O que o Yoga não é

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Sri Yantra» por Maria Alice Figueiredo

O que é o Yoga? Essa é uma pergunta que aprendi a temer, porque é impossível respondê-la em poucas palavras. Dizer, por exemplo, que o Yoga é a ciência do ser e a arte do existir é uma resposta precisa e poética. Todavia, para que venha a ser compreendida por um leigo, será necessário acrescentar um longo comentário.

O objetivo primordial do Yoga é levar-nos, através de técnicas tanto físicas quanto psíquicas, a vivenciar estados do ser que se situam além da atividade mental que opera com palavras e idéias: além dos pensamentos, enfim.

E, logo aqui, nos deparamos com uma grande dificuldade em relação aos conceitos, pois, para o ocidental, o que se situa além da atividade mental pensante é o inconsciente, enquanto que, para o Yoga, o que fica além dos pensamentos é o reino da consciência pura, do qual a mente ordinária deveria ser apenas um canal de expressão.

Essa divergência radical encontra eco nas diferentes versões de Freud e Jung sobre o inconsciente. Freud descreveu um inconsciente conflituoso e problemático que, subliminarmente, controla nossos atos à nossa revelia. Um sabotador. Muitas vezes, um inimigo. Jung descreveu um inconsciente vasto e sábio, que chamou de Si Mesmo (no original alemão Selbst; no inglês, geralmente adotado o termo Self). Para Jung, o inconsciente age como um guia, enviando-nos mensagens esclarecedoras e orientadoras.

Para o Yoga ambos estão certos, mas falam de coisas diferentes. Jung fala de um inconsciente que sabe mais do que o consciente, um inconsciente que não apenas está além da consciência ordinária, mas que se situa acima dela, embora ele não fizesse essa distinção. O Yoga afirma que essa é a verdadeira consciência, da qual a outra, a pensante, é o sistema de operacionalização. Vamos chamá-la de consciência espiritual.

O inconsciente de Freud é realmente o subconsciente, como ele inicialmente o denominou. A função legítima do subconsciente é funcionar como um arquivo e poupar-nos da necessidade de manter a atenção nos processos repetitivos e rotineiros, como dirigir um carro ou datilografar. Tudo aquilo que está arquivado no subconsciente deveria poder ser trazido ao consciente, sem dificuldade. O subconsciente problemático é constituído por experiências e percepções que implicariam em conflito, e que banimos da consciência porque não nos sentíamos preparados para encará-los e resolvê-los. Como afastá-lo da consciência não significa eliminá-lo, o problema continua existindo, embora fora do nosso alcance.

O Yoga diz que o subconsciente é a morada dos samskáras e das vásanás, as impressões e tendências subconscientes que modelam o nosso caráter. Purificar nossa mente dos conflitos porventura existentes entre o subconsciente, a mente racional e a consciência espiritual é o papel do Kriyá Yoga, tal como descrito por Patañjali, codificador do Yoga mental, o Rája Yoga.

Esse processo de purificação é indispensável para que não façamos confusão entre as intuições que vêm do supramental e os conteúdos que vêm do subconsciente. Para que não confundamos aquilo que é fruto de uma sabedoria superior com aquilo que é irracional.

O objetivo desse Yoga é colocar-nos em contato com as raízes do nosso ser que, diferentemente das raízes vegetais, ficam acima e não abaixo da copa. Essa árvore mítica tem, em sânscrito, o nome de ashvattha. Suas raízes são supramentais e constituem uma forma de consciência superior à consciência ordinária. Trata-se de uma consciência espiritual capaz de discernir o sentido evolutivo da vida e decidir sobre valores: o que é bem, o que é mal e porque. É profundamente diferente da consciência mental, cuja lógica racional pode apenas detectar incoerências e operacionalizar ações.

Toda ação depende de decisões prévias, e toda decisão é tomada a partir de um sistema de valores. Quando esse esquema de valores não é providenciado pela consciência espiritual, será formulado sob a influência dos desejos emocionais e instintivos que provêm de níveis do ser hierarquicamente inferiores à razão. Essa inversão é responsável pelo estado dividido e conflituoso de nosso ser.

Para atingir a grande meta do Yoga e vivenciar a consciência supramental, é necessário realizar previamente uma ampla tarefa, clareando a consciência nos diversos níveis do ser, compatibilizando e hierarquizando sua expressão, de modo que ela possa desempenhar suas funções sem repressão e sem abuso.

Yoga significa união: a união entre instinto, emoção e razão; união da consciência mental com a consciência espiritual. Usando uma linguagem ocidental, a união do ego com o Si Mesmo (ou Self), no que Jung chamou de processo de individuação ou realização da função transcendente, conforme sua terminologia.

Yoga também significa jugo, ou seja, a manifestação organizada e hierarquizada do ser, sem inversões de comando, para que a razão governe sobre a emoção e o instinto, e para que os objetivos concretos não se sobreponham aos valores abstratos de uma verdadeira ética espiritual.

Yoga significa também um estado transcendente além dos vrittis (ondas mentais, pensamentos); significa a dimensão infinita do ser, o eterno agora onde o silêncio é a única resposta de uma presença inexprimível.

Como vemos, não é fácil encontrar uma definição que abranja tudo aquilo que o Yoga é, porque o Yoga é uma prática e um objetivo que engloba o ser do homem em toda a sua complexidade orgânica, psíquica e espiritual.

Enquanto técnica, o Yoga é também globalizante, porque trabalha com todos os níveis da consciência humana: o corpo, a energia vital, as emoções, o pensamento cotidiano, o pensamento abstrato e a intuição. Existem diversos ramos de Yoga, porque existem pessoas com aptidões diferenciadas e temperamentos diversos. Cada um desses ramos trabalha com um nível do ser, aquele com a qual a pessoa tem mais afinidade e com aquilo que representa a linha de menor resistência para ela. Essa característica, que representa uma grande vantagem prática, e é fruto de uma sabedoria que reconhece a diversidade dos seres humanos e de suas necessidades específicas, tem contribuído para confundir as pessoas que adotam uma abordagem superficial a respeito do Yoga.

Encontramos muito freqüentemente sistemas filosóficos ou religiosos que pretendem uma abordagem única e uniformizante, o que conduz à exclusão ou perseguição daqueles cuja própria maneira de ser torna difícil, ou até mesmo impossível, a aceitação daquele caminho. O Yoga compreende que podemos atingir a mesma meta vindo por caminhos que parecem diametralmente oportos, mas que, na verdade, são compatíveis e complementares, vistos a partir de uma perspectiva mais ampla e menos sectária.

Não é fácil para os ocidentais compreender aquilo que o Yoga é. Está muito distante de sua cultura. Assim, confundem o Yoga com ginástica, quando vêem o Hatha Yoga, e confundem-no com religião quando vêem o Bhakti Yoga. Fazem essas analogias porque lembram-se de algo que já conhecem, pertencente ao seu universo mental. Assim, é oportuno esclarecer alguns dos lugares-comuns sobre o Yoga, já que muitas pessoas têm dele uma impressão completamente falsa.

Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga - Conceitos Fundamentais


Texto extraí­do das páginas 25 a 28 do capítulo 1 do livro Yoga Vidya, a Sabedoria do Yoga – Conceitos Fundamentais (Copyright © 1997 Maria Alice Figueiredo – todos os direitos reservados) e digitado por Cristiano Bezerra em 18 de janeiro de 2003.

Maria Alice FigueiredoMaria Alice Figueiredo é natural de São Paulo. Graduou-se em Administração pela UFBA em 1969 e trabalhou em Planejamento e Administração Municipal. Ao ter os seus filhos gêmeos, em 1973, sofreu uma eclampsia com azotenia renal e acidose metabólica que a levou a passar três dias em coma, no limiar da morte. Ao retornar à consciência, viu-se portadora de diabetes e de insuficiência renal, além de severa depressão. Passou então a praticar Yoga durante 3 horas por dia, todos os dias. Saudável desde meados dos anos 70, deixou sua antiga profissão passando por um estágio didático na conceituada Academia Hermógenes de Yoga, no Rio de Janeiro, em 1977, fundando o Yoga Vidya, em Salvador, BA, em 1978. Juntamente com a psicóloga argentina Marta Molinero, criou o Método de Auto-Integração do Ser, que trabalha com o corpo, o psiquismo e a compreensão filosófica dos valores abstratos, tendo como base o Yoga e outros métodos terapêuticos ocidentais de vanguarda. Essa orientação de unir o que de melhor têm o Oriente e o Ocidente partiu de seu mestre na época, o Svami Rama, um grande mestre de Yoga, intelectual e autor de vários livros, que considerava sua missão criar uma ponte entre o Yoga e a ciência ocidental. Fundador do Himalayan Institute of Yoga Science and Philosophy, na Pennsylvania, e de um hospital na região dos Himalaias, o Svami Rama faleceu em novembro de 1996.

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