o que tenho aprendido no meu cotidiano, Rita trilha um caminho bem diferente em seu dia-a-dia. E quando falo isso não estou conferindo nenhum juízo de valor, pois nenhum caminho é melhor ou pior do que o outro, mas tão somente o caminho que cada uma precisa vivenciar.

Por tudo isso, acho todos os ensinamentos estudados de uma beleza única… Tanto Rita como eu somos duas yoginis “moldadas” por caminhos bem distintos. Cada uma de nós tem coisas específicas para vivenciar nesse percurso, mas talvez nosso ponto em comum seja que ambas podem escolher a forma como se posicionar diante delas – temos livre arbítrio para tanto. E, se existe tapas e sthairyam, bom… nada está garantido, mas já temos com certeza um ótimo começo!


Artigo originalmente publicado em 27 de julho de 2010 em www.yoga.pro.br

  1. Libertação (nota do Editor) []
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Comentários

Com quantos niyamas se faz uma yogini? — 2 Comentários

  1. Namaste, Adriana.
    Brilhante o seu texto, me falou muito de perto, pois também sou psicóloga e yogini. Pude me identificar com sua vivência e seu pensamento. Essa é mais uma beleza da vida, caminhos distintos que levam à mesma meta. Parabéns!
    OM TAT SAT.

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