O que é Yoga? por Karin Heuser Wolff

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Aluna Raquel em sua aula de Yoga em casa em março de 2017. Foto por Cristiano Bezerra.

Aluna Raquel em sua aula de Yoga em casa em março de 2017. Foto por Cristiano Bezerra.


» por Karin Heuser Wolff

Existem várias linhas, vários métodos de Yoga, e neste artigo pretendo apresentar um apanhado geral do que é o Yoga, suas técnicas, o sistema de Patañjali e a ética do Yoga nos yamas e niyamas.

A palavra Yoga deriva da raiz sânscrita yuj, que significa jungir, atar, reunir, religar, dirigir e concentrar a atenção sobre, usar e aplicar. Significa também união ou comunhão, além de uma atitude da consciência que permite a alguém encarar a vida em todos os seus aspectos com equanimidade.

O Yoga é também descrito como a sabedoria na ação ou a arte de viver com harmonia e moderação em meio às atividades. É estar em qualquer lugar, mas presente no que se está fazendo. É um estado constante de auto-observação, integração e união com tudo que o rodeia e consigo mesmo. É sentir-se parte integrante da vida, da natureza, do universo. Mas Yoga é também trabalho, estudo e principalmente prática, para continuar a renovação e manter os estágios já atingidos.


Na prática do Yoga se busca uma boa integração do corpo, emoções, mente e consciência. Um corpo saudável e com vitalidade, entre todos os requisitos, é o mais básico para esta viagem que é a vida. E o Yoga restabelece a relação primitiva entre o corpo e a mente e devolve equilíbrio ao organismo. O Yoga nos ensina a entender o corpo e a desenvolver a sua sabedoria e inteligência original, através dos asanas, que são as técnicas corporais.

Cada individuo é livre para escolher a forma de Yoga que está em afinidade com o seu caráter, suas aspirações e suas capacidades, ou pode, a seu gosto, recorrer a uma combinação particular dessas diferentes formas. A Bhagavad Gita, texto central do hinduí­smo, nos dá a esse respeito o exemplo de uma fusão harmoniosa das diferentes vias de abordagem, em seus dezoito capítulos, cada um dos quais com o nome de um Yoga diferente.

O legado do Yoga foi transmitido oralmente de mestre a discípulo por muitas gerações. A palavra sânscrita que designa essa transmissão de conhecimento é parampara, que significa um depois do outro. Muito foi acrescentado, e muito foi abandonado ou alterado. O Yoga não é, de maneira alguma, um todo homogêneo. Os pontos de vista e práticas variam de escola para escola. Não há apenas um Yoga, mas uma variedade de caminhos yogikos e abordagens com estruturas e objetivos teóricos contrastantes, mas todas essas linhas pretendem levar o praticante ao estado de não condicionamento, o estado de libertação, chamado de moksha.


Historicamente, o mais significativo de todos os tipos de Yoga é o sistema clássico de Patañjali, também chamado de Yoga Darshana. Esse sistema representa o resumo de muitas gerações de cultura yogika. Patañjali não criou o Yoga, mas limitou-se a sintetizar o conhecimento védico no Yoga Sutra, ou Aforismos do Yoga, que foi composto em uma época que varia, segundo os eruditos, entre os séculos II a.C. e IV d.C.

Essa obra, de extrema concisão, desenvolvida posteriormente por numerosos comentários, forma o texto base do Yoga como Darshana, isto é, um dos seis pontos de vista sobre a Realidade última e os modos de aproximar-se dessa Realidade.

O sistema de Patañjali é também chamado de Ashtanga Yoga, um Yoga em oito (ashta) partes (angas), ou oito membros. A palavra anga quer dizer membro, ou parte constituinte de um corpo. No presente contexto, obviamente designa as oito subdivisões em que a técnica yogika está dividida.

Esses oito membros são:

    1) Yama: relacionamento com o mundo exterior;
    2) Niyama: relacionamento com o mundo interior;
    3) Asana: estabilidade e conforto na postura;
    4) Pranayama: manipulação da energia vital;
    5) Pratyahara: cessação da influência dos estímulos externos;
    6) Dharana: concentração em um único objeto;
    7) Dhyana: meditação, quando o processo de concentração adquire fluidez;
    8) Samadhi: compreensão real do objeto escolhido em dhyana.


Yama e niyama trazem equanimidade ao yogi e o mantêm em harmonia com seu semelhantes. Os asanas conservam o corpo saudável, forte e em sintonia com a natureza. Por fim, o yogi fica livre da consciência do corpo, conquistando-o e tornando-se um veículo apropriado para atingir os estágios mais adiantados de consciência. Os primeiros quatro estágios são os esforços exteriores (bahiranga sadhana).

O estágio seguinte, pranayama e pratyahara, ensinam o praticante a utilizar os sentidos de acordo com o seu sankalpa, direcionando assim a mente. Isso ajuda a liberar os sentidos dos objetos. A partir daqui os angas são conhecidos como antaranga sadhana.

Dharana, dhyana e samadhi constituem o samyama (atmaranga sadhana). São as técnicas essenciais do Yoga, passos progressivos do mesmo processo contínuo, diferindo entre si somente no grau de concentração e na presença de certas condições definidas e bem marcadas, que distinguem um estágio de concentração do anterior. O resultado da aplicação de samyama com sucesso é, naturalmente, o conhecimento da Realidade que se procura conhecer. E, como cada fração do verdadeiro conhecimento é associada com o poder correspondente, samyama aplicado em um objeto leva ao desenvolvimento de um poder específico associado com esse conhecimento.


Os 5 yamas são:

1) Ahimsa: significa que devemos sempre nos comportar com consideração e atenção aos outros. Também significa gentileza, ser amigável com outros e consigo mesmo. Em todas as situações devemos tomar uma atitude considerada pacífica. Ahimsa cria uma aura de paz que neutraliza sentimentos de inimizade.

2) Satya: significa falar a verdade. É necessário considerar o que falamos, como falamos, e como isso afeta os outros. Satya não deve entrar em conflito com ahimsa. Satya faz com que suas palavras tenham o poder de se realizar.

3) Asteya: Steya significa roubar. Asteya é o oposto. Não devemos pegar nada que não nos pertence, ou tirar vantagem de quem nos confia algo. Observar asteya faz com que obtenhamos, sem esforço, tesouros de todo tipo.

4) Brahmacharya: essa palavra é composta da raiz char, que significa mover-se, e da palavra Brahma, que significa verdade essencial. Podemos entender brahmacharya como um movimento em direção ao essencial. É mais usado em termos de abstinência sexual. Mais especificamente, brahmacharya sugere que devemos formar relacionamentos que nos façam entender as verdades mais nobres. Isso torna o praticante vitalizado, forte e saudável.

5) Aparigraha: significa pegar somente o que é necessário e não tirar vantagem das situações. Faz vir à tona as lembranças de vidas anteriores.


Os 5 niyamas são:

1) Shaucha: significa limpeza, tanto interior quanto exterior, pureza no coração, na mente e no corpo, pureza em pensamento, palavra e ação. “Aquele cuja mente se tornou pura pela concentração e entrou no Si mesmo, sente uma alegria que não se pode descrever por palavras, e que só é inteligível ao instrumento interior, à psique”. (Maitrayaniya Upanishad).

2) Santosha: significa modéstia e a sensação de estar contente com o que se tem. Aceitar os acontecimentos, encarando com equanimidade o sucesso e o fracasso, o prazer e a dor, saindo da dualidade e contente em ser quem é e com este momento da sua vida. Aceitação e auto-aceitação.

3) Tapas: literalmente significa aquecer, e, fazendo isso, provocar uma limpeza. Na noção de tapas existe a ideia de que nós podemos nos livrar das impurezas do nosso corpo. Por exemplo, comer sem estar com fome é o oposto de tapas. A atenção na postura e na respiração é um exemplo de tapas. Produz calor espiritual, traz perfeição ao corpo, tornando-o forte e robusto. Não deve ser confundido com autoflagelação.

4) Svadhyaya: significa se aproximar de si mesmo, estudar a si mesmo. Todo o aprendizado, reflexão e contato que o ajude a aprender mais sobre si mesmo é svadhyaya. O estudo de textos sagrados ou a repetição de mantras que tenham por objetivo o autoconhecimento também pode ser considerado svadhyaya, pois nos mostra a ligação da verdade divina com o que foi revelado aos sábios que escreveram os textos ou mantras.

5) Ishvarapranidhana: significa pousar todas as suas preocupações aos pés de Deus. Já que avidya (ignorância) está por trás das nossas ações, elas podem dar errado. Essa é a razão pela qual santosha (modéstia) é tão importante: nós fazemos o nosso melhor e a consequência deixamos para um poder maior.


Os dois primeiros membros, yama e niyama, regem a vida social e pessoal do yogin, a fim de diminuir a produção de volições e ações que só fariam aumentar-lhe a carga kármica. O objetivo do yogi é a eliminação de todo o karma, isto é, de todos os ativadores subliminares (samskaras) embutidos nas profundezas da psique.

Para que essa transformação da consciência tenha êxito, os yogins têm que criar condições ambientais corretas dentro e fora de si. Yama e niyama podem ser vistos como os dois passos nessa direção. A postura, asana, leva esse esforço ao ní­vel do corpo.

Pelo simples praticar de uma dessas virtudes, todas as outras virão. Se uma for consumada, a concentração, a meditação e até mesmo o samadhi serão alcançados. Até quando uma única virtude tornar-se parte da nossa natureza, a mente tornar-se-á límpida e tranquila. Nem haverá necessidade de se “praticar” meditação, pois a pessoa estará sempre meditando, automaticamente.


Visite o website da professora Karin Heuser Wolff em karinyogatips.com

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