O novo momento do Yoga

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Pedro Kupfer» Entrevista com Pedro Kupfer por Marcela Buscato

Esta entrevista sobre o novo momento que o Yoga está vivendo em nossa sociedade fez parte do trabalho de pesquisa da jornalista Marcela Buscato, da revista Época. Compartilhamos aqui, com nossos amigos e leitores, seções da mesma que não foram publicadas nesse semanário, esperando que gostem e desfrutem. A reportagem da Época, originalmente publicada em 31 de janeiro de 2011, pode ser lida em www.epoca.com.br.

Marcela Buscato: Depois de ler alguns livros e conversar com alguns profissionais, percebi que o Yoga parece viver um novo momento, e está sendo redescoberto como uma prática para quem quer buscar o equilíbrio, não necessariamente seguindo toda a filosofia da religião.

Pedro Kupfer: Em verdade, essa é outra leitura do Yoga, um pouco menos rasa, do que a visão que se tinha no meio da década de 1990, quando as academias de ginástica foram invadidas pela versão mais “física” do Yoga.


Marcela Buscato: Você sentiu essa mudança? Houve um aumento no número de alunos que estão procurando o Yoga não pelos benefícios físicos nem pelo aspecto transcendental, mas para buscar equilíbrio e autoconhecimento? Em caso afirmativo, o que você acha que provocou essa mudança (o Yoga não é mais nem coisa de bicho grilo nem uma moda de academia)?

Pedro Kupfer: Sim, percebi essa mudança. Tenho a impressão de que ela se deve ao bom trabalho feito pelos próprios professores de Yoga, no sentido de esclarecer à opinião pública que Yoga não é ginástica.

Desde a minha percepção, nunca deixou de haver gente interessada nas metas originais do Yoga, que são o autoconhecimento e a liberdade. Porém, a quantidade de pessoas que buscam o Yoga apenas pelos seus benefícios parece haver diminuído.

É como se a comunidade inteira dos praticantes de Yoga tivesse amadurecido de maneira grupal.

Marcela Buscato: Por que as mulheres são o maior público? Conversei com muitas que se disseram estressadas com a vida de mãe, esposa, profissional e partiram para o Yoga para encontrar equilíbrio. Você já percebeu isso nas suas alunas?

Pedro Kupfer: É um fato que a maioria dos praticantes de Yoga da atualidade, aqui no Ocidente, corresponde ao sexo feminino.

Embora pessoalmente eu acredite que não há diferenças essenciais entre homens e mulheres, parece haver sim uma diferença na maneira de escolher as soluções que ajudem a administrar o estresse e a pressão que a sociedade impõe às pessoas.

Assim, uma maioria de mulheres parece ter reconhecido no Yoga uma solução eficiente para reencontrar o equilíbrio, a serenidade e a qualidade de vida. Mas isso não significa que muitos homens não tenham igualmente percebido que essa solução é tão eficiente para eles quanto o é para as mulheres.

Marcela Buscato: Como explicar que o Yoga fornece esse equilíbrio e autoconhecimento que as mulheres buscam? Quais são os aspectos e os elementos da prática que ajudam a manter a calma e a concentração?

Pedro Kupfer: A prática de Yoga funciona em níveis diferentes: fisicamente falando, ativa e estimula de maneira positiva o sistema endócrino. Isso se traduz, por sua vez, em sensações de bem-estar, serenidade e equilíbrio. Além disso, ajuda bastante na manutenção da saúde, regula o apetite e aumenta a longevidade. Esses benefícios acontecem a partir da prática das posturas físicas e dos exercícios respiratórios, chamados, respectivamente, asanas e pranayamas.

Emocionalmente falando, o Yoga nos ensina a a aceitar de maneira equânime as circunstâncias e desafios que a vida nos coloca. Isso se traduz numa postura mais serena e numa melhor disposição no cotidiano. O relaxamento e os exercícios de concentração tomam conta dessa esfera.

Na esfera mental, o Yoga tem como efeitos mais evidentes deixar o praticante em estado de equilíbrio, cultivando a aceitação, tanto de si próprio como das circunstâncias externas. Isso acontece como efeito das práticas de meditação e auto-observação, onde a pessoa aprende a observar sua própria mente e evitar as reações mecânicas e os condicionamentos.

Marcela Buscato: Você acha que é possível praticar o Yoga sem crer em uma busca pelo divino ou transcendental?

Pedro Kupfer: Sim, claro. Inclusive porque há muitas diferentes interpretações do que seja a meta do Yoga. Dentre elas, há gente empenhada numa “busca pelo divino”, como você diz, o que aproxima as versões do Yoga que elas praticam da religião, e outras que colocam a ênfase no autoconhecimento, na reflexão e na aplicação desse conhecimento no cotidiano, como é o caso da linha que pessoalmente eu sigo.

Algumas formas de Yoga pedem a mesma fé que a religião exige. Outras pedem que a pessoa compreenda quem ela é, sem apelar a nenhum tipo de crença. Essa flexibilidade que o Yoga apresenta o torna muito versátil e atraente nos dias atuais, quando algumas das grandes religiões parecem ter perdido a força, e as pessoas não se contentam nem se preenchem com o materialismo nem com o humanismo.

Marcela Buscato: O que é o Yoga para você? Uma religião, uma filosofia, um exercício físico?

Pedro Kupfer: Para mim, o Yoga não é nem religião, nem filosofia (muito menos, um exercício físico), mas uma visão da vida e da maneira de olhar para ela. Desde dentro da cultura da Índia, onde o Yoga nasceu, ele é chamado darshana, ou ponto de vista” sobre a realidade.

Prefiro não usar a palavra filosofia, pois aqui no Ocidente ela está vinculada a sistemas de pensamento nascidos da mente de alguns pensadores que desconstroem o que a geração anterior construiu e colocam outras ideias no lugar daquelas, enquanto que o Yoga lida com aquilo que é universal e eterno, que não muda: os valores universais e suas diferentes aplicações, bem como as formas de encontrar a felicidade e a liberdade que são inatas a nós mesmos. Filosofias vão e vem, como opiniões e teorias. A visão (o darshana) permanece.


Entrevista originalmente publicada em 2 de fevereiro de 2011 em www.yoga.pro.br

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