Os gurus ensinam: viveka, vairagya e mumukshutvam

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Patãnjali fazendo anjalimudra» por José Hermógenes (1921-)

A austera disciplina (tapas), a pesquisa do Ser (svadhyaya)
e a auto-entrega a Deus (
Ishvarapranidhana) constituem o Kriya Yoga.
Kriya Yoga atenua as dificuldades da mente causadoras do sofrimento
e conduz à união com o Divino.

Yoga Sutra, II:1-2


Quanto mais rico o tesouro, mais árdua sua conquista. Tesouro mais caro do que a imersão feliz em Deus não há. Por isso as advertências dos grandes Mestres da humanidade: “estreita é a porta”, e o caminho, angustiante; “de mil homens, um se põe a caminho, e de mil caminhantes chega apenas um”; “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha…”.

Mesmo assim, temos de caminhar: com a esperança a atrair-nos; com o coração sempre sedento; com a mente lúcida e pura afastando as falácias; com as mãos vazias de efêmeros pertences e pretensos valores.

Os mestres do Yoga dão a seus discí­pulos as armas para a luta, as instruções para a vitória. Aos aspirantes ao Infinito, aos caminhantes, aos yogins, aos devotos, não devem faltar: viveka; vairagya e mumukshutvam.

Insistem sempre em que dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, incessantemente, desperto e mesmo até dormindo, aprimorem o sadhana, isto é, a disciplina (prática), observando: tapas, svadhyaya e Ishvarapranidhana.

Viveka

Viveka é a Luz do discernimento, que possibilita ver as coisas como as coisas são, que desmascara aparências, desfaz sofismas, e evita que, sofrendo ou gozando, buscando ou fugindo, sigamos enganados e engajados no mundo.

Não atingem a meta os que confundem: os meios com o Fim; o perecí­vel com o Eterno; o não-ser com o Ser; o finito com o Infinito; os fenômenos com o Nômeno; o mundo (samsara) com o Nirvana; Mammon com Deus; o eu com Ser; as aparências falazes com a Realidade última.

Viveka nos esclarece sobre o que, em nós mesmos, é autenticidade ou hipocrisia; o que, no caminho, é caminho ou desvio; o que é certo ou errado.

Viveka – dando-nos “olhos de ver e ouvidos de ouvir” – é condição inicial e essencial. Sem discernimento espiritual, continuarí­amos a diversão samsárica, e impossí­vel seria a conversão, o arrependimento, o enfastiamento diante da frustração… Sem viveka, pensando que buscamos Deus como o Fim, nós o utilizamos como um simples meio de gratificação do eu.

Sem viveka, o agir no mundo escraviza; o amor não unifica, separa; o saber obscurece; a razão se vende; a caridade corrompe; a humildade apenas humilha; a devoção fanatiza; o desapego cria ví­nculos; a necessária cultura do corpo se faz em narcisismo…

Viveka afasta a venda dos olhos, deslumbra a mente e ilumina a própria estrada.

Por isso, repetem os Mestres: “Sem viveka impossí­vel é a realização de Deus”. Embora já empenhada na luta, na estrada, a alma, sem viveka, pode ainda voltar a sentir saudades do mundo que pretensamente abandonou.

Vairagya

Se você ainda crê que o mundo, com tudo que oferece aos que são do mundo, ainda lhe pode dar felicidade, paz, plenitude, segurança…; se ainda se acha fascinado e entregue ao mundo, longe está de poder caminhar no rumo do Eterno. “Ninguém pode, ao mesmo tempo, servir a dois senhores”, e os dois senhores são distintos: Deus e Mammon, Nirvana e samsara! Aquele que ainda está sujeito e esperançoso, envolvido e preso, sempre desejará voltar, não para o Reino, mas para o mundo que o chama e ele escuta.

Apego (às coisas, às situações, às pessoas, às ideologias, às seguranças, ao status, a aplausos… tão necessários ao eu) é carga descomunal atada às costas do pseudocaminhante. E ninguém avança quando demasiadamente carregado. O volume dos objetos do apego impossibilita atravessar a “porta estreita”.

Por isso os Mestres sugerem: “Aliviem-se da carga! Vairagya! Renunciem!”.

Há renúncias mais fáceis. É bom começar por elas. Outras, mais difí­ceis, acontecerão depois, à medida que o discernimento cresce, à medida que a dor nos amadurece e as desilusões nos esclarecem.

A última e mais difí­cil renúncia é ao eu, ao eu tão indispensável aos que, divertidamente, se entretêm no mundo.

A decisiva e real renúncia ao eu opera o milagre: os olhos se abrem e conseguem ver que a “porta estreita”, a “estrada angustiante”, a distância, a fragmentação já não existem e jamais existiram, e que nada existe senão o Uno sem segundo.

Vairagya, sem viveka, desequilibra, corrompe e destrói. Ele não pode ser prematura. Ai daquele que, pensando em ter renunciado ao mundo, por uma série de atitudes e atos externos, continua ligado ao mundo. Ela não pode ser falsa e forçada, pois não tem condições de subsistir.

A renúncia é real e irreversí­vel quando a alma desperta e, natural e espontaneamente, não tem mais qualquer desejo pelos valores antigos. Uma jovem mãe não tem qualquer interesse pelas bonecas de sua infância.

Aos que pretendem renunciar, a advertência dos Mestres: Prudência! Discernimento!

Não é o traje sacerdotal nem a filiação a um grupo renunciante que significam renúncia. Renúncia de aparência é traição a si mesmo. É um meio de fazer-se uma imagem e de impressionar outrem…

Passo a passo, de amadurecimento em amadurecimento, de deslumbramento em deslumbramento, de desilusão em desilusão, a alma vai se desapegando, largando a carga-óbice…

Sem vairagya – insistem os Mestres – a distância continua.

Mumukshutvam

Não atinge a meta o caminhante que não aspira chegar.

Mumukshutvam é o anseio pela libertação. É a sede que leva o sedento a procurar a “Vida”, o perdido a buscar a “fonte de Água Viva”, o semi-vivo a procurar a “Vida”, o perdido a buscar o “Caminho”, o faminto, o “Pão”…

Para o aspirante nada mais importa, nada mais é querido, nada mais pretendido… Só a libertação o motiva e move.

Àquele que quer chegar, nenhum obstáculo o detém, nenhuma fadiga o retém, nenhum gostoso desvio o conquista…

Só o Reino o atrai. E ele sente a necessidade de chegar. Para a sua sede, de nada valem as águas que encontra. Para a sua fome, só o “Pão” é nutrição.

Poderes maravilhosos, hierarquia sacerdotal, discí­pulos e sectários, admiração e adoração de incautos, auréola de santidade, coleção de virtudes, renome, aplausos…, puros “acréscimos”. O que ele quer, total e definitivamente, é o “Reino”.

Para ele, fácil é vairagya. Distinguindo entre os “acréscimos” e o “Reino”, sem esforço, não vê mais valor nos “acréscimos” enganosos e, com decisão, avança invencí­vel e infatigável para o Reino, que se abre para festivamente acolhê-lo.

É por tudo isso que os Mestres repetem: sem viveka, sem vairagya, sem mumukshutvam, um cristão não se cristifica, um buddhista não realiza o buddhato, um judeu não chega a Jeovah, um maometano não alcança Allah…

Yoga: caminho para Deus


Texto extraí­do das páginas 34 a 39 da 12ª edição, de 1996, do livro Yoga: caminho para Deus (1984), de José Hermógenes (Editora Nova Era, Rio de Janeiro), e digitado por Cristiano Bezerra em 14 de junho de 2001.

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