O que é Yoga?

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Aula de Yoga em casa. Aluna Raquel em virabhadrasana III, a terceira postura do guerreiro. Foto por Cristiano Bezerra.

Aula de Yoga em casa. Aluna Raquel em virabhadrasana III, a terceira postura do guerreiro. Foto por Cristiano Bezerra.


» por Karin Heuser Wolff

Existem várias linhas, vários métodos de Yoga, e neste artigo pretendo apresentar um apanhado geral do que é o Yoga, suas técnicas, o sistema de Patañjali e a ética do Yoga nos yamas e niyamas.

A palavra Yoga deriva da raiz sânscrita yuj, que significa jungir, atar, reunir, religar, dirigir e concentrar a atenção sobre, usar e aplicar. Significa também união ou comunhão, além de uma atitude da consciência que permite a alguém encarar a vida em todos os seus aspectos com equanimidade.

O Yoga é também descrito como a sabedoria na ação ou a arte de viver com harmonia e moderação em meio às atividades. É estar em qualquer lugar, mas presente no que se está fazendo. É um estado constante de auto-observação, integração e união com tudo que o rodeia e consigo mesmo. É sentir-se parte integrante da vida, da natureza, do universo. Mas Yoga é também trabalho, estudo e principalmente prática, para continuar a renovação e manter os estágios já atingidos.


Na prática do Yoga se busca uma boa integração do corpo, emoções, mente e consciência. Um corpo saudável e com vitalidade, entre todos os requisitos, é o mais básico para esta viagem que é a vida. E o Yoga restabelece a relação primitiva entre o corpo e a mente e devolve equlí­brio ao organismo. O Yoga nos ensina a entender o corpo e a desenvolver a sua sabedoria e inteligência original, através dos asanas, que são as técnicas corporais.

Cada individuo é livre para escolher a forma de Yoga que está em afinidade com o seu caráter, suas aspirações e suas capacidades, ou pode, a seu gosto, recorrer a uma combinação particular dessas diferentes formas. A Bhagavad Gita, texto central do hinduí­smo, nos dá a esse respeito o exemplo de uma fusão harmoniosa das diferentes vias de abordagem, em seus dezoito capí­tulos, cada um dos quais com o nome de um Yoga diferente.

O legado do Yoga foi transmitido oralmente de mestre a discí­pulo por muitas gerações. A palavra sânscrita que designa essa transmissão de conhecimento é parampara, que significa um depois do outro. Muito foi acrescentado, e muito foi abandonado ou alterado. O Yoga não é, de maneira alguma, um todo homogêneo. Os pontos de vista e práticas variam de escola para escola. Não há apenas um Yoga, mas uma variedade de caminhos yogikos e abordagens com estruturas e objetivos teóricos contrastantes, mas todas essas linhas pretendem levar o praticante ao estado de não condicionamento, o estado de libertação, chamado de moksha.


Historicamente, o mais significativo de todos os tipos de Yoga é o sistema clássico de Patañjali, também chamado de Yoga Darshana. Esse sistema representa o resumo de muitas gerações de cultura yogika. Patañjali não criou o Yoga, mas limitou-se a sintetizar o conhecimento védico no Yoga Sutra, ou Aforismos do Yoga, que foi composto em uma época que varia, segundo os eruditos, entre os séculos II a.C. e IV d.C.

Essa obra, de extrema concisão, desenvolvida posteriormente por numerosos comentários, forma o texto base do Yoga como Darshana, isto é, um dos seis pontos de vista sobre a Realidade última e os modos de aproximar-se dessa Realidade.

O sistema de Patañjali é também chamado de Ashtanga Yoga, um Yoga em oito (ashta) partes (angas), ou oito membros. A palavra anga quer dizer membro, ou parte constituinte de um corpo. No presente contexto, obviamente designa as oito subdivisões em que a técnica yogika está dividida.

Esses oito membros são:

    1) Yama: relacionamento com o mundo exterior;
    2) Niyama: relacionamento com o mundo interior;
    3) Asana: estabiildade e conforto na postura;
    4) Pranayama: manipulação da energia vital;
    5) Pratyahara: cessação da influência dos estí­mulos externos;
    6) Dharana: concentração em um único objeto;
    7) Dhyana: meditação, quando o processo de concentração adquire fluidez;
    8) Samadhi: compreensão real do objeto escolhido em dhyana.


Yama e niyama trazem equanimidade ao yogi e o mantêm em harmonia com seu semelhantes. Os asanas conservam o corpo saudável, forte e em sintonia com a natureza. Por fim, o yogi fica livre da consciência do corpo, conquistando-o e tornando-se um veí­culo apropriado para atingir os estágios mais adiantados de consciência. Os primeiros quatro estagios são os esforços exteriores (bahiranga sadhana).

O estágio seguinte, pranayama e pratyahara, ensinam o praticante a utilizar os sentidos de acordo com o seu sankalpa, direcionando assim a mente. Isso ajuda a liberar os sentidos dos objetos. A partir daqui os angas são conhecidos como antaranga sadhana.

Dharana, dhyana e samadhi constituem o samyama (atmaranga sadhana). São as técnicas essenciais do Yoga, passos progressivos do mesmo processo contí­nuo, diferindo entre si somente no grau de concentração e na presença de certas condições definidas e bem marcadas, que distinguem um estágio de concentração do anterior. O resultado da aplicação de samyama com sucesso é, naturalmente, o conhecimento da Realidade que se procura conhecer. E, como cada fração do verdadeiro conhecimento é associada com o poder correspondente, samyama aplicado em um objeto leva ao desenvolvimento de um poder especí­fico associado com esse conhecimento.


Os 5 yamas são:

1) Ahimsa: significa que devemos sempre nos comportar com consideração e atenção aos outros. Também significa gentileza, ser amigável com outros e consigo mesmo. Em todas as situações devemos tomar uma atitude considerada pacífica. Ahimsa cria uma aura de paz que neutraliza sentimentos de inimizade.

2) Satya: significa falar a verdade. É necessário considerar o que falamos, como falamos, e como isso afeta os outros. Satya não deve entrar em conflito com ahimsa. Satya faz com que suas palavras tenham o poder de se realizar.

3) Asteya: Steya significa roubar. Asteya é o oposto. Não devemos pegar nada que não nos pertence, ou tirar vantagem de quem nos confia algo. Observar asteya faz com que obtenhamos, sem esforço, tesouros de todo tipo.

4) Brahmacharya: essa palavra é composta da raiz char, que significa mover-se, e da palavra Brahma, que significa verdade essencial. Podemos entender brahmacharya como um movimento em direção ao essencial. É mais usado em termos de abstinência sexual. Mais especificamente, brahmacharya sugere que devemos formar relacionamentos que nos façam entender as verdades mais nobres. Isso torna o praticante vitalizado, forte e saudável.

5) Aparigraha: significa pegar somente o que é necessário e não tirar vantagem das situações. Faz vir à tona as lembranças de vidas anteriores.


Os 5 niyamas são:

1) Sauchan: significa limpeza, tanto interior quanto exterior, pureza no coração, na mente e no corpo, pureza em pensamento, palavra e ação. “Aquele cuja mente se tornou pura pela concentração e entrou no Si mesmo, sente uma alegria que não se pode descrever por palavras, e que só é inteligí­vel ao instrumento interior, à psique”. (Maitrayaniya Upanishad).

2) Santosha: significa modéstia e a sensação de estar contente com o que se tem. Aceitar os acontecimentos, encarando com equanimidade o sucesso e o fracasso, o prazer e a dor, saindo da dualidade e contente em ser quem é e com este momento da sua vida. Aceitação e auto-aceitação.

3) Tapas: literalmente significa aquecer, e, fazendo isso, provocar uma limpeza. Na noção de tapas existe a ideia de que nós podemos nos livrar das impurezas do nosso corpo. Por exemplo, comer sem estar com fome é o oposto de tapas. A atenção na postura e na respiração é um exemplo de tapas. Produz calor espiritual, traz perfeição ao corpo, tornando-o forte e robusto. Não deve ser confundido com autoflagelação.

4) Svadhyaya: significa se aproximar de si mesmo, estudar a si mesmo. Todo o aprendizado, reflexão e contato que o ajude a aprender mais sobre si mesmo é svadhyaya. O estudo de textos sagrados ou a repetição de mantras que tenham por objetivo o autoconhecimento também pode ser considerado svadhyaya, pois nos mostra a ligação da verdade divina com o que foi revelado aos sábios que escreveram os textos ou mantras.

5) Ishvarapranidhana: significa pousar todas as suas preocupações aos pés de Deus. Já que avidya (ignorância) está por trás das nossas ações, elas podem dar errado. Essa é a razão pela qual santosha (modéstia) é tão importante: nós fazemos o nosso melhor e a consequência deixamos para um poder maior.


Os dois primeiros membros, yama e niyama, regem a vida social e pessoal do yogin, a fim de diminuir a produção de volições e ações que só fariam aumentar-lhe a carga kármica. O objetivo do yogi é a eliminação de todo o karma, isto é, de todos os ativadores subliminares (samskaras) embutidos nas profundezas da psique.

Para que essa transformação da consciência tenha êxito, os yogins têm que criar condições ambientais corretas dentro e fora de si. Yama e niyama podem ser vistos como os dois passos nessa direção. A postura, asana, leva esse esforço ao ní­vel do corpo.

Pelo simples praticar de uma dessas virtudes, todas as outras virão. Se uma for consumada, a concentração, a meditação e até mesmo o samadhi serão alcançados. Até quando uma única virtude tornar-se parte da nossa natureza, a mente tornar-se-á lí­mpida e tranquila. Nem haverá necessidade de se “praticar” meditação, pois a pessoa estará sempre meditando, automaticamente.


Visite o site da professora Karin Heuser Wolff em www.karinhw.com, seu Canal no YouTube, sua fanpage no Facebook e seu perfil no Instagram.


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