Como começou a sua jornada pessoal? – entrevista com Robert Broughton

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Robert Broughton» por Juliana Luna

Robert – Minha jornada começou em 1974. Antes disso eu era um músico de rock’n roll, e, como a vida de muitos roqueiros, pode ser uma vida muito agitada e estressante, tão estressante que pode deixar você de joelhos. E isso foi uma grande benção na minha vida. Nessa época eu tinha um amigo que estava praticando Meditação Transcendental, e ele me sugeriu que eu seguisse essa técnica para obter um pouco de paz mental. Então eu tentei, gostei muito e isso me tirou da loucura da vida de roqueiro. E começou a minha jornada para começar a olhar dentro de mim mesmo. Antes disso eu estava focalizado somente em coisas do lado de fora de mim. Nesse tempo eu tinha uma relação amorosa com uma mulher. Antes que essa relação começasse, eu achava que, apenas obtendo o amor dela, isso mudaria a minha vida completamente. Eu obtive o amor dela e isso mudou minha vida por 3 meses. O efeito da droga romântica durou apenas 3 meses. E eu não senti mais diferença de como eu estava antes que a relação começasse. Então eu me dei conta de que o que eu estava buscando realmente era uma coisa dentro de mim. O romance não era a resposta, e a Meditação Transcedental veio no momento correto, e foi assim que essa jornada começou. Temos uma expressão em inglês: “Tenha cuidado com o que você pede, pois talvez você possa consegui-lo”.

Isso foi nos anos 60, quando os jovens começaram a experimentar drogas e viram que certas portas de percepção e certos estados de consciência poderiam ser experimentados através de drogas psicodélicas. E também deram-se conta de que o efeito das drogas sempre terminava e eles estavam de volta ao estado ordinário outra vez. Aqueles que estavam realmente prontos começaram a experimentar maneiras mais naturais, isso levou a uma revolução e a espiritualidade oriental tornou-se muito popular. Esses tipos de práticas estavam conectadas com Hinduí­smo e Budismo, porque também muitos jovens estavam desiludidos com as religiões ocidentais tradicionais.

Alguns dos jovens que faziam usos de substâncias alucinógenas para entrar em diferentes estados de consciência escutaram que na Índia existiam pessoas difí­ceis de se encontrar, chamados de gurus, que viviam em lugares remotos nas montanhas e que sabiam como viver no estado de LSD naturalmente.

Entrevistadora – Você esteve numa jornada parecida indo í  Ásia em busca desse conhecimento?

Robert – O norte-americano Ram Dass (autor do livro Be Here Now) foi para a Índia e encontrou um guru que o ensinou métodos para permanecer no estado natural e lhe falou que voltasse para os Estados Unidos e ensinasse ao maior número de pessoas. Mas quando eu fui para a Ásia na minha busca, voltei para a Austrália e fui internado num hospital psiquiátrico, porque tive um total colapso nervoso. Isso aconteceu porque eu li num livro a história de Buddha, que diz que ele sentou embaixo de uma árvore e não se moveu até que estivesse iluminado. Então eu encontrei uma árvore na floresta no Sri Lanka e sentei lá até que me iluminasse. Mas eu não me iluminei. Fiquei mais confuso e mais raivoso, até que essa confusão e raiva explodiram num surto e eu tive que ser levado de volta í  Austrália. Depois disso alguém apresentou-me a um homem sábio que escutou minha história e disse: “Por que você não para toda essa busca e apenas vai ser um Robert ordinário por um tempo? Você está tentando ser algo que você não é”. Eu nunca havia escutado ninguém falar assim antes. Então eu decidi encerrar minha jornada tentando obter algo e tornei-me um vendedor. E pela primeira vez na minha vida comecei a ganhar muito dinheiro, o que foi uma surpresa. Aí­ eu comprei um apartamento bonito, um carro caro e roupas de marca. Toda noite, depois do trabalho, eu sentava no meu apartamento para ler revistas, assistir televisão e fazer todas as coisas que as pessoas normais fazem. E, seis meses depois disso, eu estava sentado no meu sofá, apenas nada fazendo, e, de repente, a coisa que eu estava buscando desesperadamente por tanto tempo veio por ela mesma, e eu experimentei total paz interior e a mente pensante tornou-se muito calma, o que permaneceu por duas horas. Eu levantei-me e comecei a andar, e um pensamento veio í  minha cabeça: “O que foi isso?”. E um segundo pensamento veio: “Como posso obtê-lo outra vez?”. Então eu ri muito, porque vi como esses pensamentos eram ridí­culos, pois essa coisa veio por ela mesma, e a mente pensante estava tentando agarrá-la. Então eu me dei conta que esse havia sido o problema o tempo todo, quando vi que o que todos nós estamos buscando é essa paz, e isso não pode ser obtido através da mente pensante. Então eu continuei meu trabalho como vendedor, dando-me conta de que a minha jornada não havia acabado, mas apenas transformado-se, e que essa paz viria todos os dias naturalmente. Vi também que não existia nada que eu pudesse fazer a respeito, além de simplesmente entregar-me completamente.

Entrevistadora – Como é a diferença que você faz entre alegria interior e exterior?

Robert – Existe um tipo de alegria que é conectado com o que obtemos do lado de fora, quando você ganha na loteria ou encontra um novo amor. Mas, estatisticamente, a maioria das pessoas que ganham na loteria fica pobre outra vez. Tudo o que obtemos no mundo externo obviamente pode ir e vir. Esse tipo de felicidade vem de algo exterior a você: quando essa coisa se vai, a alegria também se vai. Existe outro tipo de alegria que não está conectada com as circunstâncias exteriores, e isso eu chamo de a alegria do estado natural, que não está conectada com nada que você obtém do lado de fora. Essa alegria vem quando paramos de buscar felicidade no lado de fora. Isso não quer dizer que você senta e morre. A vida ainda é vivida, mas numa perspectiva diferente. Existe uma realização que as coisas exteriores nunca proporcionarão. A paz que você busca e essas coisas perdem um pouco a sua importância, e normalmente ficamos felizes em passar um pedaço do dia sozinhos, em silêncio, não estando tão ocupados o tempo todo, perdidos na vida exterior.

Entrevistadora – Como consiste o seu trabalho para chegar ao Aqui e Agora?

RobertA felicidade interior vem de se estar conectado com o momento presente. Uma palavra útil de utilizar do inglês é stillness, que quer dizer mais do que felicidade ou alegria. Felicidade é uma parte dela, é também estar quieto em silêncio, parar o movimento do corpo completamente e estar sentado imóvel, mas a qualidade de stillness pode estar presente quando você move-se fisicamente e começa a fazer coisas normais. Tem a qualidade de vivacidade ou energia, e eu entendo que não existe uma palavra em português que traz tudo isso junto. í s vezes é útil utilizar palavras de outra lí­ngua. Stillness expressa essas três qualidades: estar satisfeito de dentro e não buscando na mente, no futuro e no passado, nossa paz e satisfação, porque nunca poderão ser encontradas lá, mas são encontradas apenas no momento presente, no agora.

Entrevistadora – Você tem um método para fazer isso?

Robert – Eu não chamaria o meu trabalho exatamente um método, mas sim de olhar as maneiras com que nós evitamos o Agora e como a mente pensante tenta controlar a realidade e nos evita de viver o momento presente. Nos workshops que eu ministro, dou o nome Contagem Regressiva para o Agora, onde contamos de 5 até 0.

O número 5 são as cinco partes do corpo onde a energia fica bloqueada. Esses bloqueios de energia são causados pela mente pensante tentando controlar o fluxo de energia no corpo, e a mente pensante não é capaz de fazer isso. A energia só flui no corpo quando a mente perde seu controle. Quando a mente está tentando controlar, existem cinco lugares principais onde a energia bloqueia-se no corpo: os ombros e o pescoço, a garganta, o peito e o coração, o estômago, que é o centro de poder, e a área sexual. Esses são os lugares principais, mas não os únicos.

O número 4 são os quatro movimentos que fazemos da mente pensante ao momento presente: da mente aos sentimentos, dos sentimentos í  intuição e da intuição ao ser. O primeiro movimento que fazemos é retirar a atenção dos pensamentos e trazê-la para as emoções. A maioria das pessoas não sabem como elas se sentem emocionalmente de momento a momento, e a expressão de como as pessoas realmente se sentem é um total tabu na nossa sociedade. Uma vez que realizamos esse primeiro passo de mover a atenção dos pensamentos para as emoções e encontramos a coragem para expressar os sentimentos, nossa intuição nos dirá quando é o momento apropriado para expressá-los e quando não. E a nossa intuição nunca mente, mas a mente pensante sempre mente. E quanto mais começamos a viver a nossa intuição, mais estamos conectados com o momento presente e mais do nosso ser brilha através dos olhos. Existe sempre algum ser brilhando nos olhos das pessoas, a não ser que se esteja morto, drogado ou bêbado. Ocasionalmente, quando encontramos uma pessoa e nos olhos dela algo está muito poderoso, então é fácil dizer que essa pessoa é mí­stica ou espiritual. Essa pessoa apenas está mais conectada com o momento presente, então o estado natural do ser brilha através dos seus olhos, e isso é algo que qualquer um de nós pode fazer. A questão é que estamos habituados a viver no estado normal, mas não no estado natural. Vivemos identificados com nossos pensamentos, e assim no futuro ou no passado. Podemos chamar de estado normal porque existem muitas pessoas vivendo nesse estado, cerca de 6 bilhões. Até agora apenas poucas pessoas conseguiram sair desse estado normal, mas agora mais pessoas estão começando a entender a diferença entre normal e natural, e estão começando a viver passo-a-passo num estado mais natural. Esse é o próximo estado de evolução da espécie humana: sair desse estado de identificação com a mente, que também podemos chamar de egóico, ou o viver baseado no ego, que é o estado normal. Quando vivemos nesse estado normal nos vemos como separados de tudo. No estado natural vemos como estamos conectados com tudo e que tudo conecta-se entre si. Quando começamos a mover-nos mais e mais nesse estado, haverão menos guerras e conflitos nesse planeta, porque mais você vê que está conectado com tudo. Assim, por que você machucaria outras pessoas? Ou roubar ou destruir a natureza, porque você vê que tudo isso é você. Quanto mais as pessoas resistem a esse movimento, mais elas sofrem. Aqueles que não resistem entram facilmente no fluxo da vida. E se movem para o próximo estado da evolução.

Entrevistadora – Esse estado natural é permanente ou ele vem e vai?

Robert – Por muito tempo ele vai e vem, e gradualmente esse estado em si mesmo simplesmente puxa você para dentro, até que você esteja permanente nele.

O número 3 são as três leis do universo: a primeira é a lei do medo, que diz que tudo o de que você tem medo, atrai para si, até que você se torne consciente o suficiente para liberar-se desses medos. Quando você começa a superar medos por si mesmo, essa lei não aplica-se mais para você, e é apenas para ajudar-nos a nos mover no estado natural.

A segunda lei é a lei da aversão: tudo o que não gostamos nas outras pessoas é algo que não gostamos em nós mesmos. Somos todos espelhos uns para os outros.

A terceira lei é a lei da doação, que diz que o que você mais quer na vida, comece dando para os outros, e para a maioria de nós é dinheiro e amor. Portanto, comece por dar essas coisas.

O número 2 são as duas caracterí­sticas do viver inconsciente: quando vivemos identificados com a mente, quando alguém diz ou faz algo e começamos a sentir-nos com raiva (pitta), medo (vata) ou tristeza (kapha), normalmente acusamos outra pessoa e começamos a vitimizar-nos: “Porque isso sempre acontece comigo? A vida é horrí­vel”. Nesse estado normal podemos ser uma ví­tima, mas no estado natural tornamo-nos mestres. Sempre que sentimos raiva (pitta), tristeza (kapha) ou medo (vata), podemos questionar-nos: “O que eu posso aprender disso?”. E assim pararmos de acusar as outras pessoas, e na verdade começamos a agradecê-las por dar-nos essa oportunidade de aprendermos algo sobre nós mesmos.

O número 1 é o pensamento que está dirigindo a maioria da pessoas, e está profundamente programado no inconsciente diretamente acima dos instintos primários de sobrevivência e sexo. Esse pensamento é programado dentro de nós quando somos pequenos e começa a dirigir nossas vidas: o pensamento “eu não sou bom o suficiente”. E, quando somos adultos, esse pensamento não aparece claramente na cabeça, mas disfarça-se: você sente medo das coisas, acha que nunca obteria aquele emprego, que aquela pessoa nunca gostará de você… E de muitas outras maneiras esse pensamento nos impede de viver completamente e encontrar toda a nossa energia natural, o nosso poder, e de estarmos conectados com o momento presente.

O número 0 é o stillness, o silêncio e o vazio.

Não é um método, mas apontar todas as maneiras como perdemos o momento presente. Todas as maneiras em que estamos vivendo na mente, no estado normal, em que todos estão, e não conectados com quem realmente somos.


Entrevista originalmente publicada em www.julianaluna.com e realizada por Juliana Luna em maio de 2007 na cidade de São Paulo.

Visite o site de Robert Broughton em www.robertbroughton.com

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