Entrevista com Rodrigo Gomes Ferreira no eYoga.com.br

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O professor fala sobre os estudos de Vedanta e sânscrito
e sua experiência como Editor dos Cadernos de Yoga

Rodrigo Gomes Ferreira» por Renata de Sá

eYoga » Você foi Editor de uma publicação considerada muito filosófica. O que o Cadernos de Yoga acrescentou na sua vida?

Rodrigo Gomes Ferreira » O Cadernos de Yoga surgiu com a intenção de oferecer o estudo do Yoga ligado com seu contexto, a tradição védica, com profundidade. Também queríamos uma publicação com ampla distribuição e que ajudasse no senso de comunidade dos praticantes de Yoga no Brasil, bem como dar visibilidade aos bons professores e trabalhos de praticantes. Nesse projeto tive contato com pessoas maravilhosas, com quem aprendi, desde sobre o conteúdo dos textos, até sobre o viver profissionalmente em um contexto espiritualizado, ao lidar com pessoas de todos os jeitos.

eYoga » Por quanto tempo você foi Editor? Hoje em dia não é mais. Por que?

Rodrigo Gomes Ferreira » Trabalhei na edição desde a criação, em 2003, até o início de 2008. Hoje não sou mais o Editor e estou focado no estudo e ensino de Vedanta e algumas outras disciplinas. Esse novo foco profissional exigiu uma reorganização nos meus trabalhos. Os Cadernos de Yoga exigem grande dedicação, que tive sintonia nesses anos todos. Agora estou em outra fase e numa nova maneira de me expressar. Foi uma decisão difícil e importante me abrir a essa mudança. Fico contente em ver que tenha dado certo. O projeto segue bem e acho ficará melhor do que antes. A nova equipe, formada pelo Tales Nunes e Christine Gabler, tem habilidade e está bem empolgada.

eYoga » Qual a importância, para um praticante de Yoga, do conhecimento filosófico?

Rodrigo Gomes Ferreira » A Filosofia, não no sentido do fenômeno grego, mas no conhecimento da realidade fundamental, dentro do mesmo contexto cultural do Yoga, que tem uma ótima expressão no Vedanta, mostra ao praticante de Yoga o sentido das práticas. Em outras palavras, o conhecimento de Vedanta mostra o que deve ser focado para que tenhamos um ganho real. Isso, sem dúvida, fará a diferença entre se chegar a uma liberdade ou se perder em uma experiência de aprisionamento com nome indiano.

eYoga » Há quanto tempo e como o Yoga entrou na sua vida?

Rodrigo Gomes Ferreira » No ano início de 2000, quando tinha 19 anos, com práticas de Ashtanga Vinyasa Yoga do Pedro Kupfer e da Camila Reitz, no Yogashala, em Florianópolis. Foi um ótimo início e sou muito grato a eles por terem me proporcionado essa entrada de maneira responsável e ampla. Hoje, ainda tenho uma prática constante de Hatha Yoga, quase só em casa, e diferente daquele início. Meu agora são as disciplinas de conhecimento, o Jñana Yoga, ou Vedanta, que tenho com aulas da Gloria Arieira, do Vidya Mandir. Mas o que melhor poderia definir o Yoga para mim hoje é o estilo de vida integrado que procuro levar. Com o tempo também incorporei muito de “outros Yogas”, como a devoção (Bhakti) e da ação (Karma). Essas várias possibilidades me dão hoje a oportunidade de aproveitar qualquer situação como um exercício, como uma prática de Yoga.

eYoga » O que você considera essencial para o autoconhecimento?

Rodrigo Gomes Ferreira » O desejo pela libertação da sensação de aprisionamento, o desejo de conhecermos nossa natureza plena, livre de limitações. Ou seja, não postergar a busca pela resolução dos conflitos existenciais e entrar a fundo no discernimento dessa questão. Também fará muita diferença se esse processo estiver sob a guia de um professor qualificado com quem você tenha uma relação de confiança e de aprendizado. Outras questões importantes que poderia citar são: o cultivo do discernimento sobre a eternidade e a impermanência da vida, abrir mão do que atrapalha nesse processo, uma “boa amizade” com a própria mente, principalmente com as emoções, e um forte e tranquilo empenho.

eYoga » O que você indicaria para os iniciantes na prática?

Rodrigo Gomes Ferreira » Observe que o bom resultado da prática é aquele que traz a capacidade de lidarmos com a vida como ela é, e não de mudar a vida para lidarmos melhor com ela. Podemos até gerar mudanças concretas depois que expandirmos nossa percepção, mas isso virá naturalmente, e não deve ser o foco. Foque o resultado duradouro, que é uma mudança de atitude. Cuidado com a busca por experiências, pois a liberdade é somente liberdade se pudermos perceber que estamos livres em qualquer experiência, mesmo as “mundanas”. A experiência da felicidade é também só uma experiência.

eYoga » Dos yamas e niyamas, quais são aqueles que considera os mais importantes e como aplica na sua vida?

Rodrigo Gomes Ferreira » Dos yamas, a verdade, que me guia para um agir mais integrado e que me puxa para os outros yamas. Dos niyamas, à entrega ao Criador, o cultivo da abertura para os resultados das ações como fruto da inteligência cósmica, que me permite aprender a fluir e perceber que sempre tenho o melhor, apesar de nem sempre o mais agradável.

eYoga » Você é um estudioso de Vedanta. Quais são os aspectos que julga mais importantes ou as passagens mais marcantes dos Vedas para sua vida?

Rodrigo Gomes Ferreira » O mais importante dos Vedas para mim são as partes finais, justamente aquelas que se chama Vedanta (final (anta) do Veda), o conhecimento da identidade do indivíduo e do todo. As passagens mais marcantes que tenho hoje, no estudo de Vedanta, não é dos Vedas propriamente tido, mas da Bhagavad Gita, que também trata do tema e está na mesma tradição. Um verso que gosto é o 24 do capítulo II, na tradução da Gloria Arieira: “Sua escolha é somente quanto à ação, jamais quanto aos resultados das mesmas. Não tenha o resultado da ação como seu motivo, tampouco esteja sujeito à inação”.

eYoga » Você acha que o conhecimento do sânscrito é essencial para um professor de Yoga? Além de professor de Yoga, você dá aulas de sânscrito? Quais são as dificuldades de aprender essa língua?

Rodrigo Gomes Ferreira » Não acho que seja essencial, mas pode ajudar na compreensão da literatura original e, dessa forma, de mais aspectos do contexto cultural do Yoga. Esse entendimento pode fazer muita diferença para saber o que faz do Yoga ser Yoga. Dou aulas introdutórias, pois ainda estou no processo de aprendizado. Acho que a maior dificuldade pode ser uma maravilhosa característica desse idioma. A grande capacidade de especificação da função de cada palavra nas frases gera, por exemplo, muitos sufixos (terminações), mas que permitem uma grande clareza e liberdade de expressão. No início, também, há a dificuldade com a própria grafia e o reconhecimento de cada palavra em separado, pois geralmente são grafadas todas juntas e, nesse processo, transformam-se.

eYoga » Quais são os seus mestres e livros que te inspiram?

Rodrigo Gomes Ferreira » Gloria Arieira, professora de Vedanta do Vidya Mandir, no Rio de Janeiro, a quem devo tudo o que sei sobre Vedanta e o que esse conhecimento me proporcionou. Um livro que sempre me inspira é a Bhagavad Gita, por tratar da nossa realidade fundamental de forma próxima à nossa vida “mundana”, principalmente com os comentários da Gloriaji. Arjuna, um dos principais personagens no livro, tem conflitos como os nossos, e dificuldades para entender o ensinamento. E Krishna, o outro grande personagem, com a paciência que só um mestre poderia ter, para aplacar as dúvidas de Arjuna, acaba explicando tudo o que precisamos saber, de diferentes formas, com diferentes temas, várias vezes. Não só um tipo de Yoga é explicado, mas vários, o que monta um estilo de vida, uma vida de autoconhecimento.



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Rodrigo Gomes Ferreira é professor de Vedanta, meditação e sânscrito. Para saber mais, entre no seu site www.vedanta.pro.br

Entrevista originalmente publicada em 15 de dezembro de 2008 na coluna Yogi » No tapetinho com… do site www.eyoga.com.br da revista Prana Yoga Journal, e republicado em www.yogajournal.com.br.

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